Categorias: MÚSICA

Mulheres no rock e a influência de seus trabalhos em nossas vidas

Não é segredo que, desde o seu surgimento, há mais de meio século, o rock sempre foi tido como um gênero de contestação, protesto e rebeldia, muitas vezes associado a movimentos sociais, cujas reivindicações e ideias eram transmitidas através da música. Seu surgimento data do final da década de 1940, um período em que os Estados Unidos se reestruturavam após o fim da Segunda Guerra Mundial, e coube aos jovens questionar a manutenção da ordem vigente e promover mudanças que definiriam as décadas subsequentes.

Ainda que, por algum tempo, mulheres tenham existido de maneira tímida nesses espaços, não demorou para que muitas rompessem barreiras e ascendessem como grandes nomes nesse cenário, construindo trabalhos que centralizavam experiências femininas, a misoginia, o machismo e as discrepâncias de gênero dentro e fora da indústria musical. Suas canções foram responsáveis por dar voz aos nossos conflitos e angústias, transmitir sentimentos e sensações muito íntimas, e servir como inspiração e exemplo de transgressão. Em diferentes épocas e contextos, essas mulheres influenciaram gerações e tornaram-se ícones para jovens mulheres, que encontraram força, compreensão e estímulo em suas letras e melodias. Não há dúvidas de que essas artistas tiveram papéis fundamentais em nossa formação, assim como seus trabalhos, que não apenas ajudaram a construir nossos gostos musicais, mas também a nos entendermos melhor como mulheres. Por essas e outras, é chegada a vez de celebrá-las.

Bella Donna, Stevie Nicks

Por: Michelle Borges

Mulheres no rock

Quando Bella Donna foi lançado, em 1981, Stevie Nicks já era um nome bastante conhecido e respeitado dentro do rock. Porém foi neste momento, depois de mais de uma década integrando o Fleetwood Mac, que ela deu o seu primeiro passo em carreira solo. Muito mais do que lançar um bom álbum, Stevie queria provar para si — e para o público — que era capaz de fazer um ótimo trabalho sozinha e ser reconhecida por isso. Concebido durante uma conturbada turnê do Fleetwood Mac, Bella Donna marca um ponto na vida de Stevie em que ela precisou refletir sobre como estava vivendo e como gostaria de seguir.

No disco, Stevie canta sobre buscar algum equilíbrio e estabilidade em meio à fama, sobre o vício em cocaína e as turbulências de sua vida emocional. De modo geral, a sonoridade do álbum é mais serena e em alguns momentos se aproxima do pop, trazendo uma atmosfera mística imersiva bastante característica do trabalho da cantora. Com letras sinceras, poéticas e cheias de metáforas, as músicas abordam temas como o amor e relacionamentos frustrados, o luto, a fama, a dependência química e a redescoberta de si. O resultado é um trabalho sincero, no qual Stevie Nicks mais uma vez se coloca em uma posição de vulnerabilidade ao mesmo tempo em que enterra um passado atribulado, e sai em busca de uma nova identidade.

Após o seu lançamento, Bella Donna não só foi bem recebido e aclamado pela crítica, como também foi um sucesso de vendas, e hoje, mais de trinta anos depois, permanece como um marco na carreira de uma das artistas mais influentes do rock. Aos 70 anos, Stevie Nicks continua fazendo música e tem administrado muito bem sua carreira solo em paralelo ao Fleetwood Mac, ao passo que continuamos a ter em Bella Donna um trabalho que jamais deixa de ser relevante, e devemos agradecê-la por isso.

Favoritas: “Bella Donna”, “The Edge of Seventeen” e “After The Glitter Fades”.

Cássia Eller Acústico MTV, Cássia Eller

Por: Thay

Mulheres no rock

Houve um período da minha vida em que bastava entrar no carro para minha mãe colocar para tocar o álbum acústico que Cássia Eller gravou para a MTV. Se ela estava nos levando à escola ou indo para o supermercado, não importava: era esse o álbum que ela colocava para tocar. Não demorou muito para que eu decorasse todas as músicas e soubesse cantar qualquer uma delas, sem errar os versos em nenhum momento — algo que consigo fazer até hoje. “Malandragem”, “Todo Amor Que Houver Nessa Vida” e “Relicário” fizeram parte da minha vida e ainda fazem, evocando memórias que nem sabia que ainda existiam sempre que as coloco para tocar.

Cássia Eller nos deixou precocemente, em 2001, mesmo ano em que seu álbum acústico foi lançado, em decorrência de um infarto do miocárdio e três paradas cardíacas sofridas em sequência. Mas seu legado permanece na forma de seis álbuns de estúdio e quatro gravados em shows. Além de ser uma cantora e instrumentista super competente, Cássia Eller é considerada um dos maiores nomes do rock brasileiro dos anos 1990 — e de sempre —, eleita, inclusive, uma das maiores artistas da música brasileira pela revista Rolling Stone. Ainda que não tenha composto muitas letras — a própria dizia que era melhor intérprete do que compositora — suas versões de clássicos de Renato Russo, Cazuza e Nando Reis permanecerão para sempre no meu coração.

Favoritas: “1º de Julho”, “Luz dos Olhos” e “Todo Amor que Houver Nessa Vida”. 

Days Are Gone, HAIM

Por: Ana Luíza

Mulheres no rock

Lançado em 2013, Days Are Gone é o primeiro álbum de estúdio das irmãs Danielle, Este e Alana Haim e se tornou um grande sucesso sem demora: o trio californiano logo cairia nas graças do público e da crítica, consagrando as expectativas em torno de seu primeiro trabalho e estabelecendo parcerias com bandas de renome como Mumford & Sons e Florence and the Machine.  Foi apenas em 2015, no entanto, quando se tornaram atração de abertura para alguns shows da The 1989 Word Tour, de Taylor Swift, que tive meu primeiro contato com o trio.

Unindo referências que vão desde o rock dos anos 70 ao soft rock da década seguinte, até gêneros como folk e R&B, Days Are Gone é um álbum bastante sólido, que expõe a versatilidade e talento das irmãs de uma maneira muito segura e que soa mais experiente do que supõe um trabalho de estreia. Todas as faixas parecem um single em potencial, com refrões que grudam facilmente e melodias que soam, ao mesmo tempo, nostálgicas e incrivelmente atuais — consequências das referências que carregam, novas e antigas, e se misturam para dar corpo a algo inteiramente novo. São as letras, no entanto, o seu grande destaque, que contempla, a partir de experiências particulares do trio, narrativas universais sobre ser uma jovem mulher no século XXI — do término de um relacionamento à inescapável constatação de que nem sempre podemos ser salvas. Entre sentimentos conflituosos e situações tão irônicas quanto contraditórias, o trio evidencia a multiplicidade de sentimentos e todas as pessoas que existem dentro de nós.

Favoritas: “The Wire”, “Don’t Save Me” “Running If You Call My Name”.

Fallen, Evanescence

Por: Thay

Mulheres no rock

Durante minha adolescência, como boa representante do clã gótico das trevas, foi fácil amar Amy Lee e o Evanescence quando eles apareceram na mídia. Fallen, álbum de estreia da banda norte-americana, vendeu mais de 17 milhões de cópias no mundo todo e recebeu cinco indicações no Grammy de 2003. O sucesso do debute foi responsável por colocar Amy Lee e companhia de vez sob os holofotes e, nesse cenário, e do alto de todo o meu sentimentalismo adolescente, adotei as letras do Evanescence como mantras a serem repetidos a todo momento — ou escritas vezes sem fim nas páginas do meu fichário do colégio.

“Bring Me To Life”, primeiro single da banda, foi escrita por Amy Lee para Josh Hartzler, com quem ela se casaria anos mais tarde, em 2004, mas poderia ser para qualquer pessoa que te vê além da superfície, “trazendo-o à vida”. Outra favorita presente em Fallen é a icônica “My Immortal”, escrita por Ben Moody (que deixaria a banda em 2003), que fala sobre a dor que fica quando um ente querido nos deixa; “Everybody’s Fool”, por outro lado, critica a superficialidade das pessoas que fingem ser quem não são apenas para serem aceitas. A música, escrita por Amy Lee quando era adolescente, assumiu, para ela, outros significados com o passar dos anos, mas para mim, à época do ensino médio, estava na medida certa. Hoje, tanto eu quanto Amy entendemos que há muito não sabemos sobre a vida do outro e que não está em nosso poder julgar quem quer que seja.

Favoritas: “Bring Me To Life”, “Hello” e “My Immortal”. 

Forgotten // Pleasures, Findlay

Por: Manu Santos

Mulheres no rock

Forgotten // Pleasures foi oficialmente anunciado no final de 2016 como o primeiro álbum de estúdio da britânica Natalie Rose Findlay, que lançou seu primeiro single em 2012 e decidiu seguir carreira musical após sair da escola e perceber que “não havia mais nada que ela soubesse fazer”. Nascida em 1991, Findlay é uma millennial da região de Manchester, de onde vieram bandas como New Order, Oasis e The Smiths; e se a sua música não se parece tanto com a dos conterrâneos, podemos traçar um paralelo entre a originalidade do seu som e o deles, numa época em que a maioria das mulheres conhecidas no rock se aproxima mais de vertentes de gêneros como o pop e o folk.

Findlay é extrovertida, começou a escrever música muito cedo e sua história lembra um pouco a da também cantora Amanda Palmer, de dormir em sofás de amigos e passar o tempo todo dedicado-se à sua arte, escrevendo canções ou em turnê. Num momento em que muitos artistas constroem uma legião de fãs com base nas redes sociais, seu maior trunfo é realmente a sua música, um rock angustiado acompanhado de guitarras estridentes que é bastante diferente daquilo que nos chega nas propagandas do Spotify — Findlay tem uma voz muito vibrante e viva, que carrega muita emoção e dificilmente falha em me fazer vibrar. Dá quase para sentir a intensidade daquilo que ela coloca em suas canções, seja amor (“Monomania”), tristeza sufocante (“Forgotten Pleasures”) ou raiva (“Off & On”). Em um total de 13 faixas, entre inéditas e material já conhecido de EPs anteriores, Forgotten // Pleasures fornece um material que contrasta entre si, mas que ao mesmo tempo compõe uma seleção completa de emoções — com uma pitada de rebeldia em todas elas.

Favoritas: “Electric Bones”, “Off & On” e “Greasy Love”.

Girl Talk, Kate Nash

Por: Anna Vitória

Mulheres no rock

Quando foi lançado, em 2013, o terceiro álbum de Kate Nash foi recebido pela crítica de uma forma condescendente. Era um trabalho bem diferente do que a cantora britânica revelada pelo MySpace alguns anos antes havia feito até então: um indie de roupagem fofa e letras ora ácidas ora sentimentais ora divertidas, resumido perfeitamente em “Foundations”. Não foi só com sua grande gravadora que Kate Nash rompeu ao lançar esse novo álbum (por meio de financiamento coletivo): foi-se embora também o cabelo ruivo com franja, os vestidos vintage e o som do piano. Em Girl Talk, Kate Nash GRITA. E faz rap. E toca baixo à frente de uma nova banda, toda formada por garotas, a sua Girl Gang. Ela descoloriu metade dos cabelos, passou a se apresentar com meias-arrastão rasgadas, vestidos desconstruídos e lingerie à mostra, e começou a falar abertamente sobre feminismo em suas letras. Seu som passou a ser uma mistura dos ruídos das riot grrrls com o apelo romântico de girl groups dos anos 60 e marra de Courtney Love.

A condescendência da crítica com sua nova fase veio do fato de que havia pouca, ou quase nenhuma, sutileza nessa virada punk da artista. Ao ouvir “Rap for Rejection” [“Você tenta me dizer que sexismo não existe/Mas se ele não existe/Então que merda é essa?”], a impressão que temos é que um clichê de garota branca rebelde que acabou de descobrir o feminismo vomitou sobre Kate Nash. Encerrar a análise por aí, no entanto, é ignorar sua trajetória e sua coragem de romper com ela, bem como sua coragem de expor de forma tão visceral esse processo de se descobrir. Kate Nash tinha 25 anos quando lançou Girl Talk, que soa muito como um álbum adolescente no melhor sentido possível, porque mergulha sem vergonha ou restrições nesse mundo novo que estava sendo descoberto pela artista, não importa quantos anos ela tenha. É um mundo em que ela sente raiva, quer quebrar tudo, ainda acha o Tarantino o cara mais legal do mundo e não cansa de se apaixonar. É meio bobo e profundamente sincero, apesar da roupagem nervosa, e por isso é tão tocante, um som que continua fazendo sentido mesmo cinco anos depois, para os corações que não envelhecem e não têm problema em às vezes perder a voz de tanto gritar.

Favoritas: “Conventional Girl”, “Part Heart” e “Sister”.

Jagged Little Pill, Alanis Morissette

Por: Ana Luíza

Mulheres no rock

Quando Jagged Little Pill foi lançado, no já distante ano de 1995, eu tinha apenas dois anos, mas não é uma surpresa que, mais de 20 anos depois, o terceiro álbum de estúdio da canadense Alanis Morissette, e o primeiro de sua carreira a ser lançado internacionalmente, continue a conversar com tantas mulheres, geração após geração, muitas em princípio tão diferentes entre si. Nele, a cantora fornece um olhar muito honesto e profundo sobre conflitos, sentimentos e experiências não necessariamente universais, mas que conversam intimamente com a vivência de jovens mulheres, sobretudo no início da idade adulta.

Ao mesmo tempo, Alanis canta sobre suas dores com uma ferocidade impressionante, que não apenas a estabeleceria como uma artista única, mas como um exemplo de que mulheres também podiam ser barulhentas; que a raiva que ela sentia, e tantas de nós também, tanto não era um pecado quanto não a transformava no clichê unidimensional da jovem mulher raivosa — o que, como a própria viria a revelar mais tarde, nem mesmo ela era o tempo inteiro. O fato de ter alcançado o cenário mainstream e invadido espaços que outras artistas não conseguiram ocupar também foi importante na medida em que a transformou na voz de uma nova geração de mulheres, que ainda muito jovens ouviriam suas canções e aprenderiam com elas a não ter medo de viver, amar, chorar, perder ou gritar, principalmente gritar, porque tudo isso eram aprendizados, que cresceriam com menos pudores depois de seguirem as recomendações da cantora de andar nua pela casa, que se sentiriam mais livres e mais donas de si sem nenhuma ironia.

Favoritas: “Hand In My Pocket”, “You Learn” e “Ironic”.

Let Go, Avril Lavigne

Por: Manu Santos

Mulheres no rock

Lançado em 2002, há 16 anos, Let Go, primeiro álbum da então desconhecida Avril Lavigne, contribuiu para transformar o cenário musical do início dos anos 2000 e fortalecer a cena pop punk que, no início daquela década, estava longe de ter a projeção que alcançaria anos mais tarde. Na época com 18 anos, a jovem canadense tornou-se rapidamente famosa e logo firmou sua imagem de roqueira — que até hoje nos remete ao visual inesquecível composto por calças cargo, gravatas e muito lápis preto nos olhos, o que gerava um contraste perceptível em comparação com outras artistas da época, principalmente cantoras de gêneros como pop e R&B. Para muitas meninas da época, Avril foi o primeiro ícone de rebeldia, servindo de inspiração para muitas das auto-intituladas “sk8er girls“.

Em Let Go, a cantora lançou as fundações para o sucesso ainda maior que viria com seu segundo álbum de estúdio, Under My Skin, lançado em 2004, mas é no trabalho de estreia que dá para sentir mais da adolescente comum de uma cidadezinha canadense que não se encaixava na escola. É uma tarefa quase impossível não se identificar com os temas destrinchados nas 13 músicas que compõe o álbum, que falam desde as angústias e inseguranças inevitáveis da adolescência, até relacionamentos amorosos, autoimagem e o futuro. Let Go é, ainda, um CD especialmente nostálgico para quem viveu esse período com a cantora, que oferecia uma trilha sonora em tempo real quando ouvíamos no discman trechos como “I’ve never felt like this before/I’m naked around you/does it show?” [“Nunca me senti assim antes/estou nua perto de você/dá pra ver?”] e “I’d rather be anything but ordinary, please” [“Eu preferiria ser qualquer coisa menos comum, por favor”].

Favoritas: “Nobody’s Fool”, “Things I’ll Never Say” e “Sk8er Boi”.

Light Me Up, The Pretty Reckless

Por: Michelle Borges

Disco de estreia da banda norte-americana The Pretty Reckless, Light Me Up foi lançado em 2010 e é a reunião de quase todos os clichês possíveis do rock’n roll. Liderada pela também atriz Taylor Momsen, que na época tinha apenas 16 anos e havia recém deixado o elenco do drama teen Gossip Girl para seguir com a carreira musical, a banda faz um som fortemente influenciado por medalhões do rock, como Led Zeppelin e Black Sabbath e, ao mesmo tempo, traz de volta a sonoridade da cena de Seattle no início dos anos 1990.

Ao analisar brevemente a capa do disco, com a fotografia de uma garotinha de jaqueta de couro que olha diretamente para a câmera, enquanto segura um isqueiro aceso, já é possível ter um prenúncio do que os próximos trinta e quatro minutos trarão. Desde a faixa de abertura com ares de Nirvana — que parece dar continuidade à cena da fotografia, com uma Taylor que acende um cigarro antes de começar a cantar — até a melódica balada acústica que encerra o disco, todas as letras discorrem acerca de temas já conhecidos dentro do gênero: sexo, drogas, álcool, raiva, corações partidos, autodestruição, agressividade e um quê de decadência. Tudo isso acompanhado por vocais fortes, cheios de personalidade e bastante seguros para alguém ainda tão jovem.

Por meio de trechos aparentemente simples — e, talvez, até um pouco caricatos — como “after Jesus and rock’n roll couldn’t save my immoral soul/ I’ve got nothing left to lose” [“depois que Jesus e o rock’n roll não puderam salvar minha alma imoral/ eu não tenho nada a perder”] e “just tonight I won’t leave/ and I’ll lie and you’ll believe” [“Só por essa noite não vou embora/ e eu mentirei e você vai acreditar”], Taylor Momsen fala sobre relacionamentos fadados ao fracasso desde o início e sobre o seu sofrimento ao se resignar com o fim ou com a decisão de permanecer dentro de uma relação nociva. É triste, é trágico, é sincero. Assim como a atmosfera de angústia disfarçada de euforia regada a álcool e drogas que permeia todo o álbum. Por mais que não seja algo completamente inovador, o interessante aqui é poder acompanhar essa narrativa de autodestruição pela perspectiva feminina. Depois de décadas escutando marmanjos lamentando suas tragédias e revelando o que há de mais feio em suas vidas de rockstar, é maravilhoso poder escutar o que uma mulher tem a dizer sobre isso também. É isso que Taylor Momsen faz, sem precisar se desculpar, sem forçar uma felicidade ou a esperança de que irá se sentir melhor e simplesmente aceitando o lado ruim da vida.

Favoritas: “Make Me Wanna Die”, “Nothing Left To Lose” e “Factory Girl”. 

More Adventurous, Rilo Kiley

Por: Anna Vitória

Jenny Lewis, líder do Rilo Kiley, é a mulher que eu queria ser quando tinha 18 anos. E 19. E 20. E mesmo agora, aos 24, uma idade em que talvez já seja um pouco cafona admitir que seu sonho é ser uma cantora indie de franjinha, que toca guitarra usando hot pants e botas. Já faz uns anos que o Rilo Kiley acabou e a própria Jenny Lewis já está em outra, talvez olhando para o passado e se achando muito clichê de musa indie, mas ainda gosto de quem eu sou, ou pelo menos de quem eu imagino que seja, quando ando pela rua ouvindo “Portions For Foxes” imaginando que a música é a trilha sonora do filme da minha vida.

More Adventurous, título do meu álbum favorito da banda, lançado em 2004, faz referência a um poema de Frank O’Hara, “Meditations in an Emergency”, que diz o seguinte: “Each time my heart is broken it makes me feel more adventurous”. A cada vez que meu coração é quebrado, me sinto mais aventureira. Foi com Jenny Lewis e as letras do Rilo Kiley que aprendi muito sobre encarar meus medos, porque minha vontade de ser mais aventureira era maior que eles. Ainda é. E quando falta a coragem, sei que sempre vou ter esse disco. Em More Adventurous (e em todas as suas letras, dentro e fora da banda, para ser sincera) sinto que Jenny Lewis fala comigo como uma irmã mais velha infinitamente mais sábia e descolada, um espaço que ela sempre vai ocupar por mais que o tempo passe e minha percepção da vida, da música, e até dela como artista, mude. Quando era mais nova, adorava a lenda de que Jenny teria gravado “I Never” nua no estúdio, para estar em contato radical com a vulnerabilidade da letra, coisa que hoje em dia acho meio afetada demais, mas uma ótima anedota de constrangimento. É sobre isso, afinal, que ela canta. Nosso coração se quebra, acumulamos histórias constrangedoras, mas é assim que nos tornamos cada vez mais aventureiros — e livres.

Favoritas: “Does He Love You?”, “Portions For Foxes” e “More Adventurous”.

Parallel Lines, Blondie

Por: Manu Santos

O terceiro álbum de estúdio da banda americana Blondie é também o mais famoso trabalho do grupo, contendo em suas faixas sucessos mundiais como “Heart Of Glass” e “One Way Or Another” (o último teve uma versão cover gravada pela banda One Direction em 2013, e também apareceu na trilha sonora de Mean Girls, em 2004). Lançado em 1978, o trabalho mistura o new wave com o pop rock; e numa época em que a música disco dominava as paradas musicais, Parallel Lines encontrou o seu espaço, e continua sendo ótimo quatro décadas depois.

Deborah Harry — a vocalista de cabelo louro platinado por diversas vezes tida como artista solo à frente da banda — foi um ícone do punk rock e até hoje continua na ativa com a banda. É impossível falar do Blondie sem falar da sua beleza extraordinária e chamativa, e que desde muito cedo foi usada pela própria cantora como estratégia para promover a banda, apesar das muitas críticas que sofreu. Debbie desenvolveu trabalhos solo e com a banda, e mesmo hoje continua a seguir com sua carreira na música, como uma lenda viva e o símbolo de um momento na história da música que todos os fãs de rock dizem querer poder (re)viver.

Parallel Lines é um álbum bem-feito e adorado pela crítica até hoje, quarenta anos depois de seu lançamento, mas não é apenas isso: é um trabalho sobre amor, corações partidos e emoções geradas por tudo isso numa era dourada para o rock n’ roll. A voz de Debbie, potente e flexível, é perfeita para dar corpo às letras, variando entre graves e agudos impressionantes, o que faz dele uma companhia ideal para cantar no chuveiro, no carro ou onde for necessário.

Favoritas: “Picture This”, “One Way Or Another” e “11:59”.

Riot!, Paramore

Por: Ana Luíza

Em uma época em que músicas eram compartilhadas em conversas no MSN Messenger, o Paramore surgiu por indicação de uma amiga de internet que me enviou dois singles do seu primeiro álbum, All We Know Is Falling, lançado em 2005: “Pressure” e “Emergency”. O disco reúne temas que vão desde a solidão, a quebra de expectativas e a desesperança, que constroem a sensação mais ampla de desmoronamento, como sugere seu título. Em um âmbito pessoal, não eram questões que conversavam comigo, não naquele momento específico (isso só viria a acontecer alguns anos depois), mas a sonoridade foi suficiente para que a banda logo se tornasse uma favorita.

Riot!, segundo álbum da banda, foi lançado em 2007 e manteve muitas das características de seu sucessor: estavam lá as guitarras vibrantes, a voz tão doce quanto potente de sua vocalista, Hayley Williams, e as letras sempre tão intensas. Mas tudo isso é feito de um lugar mais maduro tanto pessoal quanto artisticamente, e embora soe como uma explosão de emoções (como a própria Hayley viria a descrevê-lo na época), Riot! traz uma abordagem mais objetiva, e um som consideravelmente mais limpo. Não é difícil entender por que ele foi o grande responsável por alçar o Paramore ao estrelato, cujo público já não mais se restringia aos jovens que passavam suas músicas de uns para os outros, tornando-se exponencialmente mais amplo. Mais do que isso, o álbum foi o divisor de águas para uma geração em formação, que transformou o Paramore não apenas em uma banda de sucesso, mas em uma referência de estilo e atitude.

Dez anos depois, Riot! ainda é o marco de uma época mais descompromissada, de festas ruins, roupas coloridas e cabelos cor de cenoura, relacionamentos tão efêmeros quanto descomplicados e, sobretudo, o lembrete de uma rebeldia que continua a existir até hoje. Sejamos sempre rebeldes.

Favoritas: “Misery Business”, “When it Rains” e “Born For This”.

Rita Lee Acústico MTV, Rita Lee

Por: Thay

Quando Rita Lee Acústico MTV foi lançado eu ainda era criança, mas meus pais, fãs da cantora, sempre colocavam as músicas para tocar. Ainda que esse não tenha sido o único álbum a visitar o som lá de casa, é dele que sempre me lembro quando penso em Rita Lee, e as versões acústicas de suas músicas seguem sendo minhas favoritas mesmo anos depois. O álbum começa com “Só Falta Você”, uma das mais famosas canções da cantora, e segue com outros hits como “Doce Vampiro”, “Desculpe o Aue” e “Mania de Você”. As dezoito canções presentes no álbum passeiam pela carreira de Rita e contam com convidados especiais como Cássia Eller, Nando Reis e Paula Toller, só para citar alguns.

Rita Lee é uma preciosidade da música nacional e isso fica evidente em sua profícua carreira de rockstar. Se, quando mais nova, pensava em seguir na odontologia, a mesma profissão do pai, e até tentou fazer um curso superior em Comunicação Social na Universidade de São Paulo, seu destino era mesmo ser coroada a rainha do rock brasileiro. Com influências que variam de Beatles — sua banda favorita — a Maysa, Rita Lee marcou suas canções com opiniões fortes e citações feministas, cantando versos que rompiam com os padrões de um país tão machista quanto o nosso. Quando criança, ouvindo canções como “Lança Perfume” e “Ovelha Negra”, eu não poderia entender a dimensão dessas canções — muitas delas escritas durante a Ditadura Militar, vale frisar —, mas hoje em dia vejo o quanto ela fez tudo o que queria fazer, me ensinando “que é melhor não ser um normal”.

Favoritas: “Agora Só Falta Você”, “Doce Vampiro” e “Ovelha Negra”.

Tragic Kingdom, No Doubt

Por: Thay

Gwen Stefani, muito provavelmente, foi a primeira cantora a assumir o posto de musa inspiradora em minha vida. Do alto dos meus sete anos eu não fazia ideia do que ela cantava em “Don’t Speak”, mas sua voz melodiosa e o vídeo que passava inúmeras vezes na MTV me faziam ter a certeza de que seria fã daquela mulher pelo resto da minha vida. Algum tempo depois, e com alguns anos a mais na conta, peguei o álbum Tragic Kingdom, do No Doubt, para ouvir e meus sentimentos de criança jamais poderiam me preparar para o que encontraria naqueles versos e arranjos. O terceiro álbum de inéditas da banda foi o responsável por consolidá-la entre as melhores de seu gênero — uma mistura de ska, rock e música alternativa — e fazer de Gwen Stefani uma das maiores vocalistas de sua geração.

“Don’t Speak” foi, possivelmente, um dos maiores hinos dos corações partidos da década de 1990, enquanto “Just a Girl” permanece tão atual quanto se tivesse sido lançada em 2018. Já adolescente, eu sempre me voltava para as letras escritas por Gwen quando estava me sentindo desolada ou irritada com alguma coisa, e ouvi-la cantar sobre o quanto estereótipos de gênero a incomodavam era quase uma validação para os meus próprios sentimentos. Ainda que eu não tivesse passado por um rompimento difícil como o que aconteceu entre Gwen e Tony Kanal, o baixista da banda, os versos doloridos de “Don’t Speak” conversavam comigo mesmo assim — sentir que algo é real, sentir que algo tinha tudo para ser, e ver aquele relacionamento se desfazer em lágrimas era dolorido. Explicações abrem as feridas e é melhor não mexer em muitas delas pois machuca.

Favoritas: “Don’t Speak”, “Just A Girl” e “Sunday Morning”.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui

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