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Os 20 anos de Moulin Rouge!

“A coisa mais importante que se pode aprender é amar e ser amado em troca”. Essas palavras são ditas por Christian (Ewan McGregor) em Moulin Rouge!, musical dirigido por Baz Luhrman, que depois de vinte anos ainda tem o seu valor. No fim, tudo o que uma pessoa pode querer é ser amada. Sempre desejamos mais amor para as outras pessoas, e ainda que seja um clichê, não deixa de ser verdade. Cada dia que passa pensamos como está faltando amor no mundo, então Christian e os boêmios ainda podem nos ensinar muito sobre a importância do amor.

O jovem aspirante a poeta chega em Paris com desejo de viver um grande amor — não queremos todos? — e também de viver como um grande boêmio que acredita na liberdade, na beleza, na verdade e, é, claro, no tão citado amor. E então se apaixona perdidamente por Satine (Nicole Kidman), a cortesã conhecida como Sparkling Diamond no clube de dança burlesca Moulin Rouge. E para encurtar a história, os dois acabam por viver um amor proibido, onde Christian acaba tomado pelo ciúme que, nesse caso, é tão poderoso quanto o amor.

Christian foi um romântico, não só pela paixão por Satine, mas também por romantizar a vida em si. Ver as coisas com um olhar cor-de-rosa, acreditar nos ideais boêmios como uma criança acredita em Papai Noel, até ser corrompido pelo ciúme e perder a confiança que tinha no amor em sua forma mais pura. Apesar de nos ensinar que o amor é a coisa mais importante na vida, ao observarmos as atitudes do protagonista, vemos como a fé cega no amor é algo quase tão perigoso quanto viver a vida sem acreditar nele.

Embora sejam apaixonados um pelo outro, Christian, vivendo a existência de um poeta boêmio, não é capaz de dar à Satine o que ela deseja; o Duque (Richard Roxburgh), enquanto isso, não ama Satine, mas pode dar a ela tudo o que o dinheiro é capaz de comprar. O que o Duque sente por Satine é completamente diferente do que Christian sente por ela: aquele quer ter a posse de Satine, enquanto esse quer amá-la por completo. Mas mesmo o sentimento de Christian, puro em sua essência, começa a ser corrompido devido ao ciúme que o poeta sente do Duque. O amor, antes visto por Christian como algo de maior importância, começa a ser deturpado, e ele passa a rivalizar com o Duque, também querendo tomar Satine como sua posse.

Já Satine, como a cortesã que se vende para conseguir viver, nunca acreditou nesse amor romântico até conhecer Christian. Ela acreditava que não podia se dar ao luxo de amar ninguém, porque tinha que, em primeiro lugar, sobreviver. Satine nunca teve a oportunidade de escolher levar a vida que desejava e, tanto por isso, passa a acreditar que o amor romântico não é feito para ela — pelo menos até Christian aparecer, fazendo-a perceber que é tão digna de amar e ser amada como qualquer outra pessoa, mesmo que essa realização tenha chegado tarde demais em sua vida.

O que um amor trágico como o de Satine e Christian pode nos ensinar em pleno 2021? Uma coisa pode ser dita: que Satine não deveria esconder seus sentimentos de ninguém, nem dela mesma. Ser fiel à sua verdade é algo que poucos são capazes de fazer, e embora a situação de Satine fosse precária, inclusive estando à beira da morte, o amor ainda vale a pena. E Christian, perdendo a inocência e vendo, talvez pela primeira vez, a vida sem seus óculos cor-de-rosa, tornando-se ciumento e possessivo, esquece os ideias pelos quais dizia viver ao se ver confrontado com a realidade trágica de seu relacionamento com Satine.

A tragédia desse amor que perde para a morte, pode nos ensinar que, ainda assim, vale a pena lutar pelo amor. Nós todos desejamos amar e ser amados, e ver como Christian e Satine se amaram enquanto puderam, nos faz querer esse amor também — sem a parte do ciúme e da morte dramática, claro! A morte é anunciada desde o começo no filme, e como na vida real, é a única coisa da qual temos certeza, mas ainda assim, mesmo sabendo que ela está espreitando, nos sentimos roubados por ela, quando nos tirou Satine. E, como diz, Christian: “para que viver, senão por amor?” A única certeza que temos é de que a morte vai chegar para todos, então enquanto isso, torcemos para que sejamos amados e possamos amar. E que façamos do amor, liberdade, confiança e comunicação os novos ideais boêmios para se carregar por aí.

Das telonas para a Broadway

Vinte anos após o lançamento do filme de Baz Luhrman, novas encarnações de Christian e Satine chegam à Broadway com a atriz Natalie Mendonza substituindo Karen Olivo no papel da cortesã. O musical chegou aos palcos em 2019, recebeu indicações no Tony Awards 2020 — Moulin Rouge! levou 10 estatuetas, incluindo Melhor Ator em Musical, Ator Coadjuvante, prêmios técnicos e o de Melhor Musical — e voltou a ser exibida em setembro desse ano. Desde seu lançamento off-broadway, algumas mudanças consideráveis aconteceram na história.

A peça é conhecida como um jukebox musical, ou seja, um gênero que conta com músicas popularmente conhecidas e adaptadas para os palcos. As músicas de Moulin Rouge! receberam arranjos de Justin Levine e uma das grandes mudanças de filme para palco se trata da substituição do solo de Satine de “One Day I’ll Fly Away” para “Firework” da Katy Perry. Grandes nomes da música pop estão na nova roupagem musical da produção, como Lady Gaga, Britney Spears, Lorde, Adele e Rihanna. Elton John e sua balada romântica “Your Song” permaneceram, assim como a canção secreta dos amantes, “Come What May”.

Outra mudança de número musical significativa, foi a de cortar “Like a Virgin” de Madonna e dar ao Duque de Monroth (Tam Mutu) um medley musical que transformasse o personagem em um homem mais sensual e ameaçador, deixando de lado a figura caricata e um tanto quanto fraca do duque do filme que, mesmo sendo rico, não é páreo para Christian (Aaron Tveit) — vencedor do prêmio de Melhor Ator, sendo o único indicado no Tony 2020. Mesmo sem concorrentes, Tveit ainda tinha chances de perder se tivesse menos de 60% dos votos, o que não aconteceu. Em termos de arcos dos personagens, Satine vê o Moulin Rouge como uma família: enquanto no filme ela espera escapar para uma vida melhor, na peça a protagonista deseja essa vida melhor para toda a família de desajustados que são as pessoas que trabalham no cabaré. Nini (Robyn Hurder) não é mais tão rival da protagonista, embora a personagem ainda seja um tanto quanto cínica; na peça, ela e as outras dançarinas se tratam com um pouco mais de empatia, o que é uma boa atualização para a montagem que veio abordando a história com temas mais relevantes para o público vinte anos depois.

Os amigos de Christian, protagonizam grandes momentos na peça, Henri de Toulouse-Lautrec (Zahr Ngaujah) e o argentino Santiago (Ricky Rojas) são responsáveis por introduzir o protagonista ao mundo dos boêmios e desajustados. O álbum do Original Cast Recording está disponível no Spotify e em outras plataformas de streaming para quem quer curtir um pouquinho do ritmo mesmo longe dos palcos da Broadway.

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