Categorias: ENTREVISTA, LITERATURA

De Frente com Valkirias: Louise O’Neill

Quem nunca imaginou como seria viver como uma sereia que atire a primeira pedra. Desde o lançamento de A Pequena Sereia em 1989, animação baseada no conto de Hans Christian Andersen, que meninas — e meninos! — de todo o mundo renderam-se aos encantos do fundo do mar, imaginando em brincadeiras como seria ter uma cauda e amigos como Linguado e Sebastião. Mas o cerne do filme da Disney tem contornos muito mais sombrios e mórbidos do que nossas mentes infantis poderiam imaginar ao ver Ariel cantando “Parte do Seu Mundo”, e é na fonte original, e lúgubre, que Louise O’Neill buscou inspiração para o seu A Pequena Sereia e O Reino das Ilusões, lançando recentemente no Brasil pela DarkSide Books.

A autora, nascida na Irlanda em 1985, divide seu tempo de escrita entre os livros e os jornais, visto que trabalha como freelancer para algumas publicações irlandesas cobrindo pautas feministas, de moda e cultura pop. Louise trabalhou como colunista semanal da Irish Examiner e contribuiu com a coletânea I Call Myself A Feminist, um livro onde mulheres com menos de 30 anos explicam o que as fizeram se identificar com o movimento. Entre escritos e conquistas, Louise O’Neill recebeu o Literature Award e o Irish Tatler Women fo the Year Awards de 2015, foi a Melhor Autora no Stellar Shine Awards também de 2015 e levou consigo o Praeses Elite Award do Trinity College de Dublin.

Seu primeiro livro, Only Ever Yours (As Filhas de Eva, em português) foi publicado em 2014 e lhe rendeu o Sunday Independent Newcomer of the Year. Asking For It (A Culpa é Minha), seu segundo livro, tem os direitos de adaptação para a televisão nas mãos da produtora Bandit Television enquanto Only Ever Yours está com a Killer Content para também ser transformada em série de televisão. Aos 34 anos e com uma carreira à todo vapor, o primeiro livro de Louise a chegar no Brasil é A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões, e a autora concordou em responder algumas questões do Valkirias a respeito do processo de escrever um romance baseado em um conto tão controverso e a experiência de trazer o feminismo para o fundo do mar.

Você tem planos de continuar explorando contos de fada, trazendo novas versões de histórias famosas? Quais contos de fada você acredita que merecem uma releitura no estilo A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões?

Louise O’Neill: Me pediram para reescrever A Pequena Sereia de uma perspectiva feminista e o motivo de eu ter aceitado foi porque eu era obcecada por esse conto de fadas quando era criança. Não tenho certeza se eu teria aceitado pegar outro projeto cuja a história original não fosse tão próxima! Dito isso, eu me diverti imensamente escrevendo esse livro, eu adorei trabalhar com a minha editora e achei as leituras acadêmicas sobre contos de fadas completamente fascinantes. Se eu encontrasse a história certa, agarraria a chance de fazer outra releitura. Existem tantas histórias que nós lemos quando crianças que contém estereótipos prejudiciais e problemáticos.

Além de A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões, você já publicou outros três livros, Only Ever Yours (As Filhas de Eva), Asking For It (A Culpa É Minha) e Almost Love. Que outros temas ou histórias você gostaria de escrever sobre?

L.O.N.: Meus livros são tão diferentes um do outro e, ainda assim, têm um tema parecido percorrendo todos eles — as questões feministas. Me sinto atraída por contar histórias sobre mulheres, por explorar os aspectos sombrios das nossas experiências. Não tenho certeza sobre o que me aguarda no futuro, mas sei que quero continuar contando histórias que tem um ponto de vista, politicamente falando. Me sinto atraída pela arte que tem algo a dizer.

A história de Gaia e suas irmãs é triste e dolorosa em muitos níveis. Você se lembra de algum momento em que precisou parar e respirar fundo antes de voltar a escrever? Até mesmo a história das Rusalkas, baseada na mitologia eslava, é triste e desesperadora. Por que você as incluiu na sua história de A Pequena Sereia?

L.O.N.: Eu pesquisei muito durante a escrita desse livro, o que me levou às Rusalkas, criaturas da mitologia eslava. Elas eram geralmente mulheres que haviam morrido em circunstâncias trágicas — mães solteiras que morreram dando à luz, suicídios após terem sido abandonadas no altar — e isso me lembrou do passado do meu próprio país, em particular dos Asilos de Madalena. A Irlanda era um país muito católico e mulheres solteiras eram colocadas nessas instituições administradas por freiras católicas e eram tratadas com uma crueldade inimaginável, seus bebês eram tirados delas assim que nasciam. Eu decidi inserir um pouco disso na trama da narrativa, e acho que é de partir o coração pensar sobre o que essas mulheres tiveram que aguentar apenas por expressarem sua sexualidade.

A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões pode ser um banho de água fria para os leitores que esperam uma história como a animação da Disney. O que você diria para esses leitores sobre a importância de uma releitura como a de A Pequena Sereia?

L.O.N.: Eu amei a versão da Disney! Foi lançada quando eu tinha só 4 anos, então eu estava na idade perfeita para me apaixonar pela Ariel. Mas não podemos negar que ela tem uma mensagem preocupante — temos aqui uma jovem mulher que, literalmente, abre mão de sua voz e mutila seu corpo com o objetivo de fazer um homem que ela mal conhece se apaixonar por ela — e o conto de fadas original é ainda mais violento e mórbido. Acho que é essencial trazermos essas histórias para a luz e as examinarmos mais atentamente, para que vejamos quais mensagens internalizamos através do seu consumo.

Sobre escritoras: quem são as suas favoritas e as suas inspirações? E como foi sua experiência ao reescrever a releitura desse conto de fadas famoso?

L.O.N.: Existem tantas escritoras que eu amo. Marian Keyes, Curtis Sittenfeld, Zadie Smith, Donna Tartt, Margaret Atwood, Toni Morrison, Catherine Doyle, Meg Wolitzer — poderia ficar aqui pra sempre.

E sobre a minha experiência ao escrever A Pequena Sereia, eu me diverti tanto! Acredito que foi a experiência mais divertida que já tive escrevendo um romance.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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