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#DeixaElaTrabalhar: por que mulher falando de futebol incomoda tanto?

Num mundo onde há jornalistas que acham que esporte não é lugar de política, ser mulher e viver o futebol é o maior dos atos políticos. Sempre se comenta sobre o quão difícil é ser mulher falando de futebol, mas quantas vezes você já parou para se colocar no lugar de uma mulher cuja profissão é falar de futebol? Isso porque é fácil ignorar uma discussão de bar ou um argumento vazio no Twitter, mas e quando o assédio é no estádio? E quando você recebe uma tentativa de beijo na boca no meio de uma matéria? Esse é o tema principal do movimento #DeixaElaTrabalhar.

Lançado oficialmente no dia 25 de março, o movimento representa o manifesto de muitas jornalistas esportivas que só querem entrar no estádio e fazer o seu trabalho. Trabalho esse que foi difícil conquistar, e ainda é. E ao mesmo tempo em que se dá um passo à frente, são dados dois para trás: a conta de Twitter do #DeixaElaTrabalhar reúne, ao mesmo tempo, relatos de jornalistas assediadas (os mais variados tipos de assédio), cartas de repúdio de times, e tudo que você precisa saber para se convencer de que é preciso coragem para ser uma mulher e falar de futebol.

Conhecida como a primeira jornalista esportiva do Brasil, Regiani Ritter tem muita história boa e história ruim pra contar. Sua carreira começou oficialmente em 1983 quando, na Rádio Gazeta de São Paulo, foi convidada a cobrir as folgas dos repórteres que acompanhavam os clubes paulistas. Ela era daquelas que entrava no vestiário mesmo, pra falar com os caras!

“Se a mulher pode ser presidente da República, pode ser Primeira Ministra, ser a mulher mais influente na economia da Europa como é a Angela Merkel, da Alemanha, por que não pode ter mulher no jornalismo esportivo?”, questionou Regiani Ritter em entrevista ao UOL Esporte em 2013. O curioso, porém, é ler que Regiani começou sendo tratada com desdém pelos colegas, jogadores e comissão técnica dos times até que isso foi caindo e sua presença no meio foi ficando cada vez mais normal, mas hoje em dia as redes sociais estão aí para que todos possam mencionar as arrobas das jornalistas no Twitter para dizer que elas têm “um padrinho muito forte” nos canais onde trabalham, questionando a legitimidade de seus trabalhos, Silvio Luiz?

Para o tweet, Livia Laranjeira, uma inspiração para pessoas como eu e uma das jornalistas mais influentes pelo seu ótimo TRABALHO, respondeu: “Não tem padrinho não. Tem dedicação, vontade de aprender e gente que confia em mim. Sabe o que mais tem? O machismo de sempre. Nada de novo no front.

Nada de novo mesmo, Livia.

“Se fosse homem isso não aconteceria”

Diariamente, mulheres são expostas a situações horríveis no ambiente de trabalho, e no futebol isso acontece com um toque a mais de desdém e agressividade.

Os exemplos são muitos, infelizmente, e eles vão desde coisas relativamente pequenas, como mulheres que têm suas pautas e ideias roubadas por colegas de trabalho homens, até o caso de Emily Lima, que foi demitida da Seleção Brasileira Feminina em pouco mais de seis meses de trabalho sem jogar nenhuma partida oficial pelo calendário FIFA, enquanto o Dunga foi treinador da Seleção Brasileira Masculina não apenas uma, mas duas vezes, sendo uma delas resultado na eliminação vergonhosa na fase de grupos da Copa América Centenário, em 2016. Se Emily fosse homem, isso não aconteceria.

Um exemplo [de situação] citado por Camila Mattoso, jornalista da ESPN (em mesa redonda na Faculdade Casper Líbero em 2014), é de quando liga para cartolas (membros da diretoria) de clubes, para uma entrevista ou conseguir informações, eles a convidam para jantar, ‘se fosse um homem, eles com certeza não convidariam’.

Você acha que só porque é loira e linda não precisa trabalhar duro?” foi o que a italiana Carolina Morace ouviu de seu técnico após uma partida perdida, partida essa na qual ela não havia nem jogado. Você imagina Zinedine Zidane levantando de seu banco para reclamar com Cristiano Ronaldo por não ter marcado gols em determinada partida usando o mesmo argumento?

Homens andam no futebol, dentro e fora de campo, com um crachá invisível de “passe livre” para fazerem o que bem entenderem.

Afinal, por que mulher no futebol incomoda tanto?

Eu não sou socióloga, mas além da masculinidade fragilíssima dos envolvidos, quando olhamos um pouco mais de perto a história do jornalismo esportivo e do próprio futebol, não é difícil entender o motivo de tanto medo.

A primeira publicação esportiva brasileira de que se tem notícia foi O Atleta, de 1856, que falava sobre o aprimoramento físico dos moradores do Rio, mais especificamente os homens. Em contrapartida, o futebol como conhecemos hoje, nas regras de 1863, começou a ser jogado por trabalhadores de fábricas ou ferroviárias na Inglaterra, e por ser originado do rugby (mas sendo uma versão muito mais violenta do esporte), sua prática por muitas vezes se restringia a eles mesmos, os homens. Houve uma exceção, porém, em 1892, na Escócia, onde se disputou a primeira partida de futebol feminino antes do futebol feminino ser banido da ilha em 1921.

No Brasil, o “falar de futebol” já começou restrito aos intelectuais da elite e aos grandes líderes sindicalistas da época. Por ser considerado, menos de 30 anos depois de sua primeira aparição, o esporte mais popular do país, em pouco tempo o futebol abraçou tanto a aristocracia quanto a classe trabalhadora. E os “grandes pensadores” – homens, claro – sempre tiveram sua opinião sobre isso.

Havia escritores como Lima Barreto, que chegou a propor que o futebol fosse banido do país, que diziam que o futebol era “o primado da ignorância e da imbecilidade” , e também líderes sindicalistas que diziam que o futebol era uma “mera expressão da manipulação consumista e alienante da burguesia”, uma forma de manipular os operários e aliená-los para que não pensassem em sua realidade. Qualquer semelhança com discursos atuais não é mera coincidência.

Isso porque a única classe social a quem era permitida a voz e a opinião sobre o futebol sempre foi o homem branco rico, que teve acesso a todo tipo de educação, ou homem branco que está em posição de poder. Durante muito tempo, desde 1895 até o primeiro trabalho de Regiani Ritter em 1983 (quase CEM ANOS depois), o único que podia falar sobre o futebol era o homem. E era ou pra bater no peito e gritar ao mundo o quão machos eles eram, ou para olhar aquele esporte de massa e achar-se muito superior por não contribuir com aquilo.

Regiani Ritter entrevista jogadores dentro do vestiário

O jornalismo esportivo nada mais é do que uma extensão de como os homens viam suas mulheres na época – ou seja, sem nenhuma importância – e de como elas ainda são vistas nos dias de hoje. E aqui estamos, quase 150 anos depois, esmurrando essa parede ainda muito aristocrática e elitista que durante anos nos disse que a mulher só presta no futebol para ser líder de torcida ou para “abrilhantar a arquibancada” com sua aparência. A voz da mulher desperta no homem suas reações mais primitivas de repulsa, e só o fato de, ainda hoje, estarmos discutindo aparência de mulher jornalista ou se ela tem um “padrinho” ou não, deixa evidente o quanto os homens ainda nos consideram objetos a serem vistos.

A título de comparação, se você é uma pessoa que acompanha minimamente os jogos de futebol que são televisionados, você sabe que o Galvão Bueno não está em sua melhor forma. Sem criticar o profissional que Galvão é e o que ele representa para a narração de futebol brasileiro, é inegável que sua voz, seu desempenho e até mesmo sua vontade e coerência em comentários já foram melhores. Ao mesmo tempo, os últimos jogos da última Copa América Feminina, disputada no Chile e transmitida ao vivo pelo Twitter da CBF, contou com narradoras mulheres em teste e em começo de carreira.

Ao Galvão, direciona-se as piadas e o “tudo bem, ele está velho”; à narradora iniciante, direciona-se o xingamento e o “mulher não sabe falar de futebol”, muito embora ela tenha uma voz perfeita para a profissão. Em 2018, quando os erros estatísticos cometidos por narradores que sequer sabem o que estão narrando e são corrigidos pelos colegas comentaristas, a mulher ainda é a que não sabe falar.

O cidadão homem se assusta quando a mulher acha sua voz porque cada vez mais eles estão perdendo seus privilégios dentro de um esporte que, por tempo demais, foi seu porto seguro contra “a esposa maluca que nunca dá paz.”

Pra não terminar o raciocínio em um tom tão pra baixo, não vou dizer que está fácil, mas posso afirmar que a cada dia fica mais… fazível. Suportável.

Iniciativas como o #DeixaElaTrabalhar fazem com que as profissionais se sintam abraçadas e sabendo que não mais precisarão engolir os sapos sozinhas. As mulheres inspiradoras que seguem abrindo o caminho do jornalismo esportivo munidas de um bloquinho de anotações e um facão de sair cortando tudo pela frente, fazem com que cada vez mais a pergunta mude de “por que mulher falando de futebol incomoda tanto?” para “como eu, mulher, posso falar de futebol e incomodar MAIS?” Como eu posso falar mais? Como eu posso nunca mais ficar calada?

No final do dia, se um homem se incomoda que eu saiba a primeira partida que foi para a disputa de pênaltis em Copa do Mundo, ou qual foi o gol mais rápido da Champions League, isso não é problema meu. Nem da Regiani. Nem da Livia. Nem das ~dibradoras.

Nem do Valkírias.

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