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Nanette e o humor que o politicamente correto matou

Se você estava atento, provavelmente percebeu os sinais de que não se faz mais comédia como antigamente. No especial “O Próximo Convidado Dispensa Apresentações”, do David Letterman, na Netflix, há um momento esquisito na conversa com Tina Fey. Ao abordar o tema “mulheres no humor”, Letterman admite que sua equipe no Late Show, programa que foi um marco do gênero na televisão norte-americana, não tinha mulheres em seu quadro de roteiristas. Em sua tentativa de defesa bem-humorada, Letterman fala que, se fosse mulher, também não gostaria de participar do que ele chamou de “programinha fajuto”. Tina responde de imediato que sim, as mulheres gostaria, de participar do Late Show, imagine você, um programa premiado, icônico, uma oportunidade de ouro para qualquer comediante em qualquer época.

Mas há mais. No mesmo episódio, na sequência, Letterman questiona Fey sobre sua esquete no SNL sobre a tensão racial e os protestos em Charlotesville, muito criticada na época pelo público, por sugerir combater racismo “comendo bolo”. Tina admite que agora vê o erro, ainda que não acredite em pedir desculpas, mas o apresentador continua insistindo não entender o problema. Mesmo depois de ouvir a explicação, Letterman afirma que precisa assistir novamente, pois continua achando que a esquete foi perfeita.

Na mesma Netflix, Jerry Seinfeld chama comediantes para um passeio em carros antigos e um café, no Café Com Seinfeld, série iniciada em 2012 no canal Crackle e que só agora migrou para o streaming. Dentre os episódios disponíveis na plataforma, vemos 57 homens como convidados, contra apenas 12 mulheres, distribuídas como esparsas participações especiais entre as cinco temporadas do show. Seguindo a proposta do especial, Jerry costuma escolher carros que representem a personalidade dos convidados, mas curiosamente quando se trata de mulheres jovens, como Sarah Silverman e Katy McKinnon, a beleza e a sensualidade das mesmas é o principal critério de escolha para o automóvel.

Em conversas com Ellen Degeneres e McKinnon sobre a orientação sexual das mesmas, lésbicas assumidas, vemos um Jerry no mínimo desconfortável em seus comentários irônicos. É ao lado de seus amigos que o vemos à vontade, relembrando os bons tempos da comédia e reclamando sobre o mundo chato de hoje. Curiosamente, a maioria de seus amigos são homens brancos.

É em meio a esse cenário que a Netflix lança o stand-up de Hannah Gadsby, Nanette, disponibilizado na plataforma em junho deste ano. Desde que foi ao ar, a obra foi ovacionada na mídia especializada e entre o público geral, que foi pego de surpresa com o especial, citado como “diferente de tudo que você já viu” nas recomendações urgentes entre amigos nas redes sociais. Mas o que Nanette tem de tão diferente?

Comediantes como Ali Wong e Aziz Ansari, que fogem do estereótipo do homem branco na comédia, já haviam trazido mais diversidade para o gênero em seus respectivos especiais na Netflix, mas esta colaboradora acredita que o verdadeiro mérito para a aclamação pública do show de Hannah Gadbsy é a sua vulnerabilidade. Ao abordar o movimento do #MeToo e o machismo que ainda destrói a vida de tantas mulheres, reclamar da adoração a figuras artísticas questionáveis como Picasso ou combater a crença de que “artistas precisam sofrer para produzir”, compartilhando seu conhecimento sobre Van Gogh e a criação dos seus Girassóis, Hannah diverte a audiência com honestidade e coragem, esboçando o que está por vir. Mas é só quando a comediante expõe para a plateia episódios dolorosos da sua vida como uma mulher lésbica, com toda a força que o ato exige, que Nannete se torna a experiência humana e intensa de entretenimento que transgride todas as fórmulas de um simples show de humor.

Ao retornar para finalizar uma história contada anteriormente em tom de piada, revelando seu desfecho surpreendente, o teatro ao redor de Hannah fica em silêncio. Não há espaço para risadas, nem para aplausos aqui, apenas a tensão que é mantida ao seu limite. É nesse ponto que a comediante assume não estar mais interessada em auxiliar seu público com a quebra de tensão que as piadas proporcionam.

O humor autodestrutivo é um traço com o qual muitas pessoas da nossa geração podem se identificar, mas Hannah comenta que revisitar seus traumas e destrinchá-los em punchlines é um preço alto demais para se pagar, e tem sido exaustivo na sua longa carreira. É a partir de declarações como essa que o show consegue com excelência o que muitos comediantes de stand-up dariam para alcançar: a identificação e a criação de vínculo com quem lhe assiste, da maneira mais emocional possível.

Hannah Gadbsy é uma comediante e escritora feminista, nascida em uma pequena cidade da Austrália, formada em História da Arte, lésbica, que lida com problemas e só deseja uma vida tranquila ao lado dos seus cães tomando chá em casa. Somos diferentes e semelhantes em vários aspectos, mas através do seu show, pude pensar: eu também tenho feito isso por muito tempo. As piadas autodepreciativas e a maneira de usar o humor como um escudo, em vez de admitir e curar meu traumas. Como Hannah, talvez essa também seja a minha hora de mudar.

Muitos amigos admitiram ter se emocionado e se sentirem transformados depois de assistir Nanette. Isso só foi possível graças à coragem da comediante em se mostrar sem artifícios, no seu momento mais vulnerável possível, assumindo a decisão de abandonar a carreira que vem construindo há décadas, a única carreira que a acolheu. Naquele momento único de humanidade, Hannah abre mão do escudo de quem precisa sempre se mostrar no controle e se torna assim capaz de tocar a vida de outras pessoas.

Se me perguntarem, não acho que o que as pessoas chamam de “politicamente correto” (direitos humanos básicos? luta por equidade social? algo assim?) matou o humor. Jerry Seinfeld e David Letterman continuam fazendo seus shows na Netflix ou fora dela, e sendo premiados e aclamados como “reis do humor”. Mesmo após acusações seríssimas de assédio e estupro de vulnerável, Woody Allen e Louis CK ainda são considerados gênios no que fazem. Aqui no Brasil, Danilo Gentili e Rafinha Bastos continuam insistindo nas mesmas narrativas preconceituosas, enquanto perseguem minorias acompanhados de sua horda de seguidores. Nada mudou, mas ainda assim, cá estamos nós, falando de um show que explodiu críticas e se tornou um dos mais populares do ano e da história da própria Netflix. Um show que tocou tantas pessoas.

Além de Hannah Gadsby, há também Lena Waithe, Margaret Cho, Ali Wong, Tiffany Hadish, Gina Rodriguez, Retta, Jordan Peele, Mindy Kaling, Donald Glover, Aubrey Plaza, Kumail Nanjiani, Stephanie Beatriz, Uzo Aduba, Laverne Cox e tantas e tantos outros comediantes fazendo coisas novas e interessantes, conteúdo diverso que você já consome e é fã há algum tempo, são prova disso. Homens brancos que reclamavam das suas esposas, ridicularizavam minorias e se sentiam inadequados no século XXI talvez sejam para sempre vistos como gênios da sua época. Mas o tempo está passando e muitas dessas histórias estão ficando para trás, ultrapassadas como o comediante de stand up que ouve o temido silêncio da plateia depois da piada ruim.

O politicamente incorreto, na verdade, vai morrer de causas naturais e da própria velhice, enquanto testemunhamos o surgimento de algo novo e importante como Nanette: a história de uma mulher que se reergueu após o sofrimento e nunca foi tão forte, impossível de ser vencida. Ainda bem.

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2 comentários

  1. Conheci a Hannah em Please Like Me e senti uma honestidade muito grande no papel que ela desempenhava por lá. Não sabia da sua carreira, de fato, e fui assistir ao show por lembrar que ela era uma artista foda na sua participação de 2 ou 3 temporadas da série. E o show dela foi um soco no meu estômago, essa é a definição real. Ela primeiro se mostra como comediante e depois se mostra como a pessoa mais humana possível quando levanta a bandeira do que não é saudável e ainda louvável. Todas as tiradinhas dela falando sobre o homem branco ter opiniões são geniais DEMAIS. E o final é aquela coisa que tu acaba e fica pensando UOU! sério, amei seu texto pq ele não dá spoilers, mas podemos dizer pra todo mundo que aquela uma hora e pouquinho que tu fica imerso na realidade dela, vale cada minutinho <3