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Little Voice: uma história sobre encontrar a própria voz em meio ao caos

Que 2020 não está sendo um ano fácil, isso ninguém precisa dizer. O que precisa ser dito, porém, é a existência de pequenos tesouros, presentes escondidos em forma de arte, capazes de nos ajudar a navegar por anos tão turbulentos e nos lembrar do poder existente na criação. Este é o caso de Little Voice.

Little Voice é uma série original da Apple TV+ — serviço de streaming da Apple — de produção executiva de Sara Bareilles, Jessie Nelson e J.J. Abrams. Sara e Jessie, repetindo a parceria de sucesso inaugurada pelo musical da Broadway Waitress, são as responsáveis pelo coração, pela música e pela alma da história.

Livremente inspirada nos anos iniciais da carreira de Sara Bareilles (a mesma responsável pelos sucessos “Love Song”, “Brave”, “Gravity”, “I Choose You”, e alguma outra canção que tenha te feito chorar nos últimos dez anos), Little Voice é uma série curtinha, de nove episódios, cada um de meia hora, que você assiste de uma vez só (e sente um vazio interior quando termina). É também uma história como milhares de outras que se vê por aí, no mundo real, e talvez more aí o seu encanto: numa mídia onde a maioria das narrativas está voltada a explorar tragédias inexplicáveis, ou mostrar como apenas super-heróis são capazes de salvar o planeta, Little Voice resgata a beleza existente na simplicidade, ao mesmo tempo em que explora as complexidades em ser humano. Escolher contar a história de uma jovem artista em busca de encontrar o seu lugar no mundo, e a si mesma no processo, com altas doses de esperança e de vulnerabilidade, é inspirador e revolucionário.

Aviso: este texto contém spoilers!

Bess King (Brittany O’Grady) é uma jovem adulta que vive em Nova York. Como tanta gente por aí, talvez até como você, entre os mil trabalhos que exerce para ganhar um dinheirinho (professora de piano, passeadora de cães, garçonete, cantora em um lar de idosos), seu maior sonho é cantar as músicas que escreve e viver disso, um dia. Acontece que Bess, também como tanta gente por aí, talvez até como você, não confia em si mesma e em seus talentos, e, após ter sido humilhada em uma apresentação, sente pavor de mostrar seu trabalho autoral em público. E não para por aí visto que nossa protagonista tem também problemas pessoais: a mãe foi embora quando Bess ainda era uma criança, o pai — um veterano cantor de soul que conheceu a fama um dia, mas viu a carreira ruir — está prestes a viver um relapso de alcoolismo, e seu irmão mais velho, o carismático e apaixonado pela Broadway Louie (Kevin Valdez), é uma pessoa no espectro autista, por vezes demandando de Bess mais atenção do que ela pode dar. Para completar, logo no primeiro episódio, Bess se encanta pelo seu vizinho de armazém (lugar onde se isola para compor suas músicas), só para descobrir que o moço com quem passou toda uma noite tendo conversas reveladoras e flertando, na verdade, tem uma namorada-quase-esposa.

Ufa! Vamos dividir essas tramas em partes.

Little Voice

A Família

A família é um ponto importante na vida de Bess. É de onde vem sua maior inspiração e seus maiores problemas. Seu pai é amoroso, talentoso (que voz!) e a apoia, mas é altamente instável por conta de suas questões e de seu vício. Por isso, após o abandono da mãe, coube a ela ocupar o espaço de figura responsável, tornando-se assim mãe do pai e do irmão, numa dinâmica disfuncional que a sobrecarrega. Bess é apaixonada por sua família, e tudo que faz é por amor — bom, amor e uma boa dose de trauma — e se acostumou a carregar o mundo nas costas, sem ajuda de ninguém. Mas há pesos que são grandes demais pra se levar só, e o que fazer quando não aprendemos a aceitar cuidado?

A autodescoberta

Bess é uma bagunça, e é assim que ela se descreve no trailer da série. “Bess, the mess”. E é isso que a torna tão real, e tão próxima de quem a assiste. Carregando contradições conhecidas por todos nós e muitas vezes discutidas na sala de terapia, Bess sonha com romance, mas se apaixona por um homem comprometido. Canta sobre desejar mais amor, mas foge de quem está disposto a amá-la. Cuida do pai e do irmão, mas não permite que cuidem dela, numa crença quase inconsciente de que receber ajuda no jogo da vida, de alguma forma, é trapacear. Até quando é possível viver dessa maneira? E, mais do que isso, QUEM NUNCA? Acompanhar uma personagem assim, sonhadora, genuína, complexa, com tanto potencial, e com tendências autodestrutivas e de autossabotagem pode ser frustrante às vezes, mas a frustração nada mais é do que excesso de identificação, e uma forma da gente perceber que eita, eu faço exatamente igual. E junto a isso vem a vontade de dar um abraço em Bess e torcer pra que, no final, ela perceba que merece muito mais do que está disposta a receber.

A busca pela própria voz (ou, simplesmente, a autodescoberta parte II)

Como o título sugere, a busca pela própria voz é tema recorrente em vários enredos da série. Para Prisha (Shalini Bathina), melhor amiga de Bess, com quem divide um apartamento, encontrar a própria voz está relacionado a assumir sua sexualidade para seus pais indianos tradicionais, que a mandam em vários encontros arranjados na esperança de que um deles dê em casamento. Acontece que Prisha gosta de garotas, e está apaixonada por Ananya (Nadia Mohebban), sua colega de banda.

Louie, irmão de Bess, vive seu processo de crescimento ao se mudar para uma acomodação especial para pessoas no espectro autista, enfrentando assim o desafio de conviver com outras pessoas, se afastar um pouco da família e descobrir como seu propósito se entrelaça ao gigantesco conhecimento sobre musicais da Broadway que possui.

Parte da jornada de autodescoberta de Bess envolve encontrar a própria voz como artista, em uma Nova York que exala música pelos poros — qualidade simultaneamente inspiradora e aterrorizante para um artista inseguro em formação. Com tantas pessoas talentosas no mundo, por que tentar? O que de bom eu tenho a oferecer? O que me torna eu? Bess precisa responder a essas perguntas e encontrar a sua identidade ao mesmo tempo em que, num mercado fonográfico desinteressado em originalidade, focado apenas em sucesso comercial, aprende a se impor quando sua verdade é ameaçada.

As músicas originais da série (lindíssimas, incríveis, maravilhosas, por sinal!) são escritas por Sara Bareilles, então é possível imaginar a dimensão do talento de nossa protagonista. É claro que o ambiente em que ela está inserida dificulta seu processo, mas é incrível ver, mesmo em 9 episódios, como ela cresce nesse meio tempo e passa a se respeitar mais, como artista e como pessoa.

O outro aprendizado essencial da jornada de autodescoberta de Bess é o de se deixar desabar e permitir que alguém a apare. Baixar os muros construídos ao redor de si e aceitar que a amem, a cuidem. Entender que não é preciso carregar os problemas de sua vida sozinha — há quem esteja mais do que disposto a dividir o peso com ela.

O que nos leva ao… ROMANCE.

Little Voice

A vida romântica

A paixonite que Bess acaba desenvolvendo por Ethan (Sean Teale), o vizinho comprometido, é bem sintomática de como sua cabeça funciona: se ela mirar em potenciais românticos fora do seu alcance, não correrá o risco de ser vista de perto, com seus problemas e bagunças, e não terá que de fato se abrir para outra pessoa. É também uma maneira de perpetuar a única forma de amor que ela conhece até então: abandono e instabilidade, como aprendeu com seus pais.

E tudo seguiria assim, não fosse o fato de que, num belo dia, Bess conhece Samuel (Colton Ryan). Disposto a ajudá-la desde o primeiro instante, e transmitindo a ela uma segurança que a moça até então desconhecia, Samuel também é músico e entende os desejos e medos de Bess. Mais do que isso, Samuel a entende musicalmente — os dois se complementam e acabam se tornando parceiros musicais, compondo e tocando juntos — e parece ter a estranha capacidade de desvendar o que ela sente e enxergar o que ela tenta esconder. E é por isso que Samuel impede (ou tenta impedir) que Bess caia nas armadilhas que cria para si mesma, não hesitando em jogar verdades por vezes dolorosas em sua direção: ela terá que aceitar que é talentosa, e Samuel vai ajudá-la a chegar lá.

Parece um pouco um triângulo amoroso — e, de fato, a série o vende assim —, mas não chega a tanto, porque o “romance” de Bess com Ethan funciona mais como uma alegoria, e é tão chato e superficial que seria uma injustiça colocá-lo no mesmo patamar que a sua relação com Samuel (que ela nem percebe que é romance por muito tempo — às vezes é complicado enxergar o que está NA SUA FRENTE). É chocante até que Ethan esteja envolvido em um triângulo (urgh) amoroso, de tão sem graça que ele é. #ForaEthan

Samuel

Little Voice

Sim, ele merece o próprio tópico, porque Samuel é simplesmente APAIXONANTE. O rapaz em nove episódios já consegue figurar ao lado de Jim Halpert, interpretado por John Krasinski em The Office, e outros na longa lista de Namoradinhos Perfeitos da Ficção que Nos Arruinaram para Homens da Vida Real. Com seus cabelinhos bagunçados, senso de humor e violão pendurado nos ombros, Samuel exala energia de namorado, e olha para Bess como se ela fosse a coisa mais incrível que ele já viu. E você sabe que é exatamente isso que ele está pensando enquanto a vê cantar, contar piadas horríveis ou simplesmente existir. Se Bess é teimosa, Samuel é mais, e os dois tem uma dinâmica de implicância adorável de se ver. O que é importantíssimo quando se está apaixonado por uma mulher como a Bess, que vai tentar te afastar sempre que possível, porque sente que você está chegando perto demais.

Samuel não se assusta com as inseguranças de Bess, nem com a sua personalidade “difícil”, muito menos com os dramas familiares que ela prefere esconder, e espera pacientemente que ela perceba isso. Numa dinâmica em que Bess foge dos problemas se distraindo com ilusões e escapando para o mundo da imaginação, Samuel está ao seu lado, pronto para ajudá-la a enfrentar, e só assim mudar, a realidade. É catártico assistir a alguém que se machucou tanto a ponto de se fechar para o amor — apesar de escrever incessantemente sobre ele — aprender a se abrir aos poucos, e deixar outra pessoa entrar. Mais catártico ainda é ver que, por mais difícil que o processo possa ser, a outra pessoa não corre, não vai embora. Ela fica. Porque ela quer ficar.

Samuel também é incrivelmente talentoso e os dois juntos tem uma sinergia musical maravilhosa. A série é em grande parte sobre a Bess encontrando seu caminho artístico, mas é interessante (e romântico!) como muito do progresso da Bess enquanto artista está ligado ao Samuel. Então, para futuras temporadas, tal qual Rita Lee e Roberto de Carvalho, queremos ver os dois como um casal poderoso do mundo musical. Anota aí, Sara Bareilles!

Amizades

Bess tem amigos incríveis, sempre dispostos a ajudá-la, deixando claro que ela não precisa realizar seus sonhos sozinha. Além de Prisha, que a conhece melhor que ninguém, há também Benny (Philip Johnson Richardson), garçom no bar onde Bess trabalha, que sempre a motiva, reforçando o quão ótima ela é. Ben é fofíssimo, otimista, prestativo e carismático, e eventualmente se torna o empresário de Bess. Em Mulheres que Correm Com os Lobos (ui), Clarissa Pinkola Estés diz que mulheres artisticamente feridas precisam de amigos que amem e tenham carinho pela sua vida criativa. Benny certamente é desses amigos.

Little Voice

Para todos os que sonham

Little Voice é essencialmente uma série sobre encontrar a própria voz em meio ao caos, e não por acaso, como um golpe certo do destino, foi lançada em 2020 — um dos anos mais difíceis dos últimos tempos. Também não por acaso, é uma série que trata sobre amor, conexão e sonhos, vindo a calhar como um bálsamo. Quão importante é se lembrar da existência de amor, conexão e sonhos durante dias sombrios? Os enredos dramáticos quando citados em sequência podem assustar de início, mas em momento algum a série pesa a mão, perde a leveza ou trata as mazelas da vida com cinismo. Há sempre a promessa de um final feliz. Há sempre esperança. Há sempre música. Há sempre vida. E é essa a mensagem que ela quer te deixar: a luz fantasma continua acesa ainda que o teatro esteja vazio, pronta pra te guiar de volta pra casa em meio a escuridão.

Little Voice é uma série feita para inspirar e aquecer o coração, aliviar a mente, confortar a alma e contemplar qualquer pessoa com aspirações artísticas — ou qualquer tipo de sonho — que esteja disposta a acompanhar Bess em sua jornada. É sobre a fragilidade de se abrir em frente a outras pessoas e deixar que elas decidam o que pensam de você. É sobre saber que você não é, necessariamente, o que as pessoas pensam. É sobre entender que, ainda que pequena, sua voz é só sua, e pode ter muito a dizer. É sobre a braveza de não saber nada sobre si, e seguir em frente mesmo assim, ávida pra descobrir quem você vai se tornar. É sobre deixar que te abracem enquanto você chora. É sobre momentos de ternura e de magia proporcionados pela simplicidade do amor e pelo poder da arte, como quando Bess naturalmente se junta a uma apresentação do grupo do pai, ou brinca de Peter Pan com o irmão, ou canta “Moonriver” na casa de repouso onde trabalha. É sobre conseguir junto, é sobre comunidade.

Com imagens vívidas de uma Nova York pré-pandemia, recheada de música, pessoas se conhecendo, se apaixonando, sonhando, arriscando, quebrando a cara, aprendendo, e destacando o encanto existente nas coisas mais simples, Little Voice tem a habilidade de reacender uma vontade de viver, de criar, de se mover e de realizar seus sonhos que há muito pode estar adormecida. E é por isso, por tanta beleza, tanta sensibilidade, tanto carinho e tanta verdade, que esse pedacinho do coração de Jessie Nelson e Sara Bareilles merece ser visto por mais pessoas, mais românticos, mais sonhadores, mais artistas — que se entendem assim ou não. E precisa, também, ser renovado para uma segunda temporada, porque a gente quer mais! Tá esperando o quê, Apple TV+?

Little Voice é linda e uma delícia de assistir, e é especialmente indicada para quem gosta de musicais, dramas leves, romance, Sara Bareilles, personagens femininas multidimensionais, amor entre músicos, músicas ótimas, garotos que dominam como ninguém a arte do olhar apaixonado — e os fãs de Broadway se divertirão com a representatividade proporcionada pelo Louie e poderão reconhecer alguns rostos, como os de Chuck Cooper (The Life), Katrina Lenk (The Band’sVisit), Colton Ryan (Dear Evan Hansen) e Philip Johnson Richardson (Hamilton Chicago).

E agora fiquem com esse vídeo de Samuel e Bess cantando “Valerie” juntos: vocês diriam não pra esse casal?

Nathália prefere ser chamada de Nath. Adora séries, livros, filmes e tem uma memória boa pra coisas inúteis. Gosta de romances, de ficção e dedica uma energia impressionante para torcer por eles e ficar frustrada com a vida real. Passa o dia no Twitter e escreve no blog Perdidas.

Gabriela é uma mulher que ama demais: comédias românticas, musicais, boybands, homens bonitos que não sabem de sua existência. Pode ser encontrada, na companhia de suas amigas, falando sobre romance, autoconhecimento, fatos do cotidiano, mais romance, e traumas no podcast Ai de mim que sou… e no blog Perdidas.

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