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A trajetória turbulenta de Mallu Magalhães deságua em seu novo disco, Esperança

Quem acompanhou o cenário indie brasileiro do fim dos anos 2000s, dificilmente passou ileso por Mallu Magalhães. Ela parecia ser um desses fenômenos que a opinião pública ama odiar ou odeia amar. Seu sucesso, quando tinha apenas 16 anos, provocou uma enxurrada de exposição midiática. O lançamento de seu primeiro disco e suas aparições na televisão — como a famosa entrevista no Programa do Jô — viraram motivo de piada pela timidez e performance diante das câmeras. O relacionamento com Marcelo Camelo, assumido em 2009, contribuiu para o agravamento da situação. Ele, 14 anos mais velho, ela, menor de idade, lançavam luz às discussões a respeito da naturalização de relacionamentos em que os homens são consideravelmente mais velhos que suas parceiras.

Um segundo álbum com bem menos alvoroço veio em 2009. Mas, somente em 2011, ao lançar Pitanga, a artista surgia mais madura, desenvolta e com uma nova roupagem musical. O refrão de “Velha e Louca”, principal single do disco, traduzia o momento: “Pode falar que eu não ligo. Agora eu sigo o meu nariz. Respiro fundo e canto. Mesmo que um tanto rouca.” Apesar de ainda ser marcado por certa timidez, o trabalho abria uma nova fase da carreira dela, influenciado pelo samba e deixando de lado o folk das primeiras composições.

Se as primeiras crises de sua carreira foram causadas pelos holofotes e os reflexos da sociedade patriarcal, em 2017, foram suas declarações e atitudes que a levaram a uma situação mais grave. Ao lançar o clipe de “Você Não Presta”, primeira faixa do disco Vem, a cantora recebeu acusações de racismo e hipersexualização de corpos negros. Mallu não reagiu bem e, no programa Encontro com Fátima Bernardes, ironizou: “Essa também é para quem é preconceituoso e diz que branco não pode tocar samba”.  A postura da artista gerou uma comoção ainda maior, colocando debates a respeito de “racismo reverso” em pauta.

E é entre erros, críticas e retomadas, que Mallu Magalhães segue sua carreira. Com mais de meio milhão de ouvintes mensais no Spotify e 321 mil seguidores no Instagram, a cantora tem uma postura focada em afastar sua vida pessoal dos holofotes. Foi na rede que anunciou o lançamento do novo álbum, Esperança.

“(…) Ele (o disco) está pronto há mais de um ano. Fizemos foto, clipe, capa… lançaríamos em Março de 2020. Mas em Fevereiro tudo mudou e de repente ‘tudo ficou sem sentido’, e lançar o disco, no meio daquilo tudo… Além de não poder marcar turnê, ou divulgar com todo o fôlego necessário, eu não tinha, acima de tudo, nenhuma vontade de lançar nada. Porque fazer e lançar um álbum requer um desejo de mostrá-lo (pelo menos para mim). (…) Eu sei que agora ainda não está tudo bem. Até porque vencido o vírus, ainda enfrentaremos as sequelas sociais, que já começam a aparecer, sobretudo para aqueles que já estavam em situação vulnerável. Não, definitivamente não estamos nadando em rosas, especialmente no Brasil 🙁 Mas sabe, dito isso tudo, confesso agora um sentimento diferente. Agora, ao menos, sabemos o que fazer: não se aglomerar, cuidar de quem precisa, álcool gel, sabão, máscara, acesso aos cuidados de saúde, oferta de vacina, olhar pelo próximo com responsabilidade e atenção. E junto a isso, agora já sinto que faz sentido dar o que tenho de melhor, tentar oferecer uma espécie de alívio e de carinho. E assim, curiosamente, a pergunta sobre o lançamento do álbum deságua na realidade da pandemia, na declaração de amor, saudade e, claro, ESPERANÇA.

O disco chega de surpresa, sem anúncios prévios e com marcas de timidez também em sua estratégia de lançamento.  As 12 faixas do álbum são assinadas pela própria e reforçam o caminho que vem traçando desde Pitanga. Com influências da bossa nova, do samba e de surf music, as músicas têm o tom otimista comum aos trabalhos de Mallu. Um videoclipe acompanha a publicação do disco e dá movimento à canção “Quero Quero”. Trata-se de uma colagem de vídeos caseiros dela e de seus fãs, fruto de uma ação promovida em março de 2020 no Instagram.

A faixa de abertura, “América Latina”, é cantada em inglês e apresenta um manifesto das raízes da compositora, que hoje vive  em Portugal com a filha Luisa e Marcelo Camelo. Além dela, “Enjoy the Ride“, “Barcelona” e “I’m Ok” são outras composições no idioma com pegada de indie rock, bossa nova e surf, respectivamente. “Barcelona” conta ainda com a participação de Nelson Motta, recitando um poema.

Em espanhol, traz “Regreso“, mais melancólica e reflexiva. As demais canções são em português e seguem o clima de manhã de verão do disco. “Deixa a Menina”, com participação de Preta Gil, é dedicada a Luisa, assim como “Enjoy the Ride“. Um lembrete de que a Mallu, que assistimos surgir aos 16 anos, cresceu, é mãe, e está empenhada em proporcionar boas experiências para a filha.

“Deixa menina
Deixa, deixa menina
Deixa menina brincar em paz
Dançar a dança que é só dela
Deixa a menina correr atrás
Atrás do vento que bate nela
É verão
Deixa a menina brincar em paz
A água tá gelada demais
Mas a menina tem coragem demais
É verão
Deixa a menina brincar em paz
A água tá gelada demais
Mas a menina tem coragem demais”

Na letra de “As Coisas”, encontramos marcas pessoais, vestígios das turbulências já vividas. Segundo o portal Popline, ao se referir à faixa, a cantora declara: “Ainda me emociono quando a escuto”.

“Há quem veja o invisível
Há quem faça o impossível
Depois de tudo alguma coisa vem dizer que tudo bem
A gente passa cada uma
E se molha em cada chuva
A coragem que a gente nem sabia mas tem
Eu sei, as coisas não são fáceis
Vão e vem tão incompreensíveis
E talvez, seja bom que seja assim
Que a gente canta, grita, chora e briga
Mas depois dança e ama a vida
Essas coisas que a gente não entende de onde vem”

Mallu Magalhães e a capa do álbum Esperança

Quando celebrou os 10 anos do lançamento de “Tchubaruba”, Mallu comentou os problemas da exposição precoce no Facebook, assumindo ainda não se sentir completamente preparada para lidar com isso.  Ao terminar o texto, publicado em 2017, acaba nos trazendo direto pra 2021, no nome de seu disco: “E aqui vou eu, errando e acertando, ao mesmo tempo, há 10 anos, sempre levantando, acidentalmente e também de propósito, por ideologia e também sobrevivência, a bandeira do ser humano e o método da esperança”. Como alguém que sempre acompanhou de perto o trabalho da artista, torço para que o cuidado neste lançamento seja um aceno destes aprendizados. Que venham mais álbuns lançados com maturidade e responsabilidade.

Ouça o disco completo no Spotify e no YouTube.


** A imagem destacada é parte do clipe da música “America Latina”.

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