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Mulheres negras e protagonismo: Iris West e Michael Burnham

Mulher negra e protagonismo combinados incomodam e sempre incomodaram, mas agora a mulher negra e o protagonismo estão no mainstream como jamais visto antes. A passos lentos, e ainda longe de alcançar o patamar que equilibre a balança, é verdade. Mas é muito difícil não vibrar, mesmo que um pouco. Não percebia o quanto sentia — e ainda sinto, para ser honesta — falta de que isso acontecesse, que tivesse um clique que fizesse parar e pensar a respeito. Então quer dizer que a jornalista e futura dona de um império midiático e amada esposa de um super-herói pode ser negra? Que, num cenário futurista, o herói que salva toda a vida inteligente no universo é, na verdade, uma super-heroína negra? E que tal uma advogada de sucesso com camadas e camadas de complexidade? Uma alien poderosa com poderes solares? Ororo Munroe, a Tempestade de X-Men, não é o único cosplay possível para mulheres e meninas negras? Mas mulher negra não é uma só e geralmente a coadjuvante hipersexualizada ou extremamente preterida, quando existe?

Há quem pense que isso já é o suficiente, mas se as estruturas sofreram qualquer abalo, foi um baque leve. Entretanto, por mais que existam estereótipos infelizes que ainda permeiam histórias de personagens negras e que todas as mulheres a serem citadas neste texto merecem ser melhor desenvolvidas, fico realmente feliz que elas existam, porque cada uma demarca um começo há muito tempo aguardado e necessário. E, mesmo com todos os poréns, não deixo de achá-las maravilhosas.

O caso Iris West-Allen

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Iris West-Allen (Candice Patton), por exemplo, de The Flash, lida com os altos e baixos que vem quando se ama e se é amada por um super-herói. Além de assertiva e brilhante, ela também é uma romântica. E quantas vezes vemos mulheres negras em papéis românticos? É preciso sempre lembrar que a ausência ou a existência de representatividade é sempre uma escolha. Talvez por esse motivo eu encare a existência de uma personagem como Iris tão a sério. Muitas vezes é ela quem impulsiona a trama da série adiante, de uma maneira ou de outra. The Flash não deixa de ser, parcialmente, uma comédia romântica e ela é a garota por quem Barry (Grant Gustin) sempre foi apaixonado; Barry sempre está, literalmente, correndo para um futuro onde seja possível que eles fiquem juntos. Por ser jornalista, Iris é quem dá nome a identidade de super-herói de Barry quando escreve sobre ele pela primeira vez, e é ela quem sempre está desenvolvendo matérias investigativas sobre os meta-humanos combatidos pelo Flash.

Em um mundo melhor, The Flash saberia respeitar e retratar melhor Iris e seus relacionamentos, principalmente o seu casamento com Barry que é uma das peças centrais de toda a trama. Apesar de tudo, é impossível negar que Iris é incrível e que o fato de Patton ter sido escalada para interpretá-la — visto que a personagem, nos quadrinhos, é uma mulher branca — é o que eleva a personagem e também a série.

A trajetória de Michael Burnham

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Outra personagem incrível é Michael Burnham, interpretada por Sonequa Martin-Green em Star Trek: Discovery, que já começa sendo maravilhosa só pelo nome, tipicamente masculino. Além de inteligente, ela é teimosa, destemida (até demais — em determinado momento, Michael é chamada de adrenaline junkie ou “viciada em adrenalina” em tradução livre), e esconde muito bem o que sente , afinal foi criada num planeta onde emoções não são vistas com bons olhos . Mas ela é humana e por mais que eu acredite que é terrivelmente comum e ruim que mulheres negras — tanto as reais quanto as ficcionais — tenham que ser ou pelo menos demonstrar ser fortes, no âmbito emocional tanto quanto no físico, o tempo todo, tenho que confessar que essa dualidade da Michael é interessante em certos pontos.

Vê-la navegar os próprios sentimentos, quando é permitida, é ótimo E é fácil de se identificar com Michael, especialmente se você for uma pessoa racializada (mas não somente): quem nunca se sentiu um peixe fora d’água, pertencente a muitos grupos, mas sentindo que não pertence de fato a nenhum? Quem nunca fez as escolhas erradas, mesmo pelas razões certas, e foi assombrada por isso por muito tempo? Quem nunca, mulheres, e mulheres negras especialmente, sentiu que o sacrifício de si era a única solução ou a mais “respeitável”? E essas são apenas algumas das questões expostas em Star Trek: Discovery, que, como já mencionado, poderiam ser melhor trabalhadas. Mas apenas o fato de tais questões estarem ali, sob o holofote metafórico, instigam quem tem o olhar mais sensível.

A série não é perfeita, mas entre os seus altos e baixos, a importância de Michael na narrativa é uma constante, e é por isso que a importância dela reverbera para fora do ficcional. E é mais do que obrigatório também elogiar o trabalho estupendo da Sonequa Martin-Green. O que essa moça demonstra num olhar é de arrepiar. Raramente torço tanto pela felicidade de um personagem como torço pela de Michael, e parte disso tem que ser crédito de Sonequa. Eu a conhecia devido as aparições que tinha feito em New Girl, e a discrepância entre aquela personagem e Burnham foram um baque quando comecei a assistir Star Trek: Discovery. Estou animada para a terceira temporada, não só porque a série está, pelo que parece, se encontrando em termos narrativos, mas também porque além de ser visualmente deslumbrante, essa é, antes de tudo, a história de Michael. E eu estou mais que pronta pra vê-la se desenrolando.

Reforçando: representatividade importa

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Personagens como Iris e Michael são, pelo menos para mim, o que muita gente ainda não entendeu quando se fala em “personagens femininas fortes”: não são mulheres que sabem dar socos e chutes (embora façam isso e muito bem, obrigada) ou personagens sem relacionamentos românticos (vale lembrar: personagens sem interesses românticos e que são “fortes” são normalmente mulheres negras). A personagem feminina forte de verdade é alguém com nuances, desejos e convicções próprias, não alguém que demonstra o ponto de vista masculino do que é força.

São mulheres com qualidades evidentes e utilizadas; que são mais do que o apoio de uma narrativa e que são importantes e cruciais para a história a ser contada. Por isso celebramos protagonistas mulheres, porque as personagens femininas dentro das histórias são tão frequentemente descartáveis. E por isso eu celebro protagonistas negras, porque a ideia de que mulheres negras são necessárias é algo que tem que deixar de ser raro. É disso que falamos quando falamos de representatividade de qualquer tipo: esse sentimento de alívio ao sermos lembradas de nossa existência e de que ela é válida.

Ainda existe um longo caminho a percorrer para que essas, e futuras, personagens, sejam tratadas de forma justa dentro de cada uma de suas narrativas, mas a relevância que elas têm só por existirem de um jeito que não as hipersexualize nem as subalterne é um avanço. E sinceramente? Mandem mais que tá pouco.

Vitória Matos tem 22 anos, é quase-graduanda em jornalismo, ama séries e literatura YA e não acredita em guilty pleasures. Quando não está lendo nem escrevendo, está abraçada com sua gata ouvindo música de bandinhas emo.

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1 comentário

  1. Parabéns pela matéria,gostei muito, realmente estamos caminhando em passos bem lentos para ter mais mulheres pretas tendo mais oportunidade.
    Quero fazer só uma observação: só teremos mais oportunidades se a comunidade preta aprender ser mais unida e se apoiar mais.