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Pushing Daisies: comédia romântica para tempos de isolamento social

Durante a fall season das séries de TV, é comum uma produção ou outra acabar cancelada e não voltar para um outro ano. Também de forma frequente, um desses cancelamentos mexe mais do que o normal com o emocional dos fãs — que investiram horas e horas nos personagens e nas tramas —, e se tornam tópicos fervorosos em qualquer ciclo social que tem como objetivo discutir cultura pop. Para citar exemplos recentes, consigo pensar em Brooklyn Nine-Nine, Anne With an E, Hannibal e até mesmo One Day at a Time. Algumas dessas foram resgatadas, enquanto outras permanecem no limbo até hoje. Anos atrás, o cancelamento de Veronica Mars foi tão divisor de águas que fez com que a série ganhasse não só uma minissérie derivada na plataforma de streaming da Hulu, como também um filme feito com crowdfunding. Já Pushing Daisies, sobre romance e morte, tomou o caminho oposto e as suas duas temporadas foram as únicas. Isso, no entanto, não impediu que a produção de Bryan Fuller se tornasse um clássico cult a frente de seu tempo — e também ressurgisse nos dias atuais como a obra perfeita para maratonar em tempos de pandemia, por causa da sua visão única e importante.

A história da série acompanha Ned (Lee Pace antes da Marvel e Halt and Catch Fire), um homem que tem o poder de tocar em qualquer coisa morta e trazê-las de volta à vida. Quase no mesmo segundo em que ele toca em algo e a revive, o universo sente a necessidade de fazer uma troca cósmica e, assim, leva outro ser vivo embora. Por causa do seu poder, Ned passa grande parte da sua vida isolado, fazendo tortas na sua loja dedicada a arte gastronômica, estabelecimento que ele chama de The Pie Hole, onde vive com seu cachorro e seu único par de All Star preto. Só existe um único problema: se ele tocar uma segunda vez em qualquer coisa que ele trouxe a vida novamente, o efeito literalmente morre e não só ele não consegue utilizá-lo de novo, como seja lá o que voltou à vida cai morto novamente, definitivamente. Na sua existência solitária, as duas únicas pessoas com quem ele tem contato são a garçonete Olive Snook (Kristin Chenoweth), que o ajuda na loja, e com o detetive particular Emerson Cod (Chi McBride), sendo que esse último usa dos poderes de Ned para ressuscitar vítimas de assassinatos, perguntar quem as matou e depois fazê-las morrer outra vez — resolvendo o mistério de forma rápida e coletando o dinheiro da resolução do caso de forma quase instantânea.

A narrativa tem seu pontapé inicial quando o protagonista traz Chuck (Anna Friel), um dos seus amores antigos, de volta do mundo dos mortos. Sua maior motivação para fazer isso é que durante sua infância, ele matou o pai de Chuck após reviver outro ser vivo. Afinal, o universo pede sempre equilíbrio. Esse incidente de anos atrás é algo que faz com que Ned carregue um sentimento de culpa frustrante até sua vida adulta, fazendo com que ele não veja alternativa a não ser ressuscitar e ajudar Chuck a se reintegrar como parte fundamental da sociedade, mesmo que suas tias Vivian (Ellen Greene) e Lily Charles (Swoosie Kurtz) pensem que ela está morta e sofram com o luto. Deliciosamente narrada pela voz onipresente de Jim Dale, Pushing Daisies começa a sua história e já deixa bem claro os assuntos que vai explorar: morte, amor, solidão e luto. Tudo isso, no entanto, envolto em uma estética que é descrita como uma mistura de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain com filmes do Tim Burton, onde os personagens parecem estar sempre numa espécie de paraíso (ou, pelo menos, em um lugar além da vida comum, que é cinza e realista demais para o mundo exposto na série). É comum também perceber certas mudanças nos gêneros, que passam pelo tradicional e querido whodunnit, pelo drama familiar, com pitadas cômicas e, o que realmente quero explorar nesse texto: a comédia romântica.

Quando Ned pega para si a missão de ajudar Chuck a se manter viva e se reintegrar na sociedade aos poucos, os dois acabam se apaixonando. Mas é claro que Ned não pode sob nenhuma circunstância tocar nela já que qualquer contato significa morte definitiva. Isso tampouco impede os dois de criarem uma conexão intensa, definitiva e incrivelmente romântica, digna de qualquer comédia romântica e histórias de amor.

Desde que o mundo é o mundo e os seres humanos existem e são obrigados a socializar, existe a noção do romântico e de se envolver amorosamente com alguém. O conceito dessas interações mudam com o passar dos anos e evoluem de acordo com a sociedade e seus estigmas, sendo que não muito tempo atrás o toque em público não era algo incentivado e o “cortejo” vinha de forma bem distinta. Dança, poema, olhares, conversas. Tudo isso era fundamental na hora de construir uma afinidade romântica com alguém. E o acúmulo sexual e antecipação do toque eram quase palpáveis. É por isso que a cena de Orgulho e Preconceito, de 2005, onde Darcy (Matthew MacFadyen) pega na mão de Elizabeth (Keira Knightley) para ajudá-la a subir na carruagem, é famosa e citada até então. Os dois protagonistas, inclusive, não se beijam ou tem contato físico durante toda a trama, mas a história de Jane Austen ainda é parâmetro quando se trata de romance.

Hoje, em 2020, os aspectos apontados acima são fundamentais para qualquer relação duradoura e saudável, mas o contato físico não é tão limitado e às vezes uma ligação física e sexual não se transforma em algo profundo ou importante. Apesar da estética que nos remete para obras clássicas, em Pushing Daisies, Ned e Chuck são duas pessoas que vivem no século XXI e mesmo assim carregam uma conexão que é limitada (e devo dizer, levam esse conceito para outro nível). Mesmo que exista tensão sexual, romance e uma clara química entre os dois, as circunstâncias e o universo decidiram que eles não podem agir perante isso, e eles são obrigados a demonstrar seu amor por formas alternativas.

Como uma mulher que nasceu no final do século XX e cresceu com a liberdade da sociedade moderna (mesmo que ela ainda seja limitada por vários fatores), entender casais como Elizabeth e Darcy, ou até mesmo Ned e Chuck, poderia ser algo realmente complicado se não fosse pelo poder de uma narrativa bem feita. Algo que, por sorte, não falta nem em Orgulho e Preconceito, nem em Pushing Daisies. Para construir o conceito de amor e a dinâmica amorosa nessa última, o criador Bryan Fuller fez com que os personagens utilizassem várias alternativas para demonstrar carinho e afeto. É comum vê-los dançando de forma sincronizada, mas sempre separados a uma distância segura; dando selinhos com um plástico que separa do toque permanente; e até mesmo utilizando macacões usados para apicultura para que pudessem encostar um no outro, ainda de que forma superficial. Nunca existe contato entre a pele, e eles estão condenados a se amar dessa forma. Sem abraços, beijos ou um toque reconfortante nas piores horas.

Em 2020, vivemos em um mundo que está eternamente em um estado de urgência, com uma pandemia que já matou milhares de pessoas. Sem uma vacina ou uma solução iminente em um futuro próximo, a única alternativa para parar a doença e evitar que ela se espalhe é ficar em casa e praticar o isolamento social. Hoje, o maior presente que você pode dar para alguém que você ama é… ficar longe. É impossível não traçar um paralelo com Pushing Daisies porque a maior demonstração de amor que Ned pode dar para Chuck é sempre ficar longe dela fisicamente, mesmo que isso machuque os dois. Aos poucos, as pessoas se acostumam a fazer ligações e vídeo chamadas, reuniões virtuais, e outras coisas que suprem a necessidade de estar com as pessoas de forma física e completa. Assim como Ned e Chuck precisam encontrar jeitos de burlar a distância, nós também o fazemos hoje. Essa é, claro, a conexão mais óbvia sobre a forma como a série se mostra perfeita para tempos de isolamento social, mas existem outros (e mais importantes) fatores.

Apesar do toque e a dinâmica de Ned e Chuck nesse aspecto serem partes importantes da série, os dois protagonistas também têm um outro fator em comum: ambos são pessoas solitárias. Porque Ned cresceu com esse grande segredo e um poder que é ao mesmo tempo um dom e uma maldição, ele começou a se distanciar de uma vida considerada comum, vivendo isolado de todos e sem nem mesmo entender seus sentimentos — ou nem mesmo podendo encostar no seu cachorro, já que ele o trouxe de volta à vida sem querer, quando criança. Enquanto isso, Chuck é uma menina órfã que cresceu com as tias, se sentindo ao mesmo tempo invisível e super-protegida. Ela não sabe quem é ou que gostaria de fazer com a sua existência. O mundo e o que ele tem a oferecer parece algo distante para os dois, que se fecham no universo seguro que criaram para si mesmos. A sensação de estar desconexo do mundo, de não pertencer a nada e estar apenas passando pelo universo de forma desconexa não é algo desconhecido na situação atual do mundo. Não apenas porque existe uma pandemia, mas também porque o fascismo está cada vez mais em alta e todo mundo está no seu limite, algo que perpetua uma sensação de solidão conjunta. É verdade que tanto a solidão de Ned quanto a de Chuck são exploradas de perspectivas individuais, mas existe algo de universal na forma como eles se sentem alheios ao mundo, sozinhos. Na medida em que eles vão descobrindo o amor que sentem um pelo o outro, também vão explorando suas essências solitárias. Eles se encontram mais de uma vez, e dão um jeito de se ajudarem para seguir em frente.

Olive, de certa forma, também reforça esse sentimento de solidão exposto na série. A garçonete que trabalha no Pie Hole não só tem um amor não correspondido por Ned, mas também carrega questões com abandono. Seus sentimentos estão sempre a flor da pele e mais do que uma vez ela simplesmente usa sua voz e a música como poder de desabafo — rendendo alguns dos melhores momentos da série. Apesar de se sentir sozinha e tão pouco saber seus próximos passos, ela não reprime seus sentimentos e toda e qualquer expressão dos mesmos é um grande momento catalisador para o seriado. É a vida acontecendo, em uma obra que tem a morte como essência.

O que Pushing Daisies também oferece é uma espécie de cura. Sim, ela é uma série onde os protagonistas estão apaixonados e não podem se tocar. E também é sobre solidão. Mas existe algo de otimista e especial na forma como Fuller trata esses assuntos, fazendo com que a narrativa não se torne algo pesado e triste, mas tenha o efeito oposto. Em entrevista à Vanity Fair, o autor disse que queria criar algo que tratasse desses assuntos de forma distinta. “Eu esperava que, ao contar essa história sobre tortas, cachorros, amor e infâncias perdidas, nós poderíamos achar descanso no que era apenas morte, morte, morte. Acho que a série nos ajuda a olhar diferente para momentos de grande aflição.” De fato, é exatamente isso que acontece.

O poder da série de oferecer conforto não pode ser visto somente nos aspectos apresentados em cima, que são, até em certos níveis, óbvios, mas também em fatores que exigem um pouco de interpretação. Quando a série foi ao ar em 2007, muitos fãs LGBTQ+ começaram a se identificar com o amor entre Ned e Chuck porque, assim como eles e seus parceiros, o “universo” não parecia aprovar o seu amor. O fato de que a produção mostrava um mundo mais gentil e com alternativas para todos os tipos de amor era algo positivo para as pessoas que foram negadas de direitos e necessidade básicas — como demonstrar afeto e tocar na pessoa que você ama em público. Fuller, um homem gay, aprova essa metáfora e já chegou a dizer que “[Pushing Daisies] era sistematicamente gay, esteticamente gay, mas não era narrativamente gay”. A fala aconteceu durante seu discurso quando levou o Outfest Achievement Award, no festival que celebra nomes queer do cinema e da TV. Na ocasião, ele falou sobre como tentou durante anos a fio colocar personagens gays na sua narrativa, mas foi proibido pelos chefes de grandes emissoras. Assim, nasceu Pushing Daisies, sua obra-prima suprema. É óbvio que o ideal para a representatividade LGBTQ+ são casais plurais dentro da comunidade, mas o fato de que existe essa interpretação para o romance de Ned e Chuck é quase comovente. Um amor que não é capaz de atingir todo seu potencial por causa de fatores que vão além deles mesmo é algo extremamente empático e universal.

Na mesma entrevista para a Vanity Fair já citada no texto, o showrunner também diz que a metáfora nasceu após ele explorar sua dor por ser um homem gay e passar pela epidemia de AIDS durante toda a década de 1980. “Sempre existiu uma metáfora gay interessante na série, e esse foi meu ponto de partida para tentar entender esses personagens. Anos atrás, existia perigo na intimidade física”, ele disse. O toque, que é algo comum para todas as relações heterossexuais, no caso, podia matar. Ou seja, se Pushing Daisies parece ser atual agora durante os tempos confusos que estamos enfrentando, ela também tinha o mesmo efeito no século passado e até mesmo em 2007, quando estreou na TV norte-americana.

Se você está familiarizado com o trabalho de Fuller, sabe que suas séries raramente alcançam um público incrivelmente popular. Isso não quer dizer que elas não sejam queridas. Além de Pushing Daisies, ele também criou Dead Like Me, Hannibal e American Gods. Todas elas têm um público fiel — que estudam as obras com afinco e dedicação — e são aclamadas e reverenciadas pelos críticos, mas também tem o fator da morte em comum, sendo esse um dos principais assuntos abordados nas mesmas. Dead Like Me, por exemplo, conta a história de George Lass (Ellen Muth), uma menina que morre e é recrutada para ser um anjo da morte, prolongando seu tempo na Terra; Em Hannibal, a morte é mais gráfica e explícita, mas não menos poética. O serial killer que leva o nome da obra (vivido por Mads Mikkelsen) mata suas vítimas não só para transformá-las em comida, mas também, eventualmente, em arte, como se a morte fosse sua missão divina na Terra; Já em American Gods, Laura Moon (Emily Browning) volta do mundo dos mortos porque tem uma missão bem específica para cumprir, sendo que seu corpo está em decomposição e literalmente caindo aos pedaços — e essa é, com certeza, a mais mórbida de todas as representações. Com Pushing Daisies, e por causa do poder de Ned, a morte é tratada de forma mais natural.

Apesar de ser colorida, otimista e levemente peculiar, Pushing Daisies é, acima de tudo, uma série que aborda a morte. Ned é um homem que teve que aprender não só a lidar com a morte durante a vida, como também dominá-la, explorando isso sempre de forma natural, abraçando seu dom/ maldição como algo que faz parte da sua vida. Já Chuck tem que abordar sua vida por uma nova perspectiva: alguém que morreu e voltou. O jeito com que a série trata o assunto é mais leve do que pode-se esperar de produções com essa premissa. Um tema tão mundano quanto a morte é tratado de forma extraordinária (por causa de Ned e seu poder), mas nunca de forma mórbida.

A mistura entre a realidade e o conto de fadas, presente no romance entre os protagonistas, ou o surrealismo nos mistérios que eles têm que resolver, são elementos que garantem uma sobrevida para a série em si. O que começa como uma produção que é sobre a morte e suas consequências, logo se torna sobre a vida. Encontrar um jeito de viver e seguir em frente, mesmo após tantas divergências. Nada demonstra mais isso do que a trajetória de Olive Snook, a forma como Ned consegue usar seu poder para ajudar outras pessoas, ou até mesmo entre o amor inesperado que nasce entre os protagonistas. Em uma época onde a morte de milhares de pessoas é pauta diária, ver a morte como algo que une as pessoas, ao invés se separá-las, é tanto um alívio como também um sopro de esperança. O luto pode ser tratado de várias formas diferentes, inclusive pela arte. E essa é a maior prova.

Pushing Daisies é uma obra-prima contemporânea, com ar de clássico. Não tem muito o que discutir nesse território. Apesar de ter durado apenas duas temporadas e ter sido prejudicada pela greve dos roteiristas em Hollywood, a série conquistou um público fiel e que discutem o amor entre Ned e Chuck até os dias atuais. Em 2009, um ano após o seu fim, o seriado conquistou várias indicações ao Emmy Awards e até mesmo levou algumas estatuetas para casa (incluindo Melhor Atriz Coadjuvante para Kristin Chenoweth). Anos depois, é possível traçar um paralelo direto entre a fase atual das séries de TV e como ela é influenciada pela série de Fuller até então.

São vários os fatores que contribuíram para um legado tão forte: seu estilo, a visão única de Bryan Fuller sobre a morte, personagens queridos e situações cômicas que funcionavam perfeitamente no roteiro caprichoso. Nenhum desses aspectos, no entanto, é tão forte e poderoso quanto o romance entre Ned e Chuck. Como o narrador diz no último episódio da série: “Os eventos que ocorreram aqui não são, nem foram e nem devem ser considerados o final”. Portanto, é possível que um dia Pushing Daisies volte para mais uma temporada. Com a visão a frente de seu tempo sobre assuntos como morte, romance e isolamento social, a obra com certeza tem muito a acrescentar no entretenimento hoje, como tinha há mais de 10 anos.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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