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Rastro de Sangue: o Grande Houdini

No momento em que Audrey Rose embarca no RMS Etruria com direção aos Estados Unidos, ela imagina que finalmente terá um merecido descanso após os eventos tétricos que tiveram palco na Romênia, mas nada na vida da jovem é simples. Quando assassinatos inspirados em cartas de tarô começam a apavorar os passageiros e tripulantes do luxuoso navio durante um festival de mágica e truques de circo, cabe a Audrey, ao lado de Thomas Cresswell, desvendar os crimes antes que a contagem de corpos continue aumentando.

O terceiro livro da série de Kerri Maniscalco chega ao Brasil pela DarkSide Books e com tradução de Nilsen Silva. Com o padrão de qualidade já conhecido da editora, em Rastro de Sangue: o Grande Houdini continuamos a acompanhar a jornada de Audrey Rose, uma jovem à frente de seu tempo apaixonada por ciência forense, por descobrir o que os corpos dos mortos têm a dizer a ela e com um talento extra para se envolver em mistérios complicados. Após a temporada que passou estudando na Academia de Medicina e Estudos Forenses na Romênia, um próximo passo precisa ser dado em sua educação e, por isso, ela parte em direção aos Estados Unidos a bordo do RMS Etruria como aluna de seu tio, o Dr. Jonathan Wadsworth.

“A tarde de ano-novo a bordo do Etruria começou como um conto de fadas, o que foi o primeiro indício de que um pesadelo andava à espreita no horizonte, esperando, como fazem os vilões, esperando por uma oportunidade para atacar.”

Construído com o que há de melhor e mais luxuoso disponível, a viagem da Inglaterra aos Estados Unidos à bordo do RMS Etruria deveria ser tudo, menos um pesadelo. Mas a inquietação que surge no peito de Audrey Rose durante o primeiro jantar no navio é apenas um prelúdio dos eventos que acontecerão a seguir — embora, no momento, a jovem esteja preocupada com o futuro e um possível casamento, esses pensamentos somem quando uma moça é assassinada de maneira cruel durante a refeição, ao apagar das luzes da apresentação circense que está ocorrendo no palco do salão de jantar. Os integrantes do Festival Enluarado, uma trupe circense itinerante que se apresentará durante a semana de viagem do RMS Etruria, logo entra no radar de Audrey Rose como suspeitos, e a partir de então ela fará o possível para descobrir quem é o responsável por causar pânico e morte no navio.

É durante a investigação que Audrey Rose decide prestar atenção ao líder da trupe, um rapaz que atende pelo pseudônimo de Mefistófeles e usa uma máscara o tempo inteiro, mesmo quando não está se apresentando. O mistério que rodeia Mefistófeles, suas maneiras nobres de se portar e a forma como gosta de falar por meio de enigmas, mexe com Audrey Rose na mesma medida que a enerva, mas para o bem de sua investigação ela decide firmar um pacto com o rapaz — o que a deixa em uma situação ainda mais complicada, não somente por conta da investigação em si, mas também devido ao seu relacionamento com Thomas Cresswell. Audrey e Thomas se conhecem no primeiro livro da série de Maniscalco, Rastro de Sangue: Jack, o Estripador, e a dinâmica deles, que tem início com uma série de implicâncias de ambas as partes, se desenrola em uma atração que deságua em, é claro, beijos roubados e muita tensão sexual. Nos livros de Maniscalco estamos no final do século XIX e Audrey, ainda que seja uma moça às voltas com corpos em decomposição e estudos científicos, é também uma moça da aristocracia e criada de acordo com seus conceitos. Apaixonar-se por Thomas, um rapaz de boa família como ela, é uma coisa, outra bem diferente é se encantar com um mágico de circo, que é o que Mefistófeles parece ser à primeira vista, e se encontrar às escondidas com ele em um navio à meia-noite. Essa situação poderá deixá-la em maus lençóis e malquista na sociedade britânica.

E é justamente o que acontece com Liza, sua prima, que apareceu em alguns momentos nos livros anteriores mas que recebe muito mais espaço da trama nesse terceiro volume. Aqui, Lisa se envolve com ninguém menos do que um jovem Harry Houdini, o mesmo que viria a se tornar um dos mais famosos escapologistas e ilusionistas da história. Nesse ponto, Kerri Maniscalco usa de licença poética para inserir Houdini em sua trama, da mesma maneira como já fez com Jack, o Estripador, entre outros elementos de seus livros anteriores. Minha ressalva com a utilização de Houdini na trama é apenas com relação ao personagem ser pouquíssimo aproveitado no livro como um todo, o que é contraditório se levarmos em consideração que o título desse volume é precisamente “o Grande Houdini”. Houdini aparece apenas como um coadjuvante e uma desculpa para Liza estar a bordo do RMS Etruria.

A construção de uma trama de assassinato e mistério em um navio luxuoso é uma boa sacada por parte de Kerri Maniscalco, algo que já vimos ser aplicado com maestria por Agatha Christie em Morte no Nilo, um dos mais célebres romances da Dama do Crime. E aqui não faço a citação de Morte no Nilo para compará-lo com o livro de Maniscalco, mas apenas para reafirmar que a ideia é realmente muito boa e dá um senso de urgência muito maior na leitura — em um navio não há para onde fugir e a ideia de estar presa por vários dias, em alto mar, com um assassino, é motivação suficiente para fazer com que os detetives dessas histórias investiguem com ainda mais afinco. Nesse ponto, devo dizer que Audrey Rose deixa a desejar em alguns momentos, principalmente pelo fato de que a protagonista se deixa envolver em demasia pelos encantos de Mefistófeles e seus truques de ilusionismo. Algumas passagens do livro se tornam cansativas pela repetição de Mefistófeles e suas falas pomposas, e meu desejo, em diversos momentos, era de que Thomas Cresswell simplesmente arremessasse seu rival ao mar (mas sabemos que Cresswell se tem em muita alta conta para se incomodar em fazer algo do tipo).

“Mágica é ciência. É apenas um termo mais sofisticado para mostrar às pessoas que o impossível é possível.”

Diferente do que acontece nos outros livros, Audrey Rose também perde um pouco de sua pose de contestadora de tudo e todos. Se em Rastro de Sangue: Jack, o Estripador, ela repetia a quem quisesse ouvir como era uma moça diferente das outras devido ao seu interesse em medicina forense, em O Grande Houdini, a protagonista está muito mais certa de seu papel no mundo e o que deseja para sua vida, ainda que questionamentos a respeito de sua pretensa liberdade entrem em conflito com os planos de um possível casamento. Essa é uma postura que já a vimos adotar em Rastro de Sangue: Príncipe Drácula, e de que gosto bastante: para além de fazer estardalhaço, tentando se provar por meio de palavras, ela o faz por meio de ações. Gosto de Audrey Rose como protagonista e certamente se tivesse lido sua série durante a adolescência, a teria amado ainda mais. É ótimo vê-la enfrentar seus demônios, dúvidas e inquietações — e tudo isso enquanto está envolta em belas sedas e vestidos deslumbrantes, mostrando que capacidade intelectual e gosto impecável para roupas podem andar de mãos dadas. Ainda que se deixe levar em alguns momentos de deslumbramento, Audrey Rose sempre retorna para sua verdade, para o que é real em seu coração e para a ciência.

Rastro de Sangue: o Grande Houdini, é mais um passo dado na trajetória de Audrey Rose e seu desenvolvimento enquanto cientista em pleno século XIX com uma trama que envolve ciúme, amor, traição e vingança . A jovem, que começou seus estudos forenses escondida do pai devido à redoma de vidro em que vivia, está abrindo caminho para si mesma em um período, o século XIX, que nunca permitiu às mulheres ir além. A ambientação de todo o livro — a ação acontece no decorrer de poucos dias e sempre a bordo do navio — é ótima e capaz de deixar o leitor apreensivo para o que vem a seguir. A trupe de Mefistófeles e todo o Festival Enluarado é descrito com tons de mistério e névoas típicos do ilusionismo, e a autora coloca pistas durante as mais de 400 páginas que te apontarão o assassino se você estiver prestando atenção e não se deixar levar por espelhos mágicos. Kerri Maniscalco se perde em alguns momentos da narrativas mas, de maneira geral, amadurece junto de sua protagonista e cria tramas cada vez mais intrincadas e sanguinárias, e daqui para frente só posso imaginar o que o futuro reserva para Audrey Rose.

“Assassinato era outra forma de ilusionismo. E, se a pessoa responsável fosse talentosa o suficiente, poderia até se safar.”

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora DarkSide Books.


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4 comentários

  1. De toda a serie, esse realmente não foi o meu preferido. Achei toda a atração de Audrey Rose com Mefistófeles forçado e um empecilho no decorrer na historia, assim como o romance da prima Liza com Houdini.
    Thomas sofre demais com toda situação e da muita dó acompanhar isso.

    1. Não faz o menor sentido o quanto Audrey deixa Thomas de lado nesse livro, e tudo por conta do Mefistófeles que é só uma versão mais espalhafatosa do Thomas.