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Be The Cowboy: um grande e completo estudo sobre solidão por Mitski

As criações de Mitski sempre tiveram a feminilidade como grande tema. Desde seu primeiro álbum, Lush (2012), a artista nipo-americana explora uma ampla gama de sentimentos pelo prisma do seu gênero: suas letras falam abertamente sobre solidão, relacionamentos abusivos, codependência afetiva e devoção, de uma forma tão direta que pode ser chocante para quem não está esperando, e que acaba sendo justamente o que faz pessoas como eu se tornarem suas devotas.

É frequente que suas músicas sejam tristes, mas, mesmo nesses momentos, a ideia não é se afogar na tristeza, mas fazer sentido dela e investigar suas raízes. Não é a toa que ela define o processo de encontrar as palavras para definir um sentimento como um “alívio”, e nem que Iggy Pop a tenha definido como “a compositora americana mais refinada” da atualidade. Tal qual Lorde, que a levou consigo em sua última tour norte-americana, Mitski Miyawaki processa seus sentimentos por meio de suas composições, e entende que a fragilidade extrema também tem seu lado ameaçador.

Em Be The Cowboy (2018), sucessor de seu maior sucesso de crítica, Puberty 2 (2016), a impressão é de que a cantora decidiu se divertir um pouco com o pesado conceito que permeia seus álbuns. De uma forma que lembra o Electra Heart (2012), de Marina Diamandis, mas com roupagem indie rock, o eu-lírico do novo álbum é, nas palavras de Mitski, “uma versão exagerada de aspectos da minha personalidade”, e se vale do estereótipo da dona de casa perfeccionista, neurótica e carente para completar sua imagem.

“Esse álbum não é sobre assumir responsabilidade por seus erros. É sobre errar e dizer ‘foda-se’. É o que um homem branco faria.” disse Mitski a GQ “Em filmes de cowboy, eles destroem a cidade e continuam sendo o herói. Eu tenho esse mesmo direito”. Mais do que o direito de ser imperfeita, ser o cowboy é emoldurar todos esses erros e excessos e mostrá-los ao mundo. E se um cowboy destrói a cidade com sua masculinidade armada, Mitski está pronta para tacar o terror mostrando quanta energia está dentro dela, e o quão frágil esse controle — feminino — que ela parece ter realmente é. É um alerta: quando você menos espera, posso explodir.

Nenhuma música transmite isso melhor do que a primeira faixa (e single) do álbum, “Geyser”. Começando com algo que se assemelha a uma marcha fúnebre e vocais fantasmagóricos, ela logo explode em um mar de percussão e guitarra, que Mitski preenche com a imagem poderosa do geiser“nascente termal que entra em erupção periodicamente”, na definição enciclopédica — e versos como “I will be the one you need/ I just cannot be without you” [“Serei aquela que você precisa/ Só não posso ficar sem você”]. São dois minutos que conseguem transitar por fragilidade e submissão — ela implora pela permanência de algo ou alguém — e simultaneamente mostrar toda a força que está disposta a dar àquilo que ama. Algo que, por sinal, nem lhe faz bem — e é assumindo todas essas facetas que ela efetivamente é o cowboy da sua vida, problemática e poderosa.

Mesmo sendo uma faixa vaga o suficiente para ser sobre qualquer coisa — e essa ser justamente a ideia — o amor abusivo de Mitski, ao menos aqui, não é uma pessoa, mas sua carreira de artista. Ainda que isso não seja necessariamente verdadeiro para o resto do álbum, “Geyser” é uma prova da semelhança de todos os amores e desejos, e da possibilidade de nos machucarmos na busca de qualquer um deles.

Mais do que qualquer outra coisa, Be The Cowboy é um grande e completo estudo da solidão: tudo aquilo que fazemos para fugir dela, o impacto que ela tem na nossa autoimagem, todas as ansiedades geradas por ela e como, mesmo quando estamos em busca de outra pessoa, ela é o sentimento que sempre nos acompanha. A falta que nos impulsiona e assusta ao mesmo tempo.

Mitski canta sobre encontros secretos com alguém errado, nos quais ela insiste para não ficar sozinha (“Old Friend” e “Lonesome Love”), sobre a necessidade de ser vista e compensada pela energia que deposita nas pessoas (“Remember My Name”), e, com frequência, sobre a busca incessante pela validação (e afeição, que é quase a mesma coisa) alheia, colocada como a única maneira de atingir paz e segurança (“Come Into The Water”, “Nobody”, “Pink In the Night”, “Washing Machine Heart”).

Cantar sobre carência não é exatamente original, mas a forma ampla e analítica que Mitski escolhe para fazê-lo muda tudo. Nunca é apenas sobre não ter amor, e sim sobre como ser ensinada a valorizar isso acima de tudo e falhar apesar dos seus melhores esforços coloca o seu valor como pessoa — especialmente como mulher — em xeque. Não importa o quão consciente você seja de que todos esses pensamentos são uma mentira, eles ainda vão passar pela sua cabeça. A coragem de Mitski está justamente em transformar cada um deles em um estudo de caso melódico e ordenado ao invés de ignorá-los porque uma “mulher forte” não pode pensar nesse tipo de coisa.

Assim, a artista encontra beleza no mais dolorido e profano, sempre escolhendo um lugar no meio do caminho entre a poesia e a crueza para ocupar e produzir suas impressões do mundo. A abordagem de Mitski em Be the Cowboy é a solução que ela encontrou para as contradições de sua existência: ainda que sua música tenha como grande objetivo traduzir o caos de sua cabeça, fazê-lo por meio de uma arte cuidadosamente pensada é uma forma de retomar o controle. Não surpreende que uma das maiores irritações da compositora é ter sua arte tratada como apenas algo visceral.

“Just how many stars will I need to hang around me/ to finally call it heaven?” [“Quantas estrelas precisarei pendurar ao meu redor/ para finalmente chamá-lo de paraíso?”], ela canta em “Remember My Name”, de um jeito que lembra bastante aquela frase bem clichê de Clarice Lispector sobre liberdade. A impressão que temos ao fim de Be The Cowboy é que, apesar de enumerar milhares de coisas e pessoas que deseja, nada poderia ser suficiente para Mitski. Na última faixa, “Two Slow Dancers”, ela deixa de lamentar beijos e pessoas para lamentar o tempo perdido. Não importa o quanto ela tente processar e organizar seus sentimentos, não existe forma de refazer o passado até que ele se torne perfeito. Mas isso não quer dizer que tentar não seja o melhor remédio — para ela e para todos que a escutam atentamente.

“Eu só quero comunicar o que é estar e se sentir viva da melhor forma que eu posso. É para isso que eu vivo”, ela disse à Pitchfork, em uma entrevista com Jillian Mapes de setembro do ano passado. É a sua atitude de colocar todas as suas verdades mais contraditórias no holofote que torna sua arte extremamente específica e universal ao mesmo tempo. As contradições de Mitski podem ser só suas — e muito daquelas que se enxergam em sua narrativa — mas a sua batalha constante com o desejo, o medo e a solidão é uma das traduções mais honestas do que é ser humano.

Bárbara Reis é uma estudante de jornalismo paulista de 20 anos que fala rápido demais, ainda não aprendeu a não colocar sua vida nas mãos de bandas de rock e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir.


** A imagem em destaque é de autoria da editora Anna Vitória Rocha

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