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Crítica: Ella e John

Ella e John, do diretor italiano Paolo Virzì, foi aplaudido no Festival de Veneza do ano passado por realizar um retrato trágico, cômico e realista da velhice. Depois de uma longa espera, finalmente o filme chega aos cinemas do Brasil, e o gosto que fica é que a velhice não é necessariamente um fardo, mas esse fardo é duplicado caso você seja mulher.

Atenção: este texto contém spoilers!

O ponto de partida do filme é a fuga do casal título (interpretados por Helen Mirren e Donald Sutherland) no Leisure Seeker (O Caça Lazer), o furgão da família. O objetivo, segundo Ella, é viajar pelos Estados Unidos até a casa do escritor Ernest Hemingway, de quem John é muito fã. Os filhos enlouquecem com a ideia dos pais: primeiro, porque Ella está doente — ela tem câncer e recusa o tratamento —, segundo porque John tem lapsos de esquecimento. Na cabeça deles, a viagem só pode dar muito errado; o que, no entanto, não vai impedir Ella, tampouco John, de seguirem em frente com o plano.

É na viagem que tomamos conhecimento sobre detalhes da personalidade de cada parte que forma o casal: Ella está no comando e é ela quem coordena o marido na direção e organiza coisas práticas. Por isso, é tida por muitos como chata e mandona. Já John é o homem de humanas, professor de literatura aposentado que cita trechos de Hemingway sem pedir licença. Por causa de seus lapsos de esquecimento, é Ella quem tem de apagar os incêndios que ele provoca. Reconheceram um padrão? Eu reconheci, mas voltaremos a ele mais tarde.

Ella e John

O etarismo de tipo elefante na sala de estar

Em qualquer produto destinado a retratar a velhice, encontramos o etarismo, visível ou não. No caso de Ella e John, o etarismo acontece em tantos momentos que ficamos incomodados. Todos os personagens que interagem, seja com Ella, seja com John, estão ali para dar a seguinte mensagem: somos uma sociedade despreparada para lidar com idosos.

Diferente de uma série como Grace and Frankie que nos traz o riso para refletirmos acerca da maneira como tratamos pessoas mais velhas, Ella e John mete o dedo na ferida com gosto. Não há espaço para rir, apenas para reconhecermos situações nas quais o etarismo é o elefante branco na sala de estar. O filme traz um tipo de etarismo sutil, daquele que coloca pessoas mais velhas em um lugar de exclusão, sem necessariamente feri-las: tudo acontece através de um gesto, de um olhar, de uma virada de cabeça. É o etarismo que todos já praticamos ao tentar silenciar uma pessoa mais velha sem necessariamente mandá-la calar a boca com todas as letras.

Uma das situações que mais simbolizam o etarismo é uma cena em que Ella está contando para uma vizinha de camping os motivos de sua viagem com o marido. A interlocutora ouve, mas não escuta. Por fim, Ella percebe que está sendo um estorvo e desiste. Percebe que, no fim do dia, a única pessoa que pode lhe entender é o marido. Outra situação ainda mais constrangedora é quando John tenta explicar Hemingway à garçonete de um restaurante. A garota, com seus 20 anos, parece impaciente para ir embora, mas ouve tudo com a mesma cara de desinteresse que todos os outros personagens que interagem com o casal. Eles não conseguem ver algo de bom que aquele casal tenha a dizer. E como isso é triste.

Sendo assim, Ella e John criam mais motivos ainda para se isolar do mundo e viajar. Os próprios filhos também não conseguem ouvi-los. Toda vez que Ella liga para casa, Will (Christian McKay) xinga a mãe e ordena que ela volte para casa, como se ela estivesse fazendo aquilo para sacaneá-lo. Ella e John lembra muito a abordagem da última temporada de Grace and Frankie: a de que não existe espaço para que os filhos entendam seus pais. Qualquer atitude de tentar viver é uma loucura; falta entender que a vida não termina após os 50 anos. É um esforço que os filhos de Ella e John, em um primeiro momento, não estão dispostos a fazer. Seria tudo mais simples se o casal entendesse que seu lugar é na esfera privada.

ella e john

Ella: esposa de John; mãe de Jane e Will

Ella é a personagem mais fascinante do filme, talvez porque o peso das ações do casal canse mais suas costas. Quando eles saem no Leisure Seeker, percebemos a dinâmica deles desde sempre: ela apaga os incêndios que ele causa. O que quer dizer que Ella está sempre à sombra do marido, cuidando dele e aguentando suas repetições sobre os mesmos assuntos. Ella é uma mulher cansada porque ninguém apaga os incêndios dela.

Ao longo do filme, é perceptível como Ella não tem história longe de John. Do que ela gosta? Não sabemos. O que ela fez da vida? Não sabemos ao certo. O que está posto é que ela é mãe de dois lindos filhos bem-sucedidos e a esposa do professor de literatura. Ella é a mulher de quem Betty Friedan tanto falava em seu A Mística Feminina. Ela deixou de ser Ella para se tornar A Mãe de Will e Jane; A Esposa de John. Nem no último momento da vida deles ela tem vontade. Até o motivo que os impulsiona a essa essa viagem é um desenho de John, conhecer a casa de Hemingway.

Quem apaga os incêndios de Ella? Ninguém. Ela está doente, com câncer, mas o marido parece ignorar completamente esse fato. São os lapsos de esquecimento. Porém, ainda me parece difícil engolir uma desculpa dessas. A doença de Ella é sumariamente ignorada porque não interessa muito. Essa mulher está abrindo mão até de ficar doente, de estar na cama, para ver seu marido feliz. Ella está sempre feliz, andando com sua linda peruca castanha por aí, cuidando e vendo se John precisa de algo. Cuidando para que ele não insulte um policial e vá preso, por exemplo.

Ao longo do filme, ela vai tomando consciência de que é uma mulher sem lenço nem documento. Durante uma visita a um rancho que simulava os tempos da Guerra de Secessão, John reencontra uma antiga aluna com os dois filhos e subitamente se lembra dela, até do fato de que ela costumava rir muito em aula. Ella fica furiosa, sentindo-se miserável. Como o marido pode lembrar de algo assim e não saber o nome dos filhos, por exemplo? Isso mostra uma certa ingratidão da parte de John, que parece não valorizar tudo o que sua esposa faz por ele. Ele não consegue se distanciar da figura de professor, porque para ele ser professor era muito mais importante do que ser marido e pai.

O incêndio de Ella toma proporções inimagináveis quando ela descobre que o marido a traiu com a vizinha durante anos. Todo o vazio de sua existência torna-se palpável e, com a morte chegando, esse peso parece ainda insuportável. É um dos momentos mais tristes do filme, em que constatamos como a personagem existe apenas para servir à figura do marido. E quando esse homem se revela o marido que ela não esperava é como se uma parte de sua personalidade fosse destruída. É insuportável ver uma personagem que poderia ter tantas nuances resumir-se ao degrau que possibilitou o marido subir na profissão, bem como poder ter tido a vida que desejou. É duro ver uma personagem tão interessante ser desperdiçada assim. O que salva é a interpretação magistral da Dama Helen Mirren, que faz miséria até com uma personagem que poderia ser muito mais.

ella e john

“Envelhecer não é para mocinhas”

“Envelhecer não é para mocinhas”, já dizia Bette Davis, e concordo muito com essa colocação. E acrescentaria ainda que, em uma sociedade etarista como a nossa, envelhecer exige muita coragem, especialmente sendo mulher. Por isso, aplaudo produções que mostram que a velhice é resistência. Sabemos o quanto mulheres são descartadas após uma certa idade, logo, narrativas que nos mostrem que elas não pretendem se entregar é um alívio. Mostra que podemos olhar para a velhice com menos medo, que é isso é normal e não o fim da vida. Apesar de todos seus problemas, Grace and Frankie é uma série que trouxe essa resistência com muito bom humor, sem deixar as reflexões de lado.

Mas, infelizmente, esse não é o caso de Ella e John. Os personagens principais morrem ao final do filme, em uma morte planejada por Ella. Ela liga o gás do trailer, toma um bocado de pílulas e morre junto com o marido. Um final que lembra muito Amor, filme de Michael Haneke, em que o casal principal, também idosos, tem uma morte parecida. Anne (Emmanuelle Riva) estava doente e seu marido Georges (Jean-Louis Trintignant) decidiu vedar o cômodo em que eles dormiam e fazer com que morressem juntos. Eu me pergunto até que ponto isso nos ajuda a encarar a velhice como ela merece. Por que precisa ser o fim? Por que não podemos olhar para ela de outra maneira? Será que o final desse filme não reforça a ideia de que a velhice é uma maldição que pode ser evitada com a morte?

Com tantos artistas produzindo após os 80 anos, esse final é quase um crime. Apesar disso, Ella e John é um filme que merece ser apreciado. Helen Mirren e Donald Sutherland têm tanta química juntos que poderiam explodir a tela do cinema. A trilha sonora é delicadamente bem conduzida, com destaque para a voz rascante de Janis Joplin cantando “Me and Bobby McGee” enquanto o casal protagonista atravessa os Estados Unidos cantando junto com ela. A única coisa que não merece ser apreciada é a velhice enquanto maldição.

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3 comentários

  1. Gostei muito da análise, mas em relação ao penúltimo parágrafo, creio que a questão não é apenas a velhice, mas a doença. Não se trata de dois idosos saudáveis e lúcidos em condições de aproveitar a vida, tendo apenas as limitações impostas pela idade, mas de duas pessoas cuja saúde física e mental está se deteriorando. Portanto, não vejo como uma visão amarga da velhice, ao contrário: o filme trata da coragem de ousar, de aproveitar a vida até o último momento.

  2. Discordo totalmente Acabei de ver o filme e acho que a pessoa que escreveu essa crítica deve ter dormido durante o filme e eu não prestou atenção por quê a minha visão foi para mim interpretação completamente diferente não não acho que ela se anulou pelo contrário e o John ele não está omisso diante da situação dela da doença dela e tem um Alzheimer avançado dissimo eles estão se ajudando com relação a profissão dele tá pode ter sido sempre primordial na relação mais foi isso que que encantou uma forma outra coisa que discordo também preponderantemente no meio de toda aquela dor daquela miséria que a doença atrás e são duas doenças terríveis cruéis tem muito Morales em e de uma forma bem real bem crua quando eles caem quando ele urina nas calças quando ela tem que repetir inúmeras inúmeras vezes todas as histórias inclusive até de lembrá-lo do nome dele e quando ele e quando ele comenta com a garçoneteque sobre Ernest Hemingway acontece é que eles entabulam uma conversa super animada porque a menina tinha acabado de fazer uma tese até dela tinha sido sobre o velho e o mar por isso que eu tô dizendo que escreveu essa crítica ou Dormiu ou não entendeu nada do filme e a reação da ela é de ciúme assim como quando ele encontra ex-aluna e se lembra do nome dela ela também se sente ciumada com a situação mas é porque os dois são tão apaixonados um pelo outro que eles sentem um ciúme irracional como quando ele tem ciúme do primeiro namorado dela que ela nem se lembra dele mais e a título de esclarecimento uma das características do Alzheimer é que a pessoa se lembra de coisas de memórias antigas e esquece As Memórias recentes se é que é preciso citar isso aqui né mas eu estou citando porque eu achei um absurdo tem coisas absurdas nessa crítica aí discordo totalmente Os dois estão perfeitos achei o filme excelente trata trata a velhice doente de uma forma verdadeira de uma forma visceral bate na cara sem subterfúgios portanto nada a ver essa é e com relação a ao suicídio no final particularmente acredito que eu teria feito o mesmo ela só optou por por não definhar. Desculpe pelos erros meu teclado não está f funcionando.