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Hebe, A Estrela do Brasil: a censura na redemocratização do país

Cresci em uma casa que adorava ver televisão. Do programa de auditório no domingo à telenovela, minha família passava muitas horas sentada no sofá. Dessa forma, parte da minha educação se deu assistindo a mulheres de biquíni tentando encontrar sabonetes em uma banheira e ao Roberto Carlos fazendo minhas tias-avós desmaiarem no final do ano.

Quando me tornei adulta, descobri que era feio dizer que se gostava de ver televisão. De repente, era tudo ruim demais. O legal era a TV a cabo com suas séries de fora. Você está vendo aquela série? Não, eu vejo novela. Se todos assistiam aos mesmos programas brasileiros que eu, por que era tão difícil admitir isso? A resposta reside em nossa relação contraditória com a televisão brasileira. Desde que Assis Chateaubriand trouxe a telinha quadrada para o Brasil, através da TV Tupi, esse meio de comunicação moldou-se ao Brasil. A televisão brasileira é única porque consegue condensar a contradição que é ser o tal homem de bem. O homem de bem que não se importa em ver a cantora Gretchen rebolando no colo do ator Jean-Claude Van Damme, mas é conservador para pressionar o autor de uma novela a matar um casal de lésbicas de forma brutal durante a explosão de um shopping.

É difícil abraçar todas as contradições da televisão brasileira, porque elas falam muito sobre nossa constituição enquanto povo. Bingo, o Rei das Manhãs, filme de Daniel Rezende, já havia tocado nessa questão ao contar a história do palhaço Bozo, ícone dos anos 1980. Em Bingo, temos parte da essência da televisão brasileira: o absurdo, diretamente saído de uma peça de Ionesco.

Agora, em 2019, Hebe, A Estrela do Brasil também se soma aos filmes que desvendam a televisão dos anos 80, mas com um toque muito mais especial. Além dos paetês e do “quem sabe faz ao vivo”, temos um retrato bastante interessante da censura que o Brasil vivia em seus primeiros anos de democratização. Uma mensagem poderosa, especialmente nos tempos de censura que estamos vivendo.

A ida de Hebe para o SBT: uma mudança no jogo de cartas da TV

Hebe

Se você pretende ir ao cinema esperando assistir a uma cinebiografia comum, esqueça. Ao contrário de muitos filmes do gênero, Hebe, A Estrela do Brasil não se centra em compilar a vida da apresentadora Hebe Camargo (Andrea Beltrão), mas sim um momento muito específico (e importante) de sua trajetória: quando saiu da Bandeirantes e foi para o SBT. Ao meu ver, foi uma escolha muito acertada. A ida de Hebe para o SBT é um dos momentos mais emblemáticos de sua carreira — e da televisão brasileira. Isso porque ela mudou completamente o jogo de cartas entre as emissoras de televisão.

Quando surgiu, nos anos 1950, a televisão destinava-se às elites. Afinal de contas, quem além dos ricos poderia pagar por aquele equipamento importado? No entanto, nos anos 70 as coisas mudaram drasticamente. A televisão tornou-se o produto das massas. Para se ter uma ideia dessa mudança em números, em 1950 o número de aparelhos era de 2.000, enquanto nos anos 1970 ultrapassou a incrível marca de 4.931.000. Neste momento, já tínhamos uma discussão que perdura até hoje: o entretenimento que a televisão traz é de boa qualidade? O lema da TV naquele momento era: “Bom ou ruim não interessa, o importante é entreter.” Dessa forma, havia espaço para programas sensacionalistas e escandalosos como Quem Tem Medo da Verdade? O suposto nível de degradação da TV chegou a tal nível que, em 1969, o jornal A Última Hora lançou uma campanha contra o grotesco da TV. No mesmo ano, Chacrinha (Otávio Augusto) e Dercy Gonçalves (Stella Miranda) tiveram os programas censurados durante 15 dias, por conta do vocabulário que utilizavam em suas apresentações.

Neste ínterim, a TVS (futuro SBT) simbolizava parte do inimigo que se queria derrotar. O canal de Sílvio Santos (Daniel Boaventura) era o rei dos programas de auditório. Segundo a crítica da época, esse tipo de produto emburrecia os brasileiros. Era hora de a televisão sofrer uma transformação radical. Tal transformação se deu na higienização, digamos assim, do quadro de artistas das emissoras. Chacrinha, por exemplo, foi demitido da Rede Globo em 1972, pois se queria qualidade; não ibope. Já no SBT, o processo de higienização aconteceria mais de dez anos mais tarde, em 1986. Antes de Hebe ir para o SBT, a Rede Globo era a emissora das classes A e B. Sílvio Santos sabia que só tinha a ganhar se conquistasse a camada rica de empresários do país.

Quando Hebe se cansou da censura e do salário que a Bandeirantes lhe pagava, o homem do baú aproveitou para abocanhar uma das apresentadoras mais carismáticas do país. Camargo já havia passado por emissoras rivais, como a Tupi e a Record, além de ser dela o primeiro talk-show brasileiro, O Mundo é das Mulheres. Sílvio queria uma estrela em todos os sentimentos em seu quadro de funcionários. O anúncio do Jornal do Brasil da época ilustra muito bem a nova fase que o SBT estava prestes a viver:

“Hebe Camargo é a maior comunicadora da história da TV brasileira. O Sistema Brasileiro de Televisão é a segunda maior rede de televisão do país. Agora, sucesso encontra sucesso todas as terças, às 21h20. 

Hebe no SBT significa um número ainda maior de telespectadores no convívio direto com seu charme, sua simpatia, sua descontração. 

Significa mais um passo do SBT na melhoria de sua programação.
Hebe, SBT e você. Juntos. Um sucesso ainda maior.”

A censura na era da redemocratização

Um dos detalhes mais interessantes abordados por Hebe, A Estrela do Brasil diz respeito à censura que ainda vigorava no Brasil. Hebe Camargo foi para o SBT em 1986, e naquele momento quem governava o Brasil era José Sarney. Conhecido pelos inúmeros planos econômicos, todos fadados ao fracasso e à inflação, Sarney foi o primeiro presidente a suceder os militares. Pairava sobre ele a sombra de Tancredo Neves, que acabou falecendo antes de assumir o cargo. A redemocratização era apenas parcial, já que a chapa de Tancredo foi eleita por meio do Colégio Eleitoral, de forma indireta.

A abertura lenta e gradual, proposta pelo General Figueiredo, último militar a comandar o Brasil, envolveu muitas disputas de narrativa. É claro que a cultura não ficou de fora dessa. A cultura liberta, e não era interessante aos militares que o país fosse exposto ao que eles consideravam subversivo. Assim, a redemocratização não andava de mãos dadas com a abolição da censura à televisão. Em 1985, para comemorar o fim da ditadura, a Rede Globo trouxe de volta um de seus xodós e alvo dos censores por duas vezes: Roque Santeiro, novela de Dias Gomes.

Dez anos antes, em 1975, o apresentador Cid Moreira entrava no ar para dizer que a novela pela qual o telespectador estava esperando, Roque Santeiro, não seria exibida. Foi um caso raro em que uma novela foi inteiramente censurada. O teor de sátira aos militares, exemplificada pelo protagonista, não seria tolerado. Em tese, Rede Globo não poderia ser impedida de exibir sua novela. Mas ela foi — e muito. De acordo com esta reportagem da Folha, a novela acumulou 597 páginas na Divisão de Censura de Diversões Públicas.

Roque Santeiro ilustra muito bem a contradição que existia entre a abertura política e o apego à censura. Como a sociedade rechaçava a repressão ao conteúdo político, a nova desculpa para censurar se deu na “moral e bons costumes”. Homossexuais, cenas picantes e mulheres ousadas eram proibidos. Foi assim que, de certa forma, a herança deixada pelos militares no campo da censura perdurou por mais um tempo. Para fins de curiosidade, Vale Tudo, novela de Gilberto Braga, de 1988, também foi picoteada pela Divisão de Censura de Diversões Públicas.

Hebe Camargo não escapou das contradições de uma redemocratização parcial. Em Hebe, A Estrela do Brasil, conseguimos ter a dimensão das consequências de seus pensamentos: a apresentadora chegou até a ser processada por Ulysses Guimarães, presidente do Congresso. Na primeira cena do filme, um censor está ouvindo um programa de rádio em que Hebe declara à apresentadora, e sua amiga pessoal, Nair Belo (Cláudia Missura) que acreditava que os censores tinham problemas sexuais. Só isso poderia explicar o problema deles em aceitar ouvi-la falar sobre homossexualidade em seu programa. Logo em seguida ouvimos uma conversa entre Walter Clark (Danilo Grangheia), diretor artístico da Bandeirantes, e o censor.

Não era a primeira vez que Clark enfrentava a censura. Walter atuou como diretor geral na Rede Globo e chegou a ir à Brasília conversar com a Divisão de Censura para pedir que os programas de auditório da emissora permanecessem no ar. Isso explica a desenvoltura com a qual ele se porta diante do censor, mesmo morrendo de medo de tomar uma punição. Os embates entre Walter Clark e Hebe Camargo ilustram as tensões entre democracia e censura. Clark, obviamente, deseja se dobrar, ao passo que Hebe se mantém fiel ao que acredita. Para a apresentadora, as coisas que dizia não tinham nada de mais. Se existe democracia, por que seria proibido falar sobre homossexualidade em seu programa?

Além da homossexualidade, Hebe convidava artistas que ofendiam a moral e os bons costumes dos censores. A ida de Roberta Close (Renata Bastos), modelo trans, ao programa da apresentadora mostra o conservadorismo que estava por trás da Divisão de Censura de Diversões Públicas. Uma das supostas afrontas de Hebe à censura aconteceu em 1985, quando ela levou o ator David Cardoso e seu suposto amante de aluguel ao programa. A Divisão de Censura ficou em polvorosa e enviou o seguinte telegrama, pedindo que fossem adotadas medidas cabíveis para que as crianças não se sentissem mais ofendidas:

“Tivesse V. Exa assistido programa Hebe Camargo transmitido Tv. Bandeirantes Última sexta-feira, ao Vivo, certamente Teria Ficado Constrangido alto grau audácia e atrevimento referida comunicadora e seus convidados entrevistados, dentre estes o ator David Cardoso e um encapuzado, cujo nome não foi mencionado, mas que seria um amante de aluguel…”

Algo muito interessante do documento acima, disponível no acervo do Arquivo Nacional, é que ao final podemos ler: “A imprensa é livre. Seus abusos, não.” Essa afirmação é tão contraditória! Se a imprensa realmente fosse livre, o espectador deveria ter a escolha de mudar o canal. Ao espectador cabe a decisão se quer ou não ver David Cardoso e seu amante de aluguel. Hebe, A Estrela do Brasil mostra que a censura nunca atua em prol de quem ela diz atuar. O documento do Arquivo Nacional pede que as “crianças sejam preservadas”. Mas é interessante perceber que elas precisam ser preservadas apenas de determinadas coisas. Expor uma criança à violência, à sexualização precoce parecia não incomodar os censores de 1985, assim como não incomoda os de hoje.

É assustador, mas necessário, perceber que os censores de hoje são os mesmos da época do filme de Hebe. Quando uma HQ que apresenta dois homens se beijando é alvo de censura, percebemos como as engrenagens dos mecanismos de controle continuam funcionando. Esse controle busca cercear a liberdade e a sexualidade das pessoas, pois cidadãos livres, independentemente de sua orientação ou gênero, são perigosos para a manutenção do conservadorismo.

A mulher conservadora com algumas ideias liberais

Hebe Camargo-1

Apesar de falar sobre homossexualidade e outros tabus da época, Hebe Camargo era uma mulher conservadora. Em determinada cena, Walter Clark joga na cara da apresentadora que ela apoiou Paulo Maluf, candidato indicado pelas forças políticas que haviam se aliado aos militares, na primeira eleição depois da ditadura.

Acredito que a discussão com Clark resume muito bem a contradição que Hebe carregava: ela era uma mulher conservadora com algumas ideias liberais. Era uma afronta tolerada, pois vinha de uma mulher branca, loira, rica e dentro dos padrões. Hebe performa o que as pesquisadoras Fernanda Maurício da Silva e Juliana Freire Gutmann no artigo “De Hebe ao Encontro, o que se disputa?” chamam de feminino glamourizado:

“Um feminino glamourizado que evoca o lugar da celebridade e, ao mesmo tempo, o de mulher de família, dona de casa, defensora da moral e dos bons costumes. Seu corpo representa uma espécie de objeto de desejo do feminino pela ostentação de figurinos e acessórios caros e sofisticados, o cabelo louro sempre penteado, vestidos que acentuavam as formas do corpo. Ao mesmo tempo, afirma-se, em suas falas, como pessoa do povo, como mulher brasileira que se identifica com os sentimentos da pessoa comum.”

O feminino glamourizado e a mulher brasileira aparecem em muitos momentos do filme. Eles não são valores opostos, mas complementares. Hebe é a mulher do povo quando chama os políticos de preguiçosos, mas na esfera privada transforma-se em uma dona de casa, uma mulher que, como muitas, embarcou em um relacionamento abusivo. Os valores contraditórios de Hebe são o que a tornam uma figura tão fascinante. São parte de sua persona, digamos assim. Hebe, A Estrela do Brasil consegue misturar muito bem essas duas metades, que em muitos momentos do filme parecem um fardo para a apresentadora.

É importante perceber que o filme tenta fazer uma espécie de higienização do conservadorismo de Hebe, revestindo-o com uma capa empoderadora. Hebe defendia a liberdade de expressão, mas a sua. Ela defendia fazer as coisas como queria, mas em benefício próprio. A impressão que temos é que o filme tenta elevá-la ao posto de militante, tanto a favor dos LGBTQ+ quanto contra a censura.

Apesar dessa escolha por parte da roteirista do filme, Carolina Kotscho, Hebe, A Estrela do Brasil permanece um filme que merece ser assistido, principalmente para entendermos como os mecanismos da censura permanecem, apenas mudam o disfarce. É como a jornalista Laura Matos coloca em seu artigo sobre Roque Santeiro:

“Assim como é preciso romper com o mito de que a censura é restrita a ditaduras, igualmente não se pode esquecer de que ela é suprapartidária, ‘democraticamente’ distribuída à direita e à esquerda, porque visa à manutenção do poder para qualquer que seja a tendência política.” 

E nem a maior apresentadora do Brasil escapou disso.

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