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Self-care como movimento: Alisha Ramos e o Girls’ Night In

O consumo de informação da sociedade conforme os tempos vêm mudando também apresenta transformações. Até pouco tempo atrás, o que a mídia repassava como mensagem principal era aceita sem discussões ou perguntas, deixando essa influência tomar conta de nossas vidas. Comprovamos isso, nos anos 1950, quando marcas de limpeza passaram a fazer propaganda no rádio, meio de comunicação presente em grande parte dos lares e principal companheiro das donas de casa que consumiam as radionovelas. Depois, a moda se tornou o grande influenciador ao ditar tendências, tamanhos e comportamentos, que foram seguidos à risca por várias gerações. Porém, com a internet e o acesso mais plural de informações, começaram os questionamentos: quem disse que azul é a cor do ano? Quem disse que tamanho 36 é o que devemos querer ser? Quem disse que mulheres não têm opinião?

Já tratamos sobre a origem da palavra “louca” e porquê ela era sinônimo e definição do comportamento de muitas mulheres ao longo dos anos. Toda ação não premeditada ou aceita pela sociedade colocava (e às vezes ainda coloca) esse rótulo numa mulher, fazendo com que sua opinião seja desqualificada e ainda trancando-a dentro da dúvida que sua própria cabeça cria ao pensar: “será que sou louca ou só estou indo contra as regras?”.

No artigo Mulheres, loucura e cuidado: a condição da mulher na provisão e demanda por cuidados em saúde mental”, escrito por Renata Fabiana PegoraroI e Regina Helena Lima CaldanaII, explica-se como a loucura, ao longo da História, foi associada ao sexo da vítima. Na antiguidade, a falta de conhecimento sobre o corpo feminino e tudo o que ele representa, sente, passa, cria, deu lugar a crenças e lendas perpetuadas por muitas eras.

“Alguns registros que remontam ao Egito Antigo atribuíam ao interior do corpo da mulher uma condição de malignidade, pela presença do útero e pelas particularidades desse órgão, que, ao deslocar-se pelo corpo, produziria sintomas semelhantes aos atribuídos ao quadro atual de histeria, compreendido como um protótipo de loucura (Vilela, 1992). Outro fragmento da compreensão a respeito da loucura na Idade Antiga é colocado por Del Priori (1999), através do resgate da obra de Galeno, na qual a melancolia era associada aos vapores advindos do sangue menstrual, causador de alucinações. (…) Ao longo da Idade Média, muitas foram as mulheres classificadas como bruxas pelo Movimento Inquisitor (Tosi, 1985; Pessotti, 1994). No geral pobres e de origem rural, as chamadas bruxas apresentavam condutas estranhas, indicativos de possessão demoníaca. Algumas dessas condutas assemelhariam-se a quadros, atualmente, descritos como histeria, melancolia, mania, depressão ou ansiedade.”

O que a mulher sentia, mesmo que sem seu próprio conhecimento e entendimento, também ganhava rótulos quando os homens não sabiam explicar os motivos, causas ou razão. As mudanças hormonais, causadas em muitos casos pela tensão pré-menstrual, ainda são relacionadas a um momento em que a mulher não é ela mesma, quando não tem credibilidade ou consciência real do que pensa ou como age. A questão é que qualquer ser vivo é passível de sofrer com mutações de humor, síndromes ou transtornos mentais, não apenas a mulher por ser mulher. São questões internas ou externas, influenciadas por contextos mundiais, locais, por doenças genéticas, pela chuva que cai lá fora e estraga os planos de alguém. Porém, assim como diz a matéria Mulher Moderna: acúmulo de papéis pode afetar a saúde mental feminina, pelas mulheres serem ensinadas desde sempre a expressarem seus sentimentos, diferente dos homens que internalizam muita coisa devido a construção social da masculinidade não permitir sentir, elas acabam tendo outros rótulos. De frágeis, emotivas, raivosas, arrogantes. Toda vez que uma mulher se impõe em alguma situação, ela é banalizada referente aos seus sentimentos e não a sua posição opinativa.

Para a mulher ter lugar de fala, ela não pode incluir o que sente, tem de trabalhar o dobro que o colega homem e, em muitas famílias, ainda chegar em casa e começar o terceiro turno. Ela tem de ser estável emocionalmente para apoiar os filhos, a família, mostrar nas redes sociais que arrasa em todos os quesitos. Só que, ao mesmo tempo que esse comportamento é aplaudido e chamado de Síndrome da Mulher Maravilha, a saúde mental dessa suposta guerreira sofre perdas. No mesmo artigo citado anteriormente, é dito que:

“De acordo com a WHO (2000), a saúde mental feminina é afetada por seu contexto de vida ou por fatores externos, como aspectos socioculturais, legais, econômicos, de infra-estrutura ou ambientais, e a identificação e a modificação desses fatores tornaria possível a prevenção primária de algumas desordens. A descrição de situações de vida e de estudos de caso auxiliaria na compreensão do contexto onde se desenvolvem quadros como a depressão, o desgaste emocional, a ansiedade, dentre outras desordens, bem como na compreensão do sentido que a saúde mental assume para as mulheres. A inexistência de investigações que estudem a compreensão das próprias mulheres acerca de sua saúde mental pode levar a uma política de saúde que não leve em conta prioridades fundamentais, tais como aquelas vividas por mulheres com transtorno mental grave que tenham filhos ainda dependentes.”

A mulher, por estar no encargo da família e da própria busca por realização e independência, sobrecarrega sua cabeça com uma lista de compromissos, reais ou imaginários, que cria para si mesma. A depressão e a ansiedade andam de mãos dadas, não somente com as mulheres que trabalham foram, mas também com as donas de casa. A falta de valorização e reconhecimento pelo trabalho de alguém que passa o dia com tarefas repetitivas, vivendo em isolamento, sendo atacada indiretamente pela cultura do fazer mais, do perfil de Instagram da vizinha que é mais popular e bem-sucedida, pela falta de independência financeira e, muitas vezes, pela submissão ao marido, são apenas alguns dos motivos apontados como potencializadores por Luciana da Silva Santos e Gláucia Ribeiro Starling Diniz, em seu artigo Saúde mental de mulheres donas de casa: um olhar feminista-fenomenológico-existencial”

Conforme a presença feminina começa a tomar conta de departamentos de marketing, da criação de espaços de conversa na produção de um conteúdo mais inclusivo, as redes sociais passam a se transformar em local de agregação. A dona de casa, antes solitária em casa, encontra outras inúmeras mulheres que escolheram estar ali e encontram um cantinho de empatia e conversa, mesmo sem ser físico. Ao mesmo tempo que pautas sobre saúde mental passam a aparecer em podcasts, programas de televisão e infinitos livros e seriados, a sociedade (ainda engatinhando) revê a classificação de transtornos para uma real doença, algo que deve ser levado em conta e consideração.

Quanto mais se fala sobre o que se sente e mais se expõe que a vida perfeita não existe nem nos filtros do Instagram, mais mulheres respiram fundo e aceitam suas condições. Ou melhor, dão maior atenção ao que lhes faz bem e o que lhes traz sentimentos ruins. O exercício de entender, aceitar e agir a partir do que consideramos essencial é, na verdade, a prática do autocuidado. É o olhar pra dentro é o se colocar em primeiro lugar. Tomar essa atitude em prol de si mesma pode ter sido considerado egoísta por muito tempo. Mas de que adianta apenas estarmos ao lado de quem precisa da gente, se não estamos do nosso lado? Não é possível encher um copo de água se a garrafa está vazia. O self care, que traz a palavra self no nome, o literal “próprio”, no inglês, tem infinitas variações. E existe um estilo de autocuidado para cada um de nós, totalmente personalizado. E há um particularmente especial: o Girls’ Night In.

O site de mesmo nome foi fundado em 2017 por Alisha Ramos e começou apenas como uma newsletter de dicas para mulheres que gostavam de ficar em casa. Depois de pouco tempo, com a quantidade de inscritos nesse mailing aumentando mais e mais, ela resolveu criar um repositório para fácil acesso sempre que a criatividade estiver baixa. No texto em que conta como teve a ideia de fazer o canal, ela diz que buscava criar uma marca que pudesse ser um assunto leve e construído por diferentes mulheres, que pudesse falar sobre coisas boas, que não dependesse só de tecnologia e, principalmente, que trouxesse mais momentos de pausa na rotina.

Por isso, a concretização da ideia foi transformar algo de que ela já gostava, como ficar em casa, curtir um final de semana com máscaras faciais, ler livros diferentes, ouvir novos podcasts e conversar com amigas repassando dicas, em uma newsletter que chega toda sexta de manhã na caixa de mensagens de outras mulheres. Para ela, o objetivo principal era redefinir o conceito de bem-estar e autocuidado na comunidade, principalmente feminina, que é a que mais se pressiona por resultados e impressões alheias. E, com isso, o site foi crescendo, hoje continuando com seus e-mails, mas também com um clube do livro em diferentes estados no EUA (antes da pandemia, havia encontros mensais em cidades diferentes), algumas parcerias com marcas de self care repassando descontos e dicas e ainda entrevistas sobre os mais variados assuntos com chefes mulheres.

Todo e-mail tem uma cartinha de “Happy Friday” da Alisha ou de alguma das colaboradoras falam sobre o que viram, pensaram ou aprenderam na semana sobre autocuidado. Isso traz um toque mais humano e próximo, já que podemos compartilhar nossas histórias também com elas através de algumas hashtags. O “me time”, como elas também chamam o tempo de ficar sozinha fazendo o que você mais gosta ou vários nadas, é um carinho no coração. É uma forma de deixar tantas mulheres com o argumento (já que, às vezes, é só assim para ser escutada) de que o autocuidado é necessário e essencial. É um jeito de encher nossa garrafa de água.

Conteúdos que enaltecem a pausa, o entendimento e a aceitação sobre como você está se sentindo são fortemente recomendados. Está tudo bem colocar como parte da sua rotina o autocuidado e a reflexão. Durante a pandemia, o Girls Night In lançou o Stay Home, Take Care (“Fique em casa e se cuide”, em tradução livre) com o intuito de falar sobre os efeitos da pandemia e das incertezas atuais do mundo influenciando no nosso autocuidado. São dicas, listas e matérias sobre como passar por essa fase se sentindo mais forte, além de indicações de receitas, produtos e canais para acompanhar de exercícios para se fazer em casa.

Assim como já sabemos, juntas somos todas muito mais fortes, por isso, iniciativas como essas que prezam colocarmo-nos em primeiro lugar dão mais voz, credibilidade e força nas pautas sobre saúde mental.

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