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O Oscar e a premiação para minorias

Passada toda a euforia do Oscar 2020, há coisas sobre as quais precisamos refletir. Se existe algo para se concordar é que a premiação continua sendo majoritariamente para e sobre o padrão: homens brancos, cis, héteros. Desde a campanha #OscarSoWhite não é possível dizer que aconteceu grandes mudanças. Os indicados continuam sendo aqueles que estão dentro dessa classe pré-definida. Contudo, precisamos conversar e refletir sobre premiações às minorias étnicas ou de gênero, e como isso não pode gerar um embate sobre quem é mais oprimido, pois não há hierarquia de opressão.

Vivemos em uma sociedade em que ser mulher ainda é uma condição que não traz reconhecimento por parte da Academia. Quantas mulheres efetivamente vemos concorrerem (e ganharem) em categorias técnicas como a de Direção, por exemplo? Ao mesmo tempo, o mundo do Oscar também não abriu as portas para os não-brancos. E é necessário destacar esses dois pontos.

Greta Gerwig (Little Women) e Taika Waititi (Jojo Rabbit) foram indicados a Melhor Roteiro Adaptado na última edição do prêmio. Greta foi a única mulher na categoria. Taika foi quem ganhou. No entanto, para além de percebermos que mais uma vez uma mulher não ganhou um prêmio importante da Academia, inevitável também é analisar que Taika não representa apenas o gênero masculino. Para quem não sabe, ele é de origem maori de Te Whānau-ā-Apanui, povo nativo da Nova Zelândia. Portanto, ele também representa uma pessoa não-branca.

Se por um lado a mulher continua a não ser valorizada, por outro, pessoas que não sejam brancas também não são. Quando um homem de outra etnia ganha um prêmio importante como o Oscar, temos de celebrar a quebra do paradigma do homem branco dominando a Academia (apesar de sabermos que nada disso mudou ainda).

Quando temos um asiático, como Bong Joon-ho, ganhando o prêmio de Melhor Diretor, e um homem de origem maori sendo o primeiro, de sua etnia, a ser premiado com a estatueta do Oscar por Melhor Roteiro Adaptado, temos que olhar para além do gênero. Aqui não se trata apenas de homens, mas de homens não-brancos em meio a tantos outros brancos que sempre foram premiados em outras edições.

oscar 2020

Audre Lorde, mulher negra, escritora e importante ativista de direitos civis, explica e traz uma importante reflexão sobre como não existe hierarquia de opressão.

“Da minha participação em todos esses grupos, aprendi que opressão e intolerância de diferenças aparecem em todas as formas e sexos e cores e sexualidades; e entre aqueles de nós que compartilham dos objetivos de liberação e um futuro possível para nossas crianças, não pode haver hierarquias de opressão. […]

então eu sei que não posso me dar ao luxo de combater apenas uma forma de opressão. Eu não posso me permitir acreditar que liberta-se da intolerância é o direito de apenas um grupo em específico.” (do capítulo “Diferença e Sobrevivência”, do livro Eu sou sua irmã. Escritos coletados e não-publicados de Audre Lorde)

Ou seja, por conta de um sistema patriarcal recorrente em nossa sociedade, Greta ainda é a única mulher a ser indicada à categoria do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Diversas mulheres ainda não possuem o devido destaque em seu trabalho no mundo cinematográfico, assim como em outras atividades. O fato de ela ter sido a única na categoria é sintomático e reflete como a premiação continua sendo para homens brancos. Mas é importante fazer o recorte de etnia. As etnias também não são representadas e não são premiadas.

Em 2018, Emma Stone, ao anunciar os indicados da categoria Melhor Direção, deixou bem clara sua insatisfação pela falta de mulheres nas premiações, enfatizando que apenas Greta concorria ao prêmio (na ocasião, pelo filme Lady Bird).

“Esses quatro homens e Greta Gerwig criaram suas próprias obras primas nesse ano”, disse ela.

Foi Guilhermo Del Toro que levou o Oscar de Melhor Filme com o filme A Forma da Água naquela edição.

oscar 2020

Além do diretor latino, também concorria, na mesma categoria, Jordan Peele com Corra!. E é importante destacar que apenas outros quatro negros foram indicado em edições anteriores: John Singleton, por Os Donos da Rua, em 1991; Lee Daniels, por Preciosa: Uma História de Esperança, em 2009; Steve McQueen, por 12 Anos de Escravidão, em 2013; e Barry Jenkins, por Moonlight, em 2016. Já Del Toro, junto a Alfonso Cuarón e Alejandro G. Iñarritu, são os únicos latinos que garantiram o prêmio na categoria.

Do mesmo modo, Gerwig, naquele ano, foi apenas a quinta mulher indicada ao prêmio de Melhor Direção. Além dela, também receberam a indicação: Luina Wertmuller, por Pasqualino Sete Belezas, em 1975; Jane Champion, por O Piano, em 1993; Sofia Coppola, por Encontros e Desencontros, em 2003; e Kathryn Bigelow, por Guerra ao Terror, em 2008, a única mulher indicada a sair vencedora na categoria.

Então, quando Emma comentou sobre a questão de gênero, não se deu conta que a etnia dos dois também é representativa e precisa ser celebrada. Ao mesmo tempo que é relevante ressaltar que Greta era a única mulher concorrendo, não se pode ignorar a etnia. Jordan Peele não usufrui dos mesmos privilégios dos homens brancos da Academia, assim como Del Toro. Ambos são minoria apesar de serem também homens.

Vale lembrar que Dee Rees, em 2018, foi a primeira mulher negra da história do Oscar a ser indicada a Melhor Roteiro Adaptado por Mudbound, mas foi ignorada pela categoria de Melhor Direção. Ser mulher e negra em Hollywood é possuir ainda menos notoriedade.

Talvez Stone não tenha tido a sensibilidade de perceber essa diferença por ser uma mulher branca. Por isso, é tão fundamental que se construa uma consciência de raça e de como a sociedade moldou o racismo estrutural. Isso não quer dizer que ela esteja errada em fazer essa ressalva. Afinal de contas, ser mulher na indústria cinematográfica, em especial a de Hollywood, é não ter a mesma evidência do homem branco. E exatamente por conta deste dois pontos é que devemos esclarecer como não há hierarquia de opressão. A mulher sofre em uma sociedade patriarcal, assim como pessoas não-brancas de outros gêneros também. Cada classe enfrenta suas particularidades na sociedade patriarcal e racista, e compartilhamos do mesmo desejo de romper essas opressões.

oscar

Não se pode falar sobre Taika Waititi ganhar o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado como se estivéssemos falando de mais um homem branco premiado pela Academia. Por ser de origem maori, é louvável reconhecer como é imprescindível que o Oscar se torne mais diverso, e sua vitória — tanto quanto a de Bong Joon-ho — representa um passo na direção de maior reconhecimento para pessoas não-brancas como ele. Não é porque Greta não ganhou nesse momento que não podemos celebrar o fato de um homem não-branco ter ganhado. Não é uma competição. É uma quebra de barreira.

Angela Davis, mulher negra, filósofa e feminista, durante conferência realizada em São Luís, no Maranhão, na 1ª Jornada Cultural Lélia Gonzales, em 2015, explicou bem como o combate  às opressões estão interligados.

“Precisamos refletir bastante para perceber as intersecções entre raça, classe e gênero, de forma a perceber que entre essas categorias existem relações que são mútuas e outras que são cruzadas. Ninguém pode assumir a primazia de uma categoria sobre as outras.”

Em resumo, quando se trata da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, temos de levar em consideração todas as minorias que são premiadas. Como Davis esclarece, não podemos sobrepor uma opressão sobre a outra. Estamos em 2020 e temos que admitir os privilégios sociais das mulheres brancas, enquanto raça, assim como os privilégios de homens não-brancos, enquanto gênero. O nosso principal embate é com a sociedade patriarcal e racista. E, na premiação do Oscar, esse padrão se reflete nas indicações e premiações.

Não é sobre Greta não merecer ganhar por ser uma mulher branca. É sobre como precisamos analisar os contextos sociais e dizer que tanto ela quanto Taika merecem ganhar prêmios e ter a mesma notoriedade do homem branco padrão.

Estamos no fim de uma década, em pleno século XXI, mas, dentro da Academia, a falta de diversidade continua a ser a regra. Não existirá diversidade enquanto o Oscar continuar a ter uma maioria de homens brancos indicados e premiados. E é esse tipo de prática que precisamos combater, vociferando como o prêmio continua sendo exclusivamente dessa classe pré-definida. E isso precisa, de uma vez por todas, mudar.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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