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BBB: o que os reality shows ainda têm a nos oferecer?

Guilty pleasure (ou “prazer culposo”, em português) se caracteriza como as atividades que gostamos de fazer e que nosso cérebro classifica como vergonhosas; ações que nos trazem alegria ainda que não sejam bem-vistas pela sociedade. Esses prazeres variam desde comer uma pizza inteira sozinha depois de prometer começar a dieta na segunda até ler um livro rotulado infantojuvenil quando você já deixou a adolescência para trás. Em uma análise mais atual, psicólogos começaram a interpretar o conceito de guilty pleasure como algo machista, pautado na ideia de que coisas vistas como vergonhosas geralmente são aquelas apreciadas por mulheres, como maquiagens ou comédias românticas, e que coisas passíveis de vergonha no mundo masculino (filmes de super-heróis e coleções de carrinhos em miniatura, por exemplo) não são tachados como prazeres culposos.

Um dos maiores exemplos de prazer culposo e uma forma de entretenimento muito criticada desde sua criação é o reality show, tipo de programa de TV baseado na vida real que acompanha o dia a dia não de personagens, mas sim de pessoas cujo cotidiano é curioso o bastante para ser transformado em audiência. Ainda que existam vários tipos de reality shows, desde aqueles acompanhando os dramas de famosas famílias cosmopolitas até as competições culinárias, a categoria de reality preferida dos brasileiros é aquela que confina vários indivíduos diferentes em uma só casa, forçado-os a lidar com as personalidades uns dos outros e reagir a sua própria maneira. Tais realities fazem sucesso no Brasil, e programas como A Fazenda, De Férias com o Ex e Casa dos Artistas são, e foram, campeões de audiência, mas o mais famoso expoente dessa categoria de reality em território tupiniquim é o BBB.

O Big Brother é um reality show holandês criado em 1999. O programa tem como premissa básica um número variável de participantes confinados numa casa cenográfica, sendo vigiados 24h por dia, sem conexão com o mundo exterior. Os participantes não podem se comunicar com seus familiares, nem ler jornais ou usar a internet para obter informações do mundo de fora, e, uma vez por semana, são submetidos ao voto popular após serem indicados por seus companheiros de confinamento, sendo o mais votado eliminado da competição. A rotina continua por cerca de três meses, até que um dos participantes é votado pelo público para receber o grande prêmio em dinheiro.

A versão brasileira do Big Brother, o Big Brother Brasil, apelidada carinhosamente de BBB, estreou na TV aberta três anos após a criação da franquia, com transmissão pela TV Globo e apresentada pelo hoje lendário Pedro Bial. Fazendo uso de personagens caricatos, como o futuro ganhador Kleber Bambam, eterno apaixonado pela boneca Maria Eugênia, e de uma dinâmica televisiva nunca antes vista pelo brasileiro, com provas de resistência e joguinhos mentais que visavam colocar os participantes uns contra os outros, o programa logo foi um sucesso, com uma nova temporada encomendada para meses depois e novas edições anuais sendo exibidas até os dias de hoje.

Não demorou para o programa ser alvo de duras críticas. Acusado de passar a ideia de que qualquer humilhação é válida se o prêmio é cinco minutos de fama, numa sociedade do espetáculo que deixaria Guy Debord com inveja, ao BBB foram atribuídas características fúteis, uma “versão circense do crime de sequestro”, um programa que nada acrescenta ao repertório cultural do telespectador, servindo, acima de tudo, como uma ferramenta da alienação de quem assiste, ofuscando pautas mais importantes do desenvolvimento político-econômico nacional quando clama a seus espectadores por mais uma “espiadinha”.

Porém, uma questão essencial se cristaliza nesse contexto: qual é o problema em querer se alienar?

Dizer que vivemos em um momento desequilibrado da história do Brasil é um tremendo eufemismo. Em um cenário marcado pelos crimes ambientais, tragédias urbanas, regresso de políticas públicas voltadas para grupos em situação de vulnerabilidade, reformas trabalhistas e educacionais que colocam em xeque o futuro de estudantes e trabalhadores e medidas políticas pouco convencionais que podem acarretar na decadência das relações econômicas internacionais do Brasil, o Big Brother aparece como um sopro de ar fresco, oferecendo um entretenimento divertido e de simples entendimento, sem a necessidade de se deter em análises complexas.

Levando em consideração apenas o aspecto da diversão, o BBB já seria um programa válido. Ao assistir às edições, você, de fato, se entretém com as peripécias dos participantes, sejam elas uma redenção especial de “We Are the World” durante uma prova de resistência, a volta de um participante ao reality quando sua namorada no programa já está de caso com outro ou simplesmente o retorno ao jogo de uma das participantes mais controversas da história do programa, amada e odiada na mesma medida. Sendo um reality que nunca prometeu nada além da diversão, o BBB cumpre com maestria sua premissa única. Contudo, a proposição oculta do Big Brother vai muito além disso, oferecendo aos mais atentos um minucioso relato sociológico das relações interpessoais contemporâneas.

Reality shows se consolidaram como pilares essenciais da nossa cultura no período pós-Guerra Fria, quando a tecnologia finalmente começou a nos unir ao invés de nos separar e o mundo resolveu, afinal, mostrar quem era, sem mais conspirações por baixo dos panos. É nesse cenário que tais programas aparecem como excelentes maneiras de refletir acerca de tópicos fundamentais para o funcionamento da sociedade, como conflitos de classe, raça e gênero. Os realities aproximam da nossa realidade pessoas com personalidades e conhecimentos diferentes, das mais diversas tipificações ideológica, as quais — em nossas bolhas sociais — talvez jamais tivéssemos contato.

O BBB, por exemplo, numa versão bem menos punk-rock do Experimento de Aprisionamento de Stanford, demonstra claramente todas as formas diferentes que um grupo de 20 pessoas reage entre si, confinadas dentro do mesmo pequeno espaço por três meses e obedecendo uma clara hierarquia social — alguns são os líderes (e seus VIPs), alguns são os Anjos, alguns são os “Tá com Tudo”; outros, são os emparedados, os Monstros, os “Tá com Nada”. Além disso, tendo toda sua alimentação restrita, ao mesmo tempo que desfrutam de proporções quase infinitas de álcool durante as festas, e ainda tendo que se despedir de seus amigos temporários uma vez por semana, as reações dos participantes são exemplos claros de indivíduos agindo sob pressão, desligados da vida real e focados apenas na próxima etapa do jogo.

Com isso, muitas pautas importantes acabam sendo levantadas. No BBB 17, os participantes Marcos e Emily, em um relacionamento abusivo forçado pelo rapaz, protagonizaram cenas explícitas de agressão doméstica, em que Marcos pressionou a mulher agressivamente contra a parede, enfiando o dedo em seu rosto e exigindo que ela “baixasse a bola”. (O competidor foi expulso após esse acontecimento, mas continuou dando entrevistas normalmente para fansites e, meses depois, foi convidado ilustre d’A Fazenda.) Em 2016, acusações de assédio por parte de Ana Paula culminaram na indicação de Laerte ao paredão e sua subsequente eliminação. Fora da casa, o participante foi preso após vídeos e fotos suas incitando sexo com menores de idade começarem a circular pela internet. No BBB 19, o participante Maycon deu um show de racismo e preconceito religioso depois de alegar sentimentos ruins rondando a casa após presenciar dois competidores, Rodrigo e Gabriela, negros e seguidores de religiões de matriz africana, dançando a música “Identidade”, do cantor Jorge Aragão. Maycon disse ouvir vozes em sua cabeça implorando para que ele “não fizesse que nem eles”, deixando implícita a comparação entre as religiões de Rodrigo e Gabi e a ideia católica de algo demoníaco e profano oriundo das crenças africanas. (O Ministério Público abriu um inquérito contra o rapaz e outra participante, Paula, por comentários racistas, mas foi preciso votação do público para Maycon ser eliminado. Paula foi a campeã da edição.) O BBB 20, que começou há menos de um mês, já rendeu à produção do programa ter de lidar, de forma ativa, com assédio dentro da casa e com uma tentativa de normalização de zoofilia. (Só o tempo dirá no que essas atitudes e conversas irão, de fato, desaguar. Pétrix não foi expulso, apesar de ter sido eliminado e sido intimado a depor perante o Ministério Público. Pyong recebeu uma advertência da produção. E Mari e Felipe foram chamados apenas a prestar esclarecimentos no confessionário.)

Esses exemplos são apenas alguns dos inúmeros momentos ao longo do programa em que atitudes dentro do jogo inspiraram debates reais fora da casa, capazes de proporcionar reflexões sérias acerca da nossa cultura, de como agimos e do que somos capazes de “passar pano”, perdoar e alegar que os competidores “não sabem o que dizem” ou que “boys will be boys” [“garotos serão garotos“].  Não é a toa que os protagonistas das polêmicas acima foram todos homens. Em sua maioria, as edições do BBB servem para propagar uma visão tóxica da masculinidade, retratando os homens ou como “machos burros”, ou como exímios jogadores, passando por cima de tudo para chegar à final, ou como participantes que estão ali apenas pra se embebedar nas festas e paquerar as mulheres, se aproveitando delas debaixo do edredom.

O BBB força seus participantes a debater sobre questões facilmente identificáveis aos telespectadores, como amizades, inveja, conflitos, amor, ciúmes, competição. Daqui de fora, nós usamos essas opiniões para escolher quem gostamos e quem odiamos, e somos facilmente manipulados pelas escolhas dos editores de vídeo e por personagens que agem da forma que agem porque sabem o que faz os telespectadores gostarem deles. Não é por acaso que muitas semifinais já foram protagonizadas por casais, e mulheres “vulneráveis” já ganharam muitos BBBs, ao passo que homens muito agressivos e muito jogadores são logo eliminados. Nesse tipo de reality show, a análise sociológica se reflete aqui fora também: nós torcemos pelos casais que parecem verdadeiros, aplaudimos quando participantes que não gostamos são eliminados; nos tornamos maniqueístas, atribuindo qualidades boas e qualidades ruins a seres humanos complexos.

Nesse sentido, reality shows são quase como estudos antropológicos: descobrimos como pessoas iguais a nós vivem, aprendemos os pormenores de seus valores morais e seus pensamentos. Em troca, os valores da nossa própria sociedade são refletidos para nós na tela de uma TV, ou numa conta de pay-per-view, proporcionando para os telespectadores perceber qual tipo de conduta é ou não é aceitável, qual tipo de atitude nossa sociedade nos condiciona a promover.

Agindo quase como a personificação do Id psicanalista, as situações esquematizadas pelo BBB forçam os participantes a usarem seus instintos, seus impulsos e seus desejos. É essa a força que forma casais em festas após horas de bebedeira, que prolonga uma prova de resistência até o fim da tarde do dia seguinte, que faz um líder mudar quem vai indicar ao paredão na última hora. Também é a pretensão instintiva que faz o telespectador projetar seus próprios anseios nos participantes, pensando sempre que faria coisa x ou y diferente se estivesse lá dentro. Tais realities acabam se tornando um reflexo do que aqueles que estão do lado de fora querem que se passe em suas próprias vidas, o gostinho de austeridade e liberdade que vem em estar, ao mesmo tempo, isolado e vigiado.

Ainda que a etimologia primária da palavra tenha conotação sexual, outro aspecto que promove o sucesso desses realities shows é a condição de voyeur que o espectador passa a ter. Originalmente, voyeur é alguém que sente prazer em observar outras pessoas em situações consideradas íntimas, como o ato de despir-se ou de engajar em atividades sexuais. Essa definição não se distancia tanto daquela adquirida por quem assiste a realities shows: parte da graça em ver esses programas reside em testemunhar a intimidade de semi-conhecidos, descobrir seus pensamentos e segredos numa forma que faz jus ao nome Big Brother.

O título do programa faz referência ao livro 1984, de George Orwell. Na obra literária, uma Grã-Bretanha distópica é governada por um único partido totalitário, cujo líder é o Grande Irmão, uma figura cultuada pelos cidadãos mas que muitos duvidam da existência física. Sob o lema “o Grande Irmão está te observando”, o partido espiona toda a população, com câmeras de vigilância e microfones escondidos por todas as casas e locais de trabalho. Assim como as câmeras do partido totalitário de Orwell, as câmeras do Big Brother também estão observando todos os participantes, acompanhando mesmo momentos íntimos como o tomar banho, fazer sexo ou trocar de roupa — para contornar essa situação, os participantes tomam banho de biquíni, transam debaixo dos cobertores, trocam de roupa com panos em cima do corpo. Assim como no livro, não há intimidade no reality, e essa condição desperta nos espectadores voyeurismo singular, alimentado ainda mais quando, de forma análoga a 1984, o programa implora para que a gente dê “só mais uma espiadinha”.

Em muitas situações, o Big Brother também se assemelha ao filme de 1998 O Show de Truman, e pode não ser por acaso que o reality estreou um ano depois de seu lançamento. Na obra estrelada por Jim Carrey, Truman Burbank é a estrela de um reality show sobre sua vida, que começou no mesmo dia em que ele nasceu. Truman vive numa ilha cinematográfica, e as pessoas que ele acredita serem sua família e seus amigos são, na verdade, atores agindo com base num script, tentando captar as reações reais de Truman. O reality da vida do homem é um sucesso, com projeções televisivas 24h por dia e, apesar de criticado, Christof (Ed Harris), criador do programa, justifica suas ações com base na vontade de mostrar aos espectadores a vida diária de um homem comum. Truman, contudo, se torna consciente do mundo em que vive, e começa a tentar escapar.

Assim como o BBB, o ambiente em que Truman vive não é real, suas relações com os outros são forjadas por entidades maiores (Christof, no caso de Show; Boninho e todo o grupo de editores de vídeo, no BBB), suas ações são decididas pelo público, ele é sempre observado pelos telespectadores, que torcem por ele ou criticam o script em que Truman foi inserido. A sátira cinematográfica parecia muito longe da concretização real em 1998, quando foi lançado, mas, atualmente, se tornou o padrão que norteia a maior parte do entretenimento consumido por nós hoje em dia. Baseando-se na alienação tanto dos participantes quanto dos telespectadores, o poder da mídia se fortaleceu ao invés de desaparecer gradualmente desde o início do século XXI, enevoando as perspectivas entre realidade e ficção.

Mesmo assim, o BBB se mostra muito estável em seu aspecto particular de voyeur. O fascínio existente pela sensação de estar vendo aspectos da vida de outras pessoas que não temos autorização sempre foi interessante, e é o lema do telespectador de reality. A sensação de observar alguém pelo buraco da fechadura direciona nosso fascínio aos personagens sem nenhuma inibição retratados nesses programas, fazendo jus à máxima de que a vida alheia é sempre mais interessante que a nossa”.

Particularmente, eu sempre tive um problema com a maneira que as coisas são avaliadas na cultura pop. De alguma maneira, a crítica sempre tanta transformar uma obra em algo que ela não é, invalidando todo o processo — ou a falta de processo — por trás do que foi criado. Se uma série é assumidamente teen e não promete nada mais do que isso, como Riverdale ou Pretty Little Liars, a crítica não deveria avaliar a falta de profundidade ou a unidimensionalidade dos personagens, mas sim se os aspectos presentes na série que asseguram sua caracterização como teen aparecem e são válidos. Para uma série ser de adolescente, o que precisa funcionar? É o galã sem camisa? O eterno conflito entre a garota popular descolada e a nerd pelo coração do garoto? São pais que aparentam nunca estarem presentes quando seus filhos saem em aventuras? É o clichê do “esquisitão com bom coração”? É o professor um pouco solícito demais, ou a patricinha sem remorso que celebra sua vida sexual? Essas são as dinâmicas que deveriam ser avaliadas, e são tais detalhes que diferenciam séries como Teen Wolf e Skam. A mesma coisa acontece com álbuns de música alternativa, frequentemente criticados pela ausência de singles que capturem a atenção das rádios e da audiência, quando a capacidade de esconder mensagens nas entrelinhas, o trabalho minimalista do instrumental e a voz ressonante dos vocalistas são os verdadeiros carros-chefe desse tipo de música.

Não há porquê criticar o BBB — e qualquer tipo de reality — por sua falta de perspicácia quando não é um programa feito pra ser inteligente, crítico ou analítico. Em toda sua grandeza, os realities são geralmente indiferentes a esse tipo de análise, não conseguindo evitar, contudo, tal avaliação. Mais do que qualquer outra coisa, esse tipo de programa é reprovado por ser uma novidade, além de uma coisa apreciada por pessoas jovens. O mundo ainda vive uma espécie de saudosismo exagerado das coisas do passado, o que nos faz idolatrar músicas e literatura antiga como sendo superiores. Para o senso comum, o jovem é líquido, e suas escolhas de entretenimento refletem a condição rasa e narcisista da modernidade.

No fim das contas, ficção é ficção, e tudo isso é TV. A longo prazo, não vai importar se seus neurônios foram queimados assistindo Masterchef Kids ou The Handmaid’s Tale. Afinal, o objetivo maior da televisão numa sociedade que está condenada a viver sofrendo deveria ser sempre a diversão, não importa se ela é adquirida teorizando sobre quem vai se sentar no Trono de Ferro (RIP) ou quem será indicado pelo líder ao paredão.

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