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Fresh: um absurdo conto de horror e romance deturpado

Estreando sem muito alarde da mídia no Star+ após ser lançado e aclamado pelo Festival de Sundance, Fresh surpreende não pelos rumos macabros que toma, mas pela forma como o faz. Escrito por Lauryn Kahn e dirigido por Mimi Cave, o longa eleva ao absurdo a realidade da mulher moderna em um roteiro que não tem medo de ser literal em seu propósito, mas que, ainda assim, consegue explorar nuances assustadoramente realistas do comportamento humano.

Aviso de gatilho: este texto fala sobre estupro, agressões sexuais e canibalismo.

Atenção: este texto contém spoilers

Noa (Daisy Edgar-Jones) é uma jovem de 20 e poucos anos cansada do jogo de tentativa e erro promovido pelos aplicativos de encontros. Para além de ter que atender expectativas de estar procurando um relacionamento, é cansativo — e até abusivo — estar no aplicativo em si, lidando com homens que não têm qualquer respeito por ela como pessoa, deslizando a tela para a esquerda ou direita. Isso porquê esse tipo de aplicativo explora um tipo de interesse totalmente fabricado em razão da certa facilidade com que se tem acesso ao outro, mas não gera muito engajamento de nenhuma das partes naquela relação — afinal, se não der certo, você pode voltar a deslizar a tela para o encontro seguinte.

É cansativo, também, lidar com homens aparentemente bons o suficiente para te fazer sair de casa, dispostos a colocar as boas maneiras à mesa, mas crentes de que entendem tudo sobre as mulheres e formas de expressão de feminilidade, achando que estão fazendo mais do que o mínimo por serem educados, mas… Apenas por tempo suficiente para te levar para a cama. Caso não funcione até o fim do encontro, você será taxada como uma “piranha escrota” pelo desconhecido.

Não por outro motivo, o filme, que tem na trilha-sonora um de seus maiores apoios e uma forma de deixar claro todos os seus não-ditos, entoa “You’re Not Good Enough”, do Blood Orange, a qual combina perfeitamente com esse ciclo de encontros malsucedidos no qual a protagonista vem vivendo em versos como “Você nunca poderia ter sido um bom amante” e “Eu nunca estive apaixonada/ Você sabe que nunca foi bom o suficiente”.

É por isso que, logo de cara, Steve (Sebastian Stan) consegue a atenção da protagonista. Ele chega na contramão de tudo isso: sem aplicativos, sem redes sociais, sem se importar com a roupa desleixada que ela está usando no corredor de um supermercado no meio da noite, sem pompas e parecendo desajeitado para puxar assunto, mas ainda assim divertido o suficiente para que não saia da mente dela. Ainda, ele é respeitável. Steve não a importuna, não manda mensagens e não espera sexo após pagar a ela um drink. É Noa quem tem de dar o primeiro passo, mandar mensagem e convidá-lo para sua casa, se surpreendendo que ele considere que tudo esteja indo “rápido demais”.

Fresh se utiliza do mesmo artifício de produções recentes, que chegam nessa onda de filmes produzidos por mulheres, como o recentemente vencedor do Oscar Bela Vingança, dirigido por Emerald Fennell: Steve não tem o rosto de um predador sexual, muito menos de um criminoso. Sebastian Stan, certamente, não foi escolhido ao acaso, pois incorpora perfeitamente a aparência e o comportamento de um protagonista padrão de comédia romântica, alguém em que se confia e para quem a protagonista baixa a guarda muito rapidamente, pois ele, acima de todas as poucas expectativas que foi construída nela sobre homens após tantas experiências ruins, a trata bem, a faz dançar e não se importa que não esteja perfeitamente arrumada.

Assim, não há qualquer bandeira vermelha levantada sobre ele — para além da estranheza de Mollie (Jojo T. Gibbs), melhor amiga de Noa, em razão de tamanha perfeição — quando a convida para uma viagem romântica de fim de semana. Como a maioria das mulheres, Noa gosta de pensar que é cuidadosa — caminha à noite olhando sobre os ombros, está pronta para se defender ante uma ameaça iminente, sempre compartilha a localização dos lugares onde vai com a amiga —, tudo está sob controle. Até que, em minutos, deixa de estar.

Minutos. É o que basta para qualquer mulher.

Este é tempo para que o filme tome um rumo completamente diferente daquele explorado antes dos créditos iniciais. A sensação de que há algo errado deixa de fazer parte da produção para que efetivamente se concretize, tornando até mesmo o tom de tudo mais natural, porque se trata de uma realidade mais violenta e crua do que os momentos de romance vividos entre o casal. É quando, definitivamente, se começa a conhecer Steve e compreender algumas de suas atitudes anteriores, como se vivesse numa eterna piada particular.

Quando acorda, depois de ser drogada, Noa está presa em um cativeiro e o novo namorado completamente mudado. O conhecimento que um roteiro escrito por uma mulher carrega dá peso ao desespero, à decepção e confusão inicial da personagem e esse é o diferencial da produção, pois tudo isso está dolorosamente perceptível na câmara, no texto, na interpretação de Daisy, que dá voz ao primeiro e mais assustador pensamento de toda mulher nesse tipo de situação, e ela pergunta: “você vai me estuprar?”

Trata-se de algo que não se espera que aconteça na vida real, pois se parece mais com uma história que se vê em um documentário de true crime, aquele em que se julga a vítima por ter caído num golpe em que você, supostamente, nunca cairia. Entretanto, a realidade de Noa rapidamente se transforma naquele cativeiro e tudo sobre Steve se torna ainda mais esquisito e violento quando a trama fica realmente clara. Na verdade, ele faz parte de uma rede de comércio de carne humana e sequestra mulheres para vender partes de seus corpos, tirando-as aos poucos para fornecê-las frescas aos clientes, um mercado exclusivo e refinado ao qual apenas o “1% do 1%” mais rico da população têm acesso, um contexto absurdo ao qual a produção dá sentido devido à forma que escolheu retratá-lo.

E essa é a coisa sobre Fresh: trata-se de um tipo de violência que está mais implícito no que o protagonista faz do que naquilo efetivamente mostrado, pois o que se vê é abordado com a normalidade do olhar deturpado de Steve, da forma como é fascinado pelo processo de lidar com a carne à paixão com que descreve a experiência de saboreá-la:

“— É uma coisa muito poderosa. Esse mundo, se você o conhecesse… É sobre a entrega. Se entregar para todo mundo, se tornar um só, com outra pessoa, para sempre. E isso é… É lindo. É renúncia. É amor.”

Em uma das cenas mais chocantes do filme, em que deixa explícita a naturalidade dele em lidar com o trabalho de sua vida, Steve faz cortes de uma perna humana enquanto dança ao som de “Obsession”, do Animotion, faixa que traduz muito bem tanto sua relação com o canibalismo quanto a nova obsessão por Noa em versos como “Você é uma obsessão/ Eu não consigo dormir/ Eu sou uma propriedade/ Fechada aos seus pés” e “Você é minha obsessão/ Quem você quer que eu seja/ Para te fazer dormir comigo?”

Em contraponto, Noa leva àquele ambiente sua percepção de estranheza após a descoberta de toda a verdade. Dessa forma, o que inicialmente foi tido como uma casa esteticamente elegante, com diversos tipos de arte e uma arquitetura moderna, que é até ensolarada sob a visão de Steve, ganha um contorno mais obscuro de prisão, com portas e janelas totalmente vedadas, sistemas de segurança, portas grossas e paredes de pedra, que não permitem a passagem de som. Além disso, o próprio Steve passa por uma silenciosa evolução visual. Antes desleixado, usando tênis, moletom e calça jeans velha, quando está na casa-prisão, se sentindo confiante e no controle de todo o desenrolar entre os dois, se revela uma pessoa de gostos refinados, com roupas de corte mais reto, casacos alinhados e cabelos bem penteados, demonstrando a posição de maior poder em que se encontra na relação deturpada estabelecida ali.

Essa alternação de ponto de vista é uma das melhores características do filme. Especialmente devido às interpretações fora da curva de Sebastian e Daisy, há muito o que apontar nas ações de ambos, mas muito o que analisar no não-dito, nas expressões de um olhar culpado ou vazio, no ângulo diferente da câmera, no contexto que os cerca, social e visualmente. Nela, se trabalha muito bem a culpa feminina por não ter enxergado nada suspeito em Steve, pela sensação angustiante de que poderia ter agido de forma diferente para evitar tudo o que aconteceu. Porém, a presença de prisioneiras em outras celas do cativeiro refuta essa ideia. São outras vítimas, mulheres que passaram exatamente pelo lugar em que ela está, tão conscientes do que Noa está pensando e sentindo quanto o público, que traduzem muito bem o entendimento feminino que permeia a mente e os atos das mulheres em todo o lugar, o que pode ser compreendido num simples e fatalista diálogo:

“— Eu sou tão estúpida!
— Não, você não é. Não é nossa culpa, Noa. É deles, é sempre deles.”

As outras mulheres, para além de prisioneiras, nunca têm rosto, o que faz com que funcionem quase como uma voz no subconsciente de Noa, a complementando e entrando em dubiedades sobre Steve e suas ações, seja para retratar revolta e raiva ou para tentar levar uma piada de humor duvidoso sobre a situação desesperadora em que se encontram. Ainda que não estejam à vista, se fazem uma peça importante nesse quebra-cabeças macabro e um centro de força, principalmente quando Noa encontra um recado em uma das revistas deixadas para ela:

“Se está lendo isso, significa que ele gosta de você. Use. Continue lutando, porra. Mandando forças, Sami Akbari.”

Assim como as demais, Sami não aparece na história, mas é devido a ela que a virada acontece. Como na vida real, outras se sacrificaram pelas demais e, por isso, o nome ganha um tom simbólico e reacionário para a protagonista. Por isso, se passa a explorar com mais profundidade o fascínio deturpado que Steve sentiu por Noa desde o início.

Na normalidade forjada entre carcereiro e prisioneira, Steve não consegue evitar ser gentil com Noa nas pequenas coisas em que é possível no contexto absurdo em que se encontram, deixando que ela tome banho, colocando flores no cativeiro ou simplesmente indo conversar com ela, residindo aí toda a dubiedade da produção, pois suas ações são um catalisador de confusão tanto para a protagonista e o público quanto para o próprio personagem, que sempre hesita antes de acabar fazendo qualquer concessão.

A letra de “Restless Heart”, de Peter Cetera, durante uma cena violenta em sua essência, demonstra como Noa, embora nunca deixe de ser um alvo, se tornou mais do que uma peça de comércio humano na visão distorcida de Steve, especialmente considerando o relacionamento em retrospectiva durante o primeiro ato e o fato de as demais vítimas serem apenas vítimas e não interesses amorosos. Na canção, há versos como “Eu não quero te perder/ Eu não quero que você vá embora/ Nós somos tão bons juntos” e “Não me deixe aqui com meu coração inquieto/ Que você encheu de emoção, amor, desde o início”. E, embora realmente haja um tom cômico nos momentos em que esse tipo de música preenche o filme em mais um elemento absurdo que dá o tom da produção, não há como ignorar a verdade por trás das palavras, especialmente porque Steve também entra em contradição com seus sentimentos, com quem realmente é.

Ainda que desconfie do repentino interesse da jovem por seu mundo, é óbvia a forma com que ele nutre expectativas de que ela aprecie o gosto da carne humana tanto quanto ele, ou seja, o aprecie e o aceite nesse macabro sentido. Além disso, literalmente, há um traço de excitação sexual no modo como aprova a pretensa naturalidade que ela passa a fazer a refeição servida por ele. A partir daí, claramente, Noa ganha outro significado para Steve, ainda atrelado ao fascínio que têm por ela, mas mais sensível e também de guarda baixa, uma vez que há momentos em que deixa se levar por ela em detrimento de seu objetivo principal e toda a verdade intrinsecamente violenta que os cerca por causa dele — momentos em que há visível confusão nesse interesse inesperado que tem por ela.

Outro momento chocante é quando Steve mostra à Noa os objetos pessoais de cada vítima e detalha o desejo sinistro dos clientes de ter acesso a esse tipo de coisa para se conectar com a pessoa que estão, literalmente, mastigando. Porém, ele nunca chega a colocar os pertences dela junto às demais. Como também entende que é um jeito de tê-la próxima, Steve as mantêm para si, deixando claro o modo como as coisas estão se desenvolvendo por um rumo diferente do planejado no início.

Trata-se de uma interação complexa, a qual sequer pode ser chamada de “relação amorosa” nesse ponto em razão da bem sucedida abordagem múltipla que a produção dá aos seus personagens. A própria Noa entra em contradição consigo mesma, pois, à certa altura, conta que “se sente horrível por não se sentir horrível”, o que traduz muito bem a percepção que tem sobre o que esperava de si mesma ante uma situação tão definitiva quanto aquela.

Ainda, ao mesmo tempo que racionalmente tem consciência dos contornos macabros sob os quais tudo aquilo está acontecendo, há um sentimento de culpa por se deixar “aproveitar” os momentos em que ele a está tratando bem, alimentando essa sensação de sentir especial para um homem — principalmente, aquele homem específico que a “escolheu” em detrimento de todas as outras mulheres/vítimas, algo que sempre encontra o ego feminino e que é alimentado por Steve e seu desejo de que ela se torne como ele:

“— Você é diferente. E eu soube desde o momento em que a conheci.”

Momento que retrata bem o contexto perturbadoramente ambíguo ao qual o filme chega é a cena de dança entre Noa e Steve no terceiro e último ato, marcado pelo sucesso oitentista “Endless Summer Nights”, de Richard Maxx, que canta “De repente, eu olhei e você tinha ido embora/ E agora está me olhando de volta/ Procurando uma maneira de podermos ser como éramos antes/ […] Nós podemos ter tudo novamente [..]/ Então, por favor, não fuja do que temos/ Seremos só você e eu essa noite”.

Isso porque o primeiro ato fica muito marcado pela promessa do que esse homem poderia ser e a quebra para aquilo que realmente é, mas, ainda assim, a assimilação de toda essa realidade não deixa de ser confusa, dolorosa e repleta de resquícios de decepção, pois Noa não é a heroína perfeita, embora Steve seja o vilão ideal. O acerto de Fresh, contudo, é não se esquecer disso, nem deixar o público fazê-lo em detrimento do charme que nunca deixa de envolvê-lo.

Ainda que não se trate de um filme de terror tradicional e tateie gêneros diversos, inclusive a comédia, em real criatividade, retrata o horror que vive dentro de cada mulher, retornando sempre às nuances explícitas e implícitas de um thriller macabro com traços de romance deturpado por uma trilha-sonora que se leva ao pé da letra — “Dance, dance, dance até você estar morto/ Cabeças vão rolar/ No chão”, do Yeah Yeah Yeahs, também está no longa — o colocando no rol de produções do gênero atualizadas pela visão feminina moderna.


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