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Dallas: a romantização de relacionamentos abusivos

Durante aproximadamente 20 anos, de 1978 a 1991, eles foram um dos casais mais shippáveis da televisão. A química entre eles era inegável, e os espectadores torciam por um final feliz. Inicialmente esse não era o plano, mas a verdade é que eles, os antagonistas, eram mais adorados do que os mocinhos. Ela era alcoolista; ele, um empresário inescrupuloso. Isso não impediu que o público desejasse a felicidade deles. No entanto, por trás da química entre o casal escondia-se uma realidade indesejável. Ele a estuprava repetidas vezes e a tratava como um troféu. Cada vez que ela tentava se libertar, o charme dele era tão irresistível e ela o amava tanto que não havia como deixá-lo. Apesar disso, eles continuaram a ser um amado casal. Senhoras e senhores, apresento-lhes Sue Ellen e J. R. Ewing.

Sue Ellen e J. R. fazem parte de um dos grandes sucessos da televisão estadunidense, o seriado Dallas. Apesar de referida como série, Dallas é, na realidade, uma prime time soap opera, o equivalente a nossas novelas nos Estados Unidos.

No ar por 20 anos, Dallas contava a saga da família Ewing, detentora da Ewing Oil, uma empresa exploradora de petróleo. Ao longo de 14 temporadas e de três filmes para a televisão, a produção acompanha os conflitos dos membros da família que, muitas vezes, atravessam gerações. Isso porque a história não começa no presente. Antes de conhecermos os personagens, somos apresentados à rixa histórica entre as famílias Ewing e Barnes, que teria começado por um desentendimento entre Jock (Jim Davis) e Digger Barnes (David Wayne), que tinham planos de montar um negócio no ramo de petróleo juntos. Somado a isso, um deles rouba a garota do outro e esse é o mote que move a trama. É impossível não pensar na música de Dudu Nobre que abre A Grande Família, porque é disso que Dallas também se trata: uma família muito unida, mas também muito ouriçada, que briga por qualquer razão.

Dallas começa quando Bobby (Patrick Duffy), filho de Jock, e Pamela (Victoria Principal), filha de Digger, se casam. O maior dilema deles é contar isso aos pais. Obviamente, a notícia não é bem recebida, mas eles acabam tendo que aceitar conviver com o inimigo e, naquele início, a vida de Pamela e Bobby é perfeita. Eles são um casal com ótima sintonia, muito apaixonados e têm um toque de fire and music. Os autores os criaram para ser uma versão texana de Romeu e Julieta. Bobby e Pamela foram feitos para criar um apelo junto ao público, mas, como a vida é uma caixinha de surpresas, é o irmão do mocinho e sua esposa, J. R. (Larry Hagman) e Sue Ellen (Linda Gray), respectivamente, que roubam os holofotes.

Sue Ellen e J. R. representam o outro lado da moeda, mais precisamente o que pode haver de ruim e problemático em um relacionamento amoroso. Se Bobby trata a esposa com carinho, J. R. faz justamente o contrário. Os cinco episódios da primeira temporada deixam claro como J. R. enxerga a mulher, ou seja, como um troféu. Não é coincidência que ele tenha se apaixonado por Sue quando ela concorria ao título de Miss Texas: ela era um troféu muito bonito que ele decidiu levar para casa. É impossível esquecer do episódio no qual, para agradar alguns bandidos que entram na mansão Ewing, Sue é obrigada a desfilar de maiô e cantar “People”, de Barbra Streisand, enquanto J. R. assiste a tudo calado, porque no fundo acreditava que a função dela era essa. Além disso, os primeiros episódios deixam claro que as vontades de Sue Ellen são sumariamente ignoradas.

Mesmo com todos os poréns, o público abraçou o casal. Na segunda temporada, com 24 episódios, Bobby e Pamela são deixados de lado e a relação de Sue Ellen e J. R. ganha maior enfoque. É nessa temporada que Dallas revela o alcoolismo de Sue Ellen, doença que a acompanha durante toda a série. É evidente o quanto a bebida é uma válvula de escape para ela, que leva uma vida infeliz dentro de uma família na qual não tinha voz.

A romantização do abuso em capítulos

É impossível contar as idas e vindas de Sue Ellen e J. R. durante Dallas. O mesmo pode ser dito sobre as situações de abuso. Porque, se os dois estavam juntos, era certo que haveria uma discussão, que muitas vezes se tornava uma agressão física. Dallas naturalizou a agressão física como demonstração de amor que, no Tumblr, o fandom muitas vezes sonhava com um J. R. para elas.

As 14 temporadas tornam difícil a catalogação de todas as situações, por isso dividimos o texto em capítulos. Em cada um, você encontrará exemplos de situações abusivas romantizadas pela série.

Capítulo 1: a tática fire meets gasoline

Dallas

Uma das armadilhas mais usadas em Dallas para romantizar o relacionamento abusivo entre J. R.e Sue Ellen foi a inserção de cenas tórridas entre eles. A química entre os atores era inegável, o que levava muitos a acreditar que eles mantivessem um relacionamento amoroso na vida real. Contudo, a relação escondiam algo que não se falava muito na época: o estupro marital. Engana-se quem acredita que o estupro acontece apenas em ruas escurar, perpetrado por desconhecidos. Os abusados estão mais perto do que imaginamos. O estupro marital acontece quando a mulher tem relações sexuais dentro do próprio casamento, sem consentimento. Disso, infelizmente, Sue Ellen entendia muito. Ela foi estuprada repetidas vezes pelo marido. Esses estupros não são exatamente visíveis, no entanto; o véu que os esconde é bastante espesso. Geralmente, na série, os estupros acontecem depois de uma discussão que termina em agressão física.

Na segunda temporada, Sue Ellen manifesta o desejo de ter um filho. Mas, como não tem relações sexuais com o marido, aquilo não tinha como acontecer. Assim, a personagem se volta para o álcool e decide adotar o bebê de Rita (Talia Balsam), uma moça que estava grávida e a quem Sue Ellen começa a ajudar. Um dia, depois de comprar roupinhas para o bebê, ela vai até a casa de Rita entregá-las, mas, ao chegar lá, descobre que J. R. mandou a moça embora, com medo da reação das pessoas ao descobrirem que a esposa estava querendo adotar uma criança. A masculinidade de J. R. é coloca em xeque, portanto, a única maneira de se redimir é tirar Rita do caminho.

Cansada de todo o desprezo do marido, e prestes a ter um caso com o maior inimigo dele, Sue Ellen volta para casa disposta a libertar daquele relacionamento tóxico. Porém, o que acontece é a  seguinte discussão:

Sue Ellen: “Como podemos ter um filho? Você não me toca há meses. Sabe como eu me sinto? Eu me sinto um nada. Como se fosse MINHA culpa não termos um filho.”
J. R.: “Qual é, Miss Texas!”

Nesse momento, a discussão se transforma em agressão física e Sue Ellen dá um tapa no rosto de J. R. Ele, por sua vez, a joga na cama e a imobiliza, segura seus pulsos e prende suas pernas nas dela para que ela não possa levantar. Sue Ellen declara que não aguenta mais ser tocado por ele, o que fere ainda mais sua masculinidade e, valendo-se do fire meets gasoline, a beija à força. Mesmo com as súplicas repetidas de Sue Ellen (“eu não te quero!”), ele não sai de cima dela. Depois de alguns minutos, ela acaba cedendo e cai nas graças do charme de J. R. A mensagem veiculada é a de que Sue Ellen estava se fazendo de difícil e que ela queria o marido. Quem poderia resistir?

Os comentários do vídeo no YouTube deixam evidente como a tática fire meets gasoline é eficaz. Apenas um nome dá nome de estupro aos bois. Outros enaltecem a cena, seja pela sensualidade ou pelo suposto amor que existia entre eles. Ainda há usuários que discutem a foi nesta cena que o filho deles, John Ross (Omri Katz), foi concebido. O fato de Sue Ellen ser objeto do desejo de J. R. naquele exato momento não é posto em xeque. Não é estranho que ele tenha passado metade da segunda temporada recusando as investidas da esposa? As cenas fire meets gasoline não acontecem por acaso. Sue Ellen só se torna o objeto de desejo do marido quando a masculinidade dele é posta em questão.

Capitulo 2: pagar na mesma moeda

Uma das grandes teorias para defender J. R. e sua postura em relação à esposa é a de que ele não sabia como demonstrar seus sentimentos. Ele seria apenas um homem perturbado que não consegue evitar ser um canalha. Ser canalha, inclusive, está no sangue dos Ewing, uma vez que o próprio patriarca da família havia tido um filho fora do casamento.

Como homens do Texas, um dos estados mais conservadores dos EUA, posturas como essa são esperadas. Dallas começou a ser exibida em 1978, o ano que antecedeu a grande crise do petróleo. A série faz uma grande propaganda sobre os grandes barões do petróleo e dos negócios entre as pessoas envolvidas no meio. É claro que as mulheres desempenham um papel importante nessa fórmula e estavam atreladas a essa propaganda: elas eram troféus, exibidos em bailes beneficentes (em Dallas, os famosos Oil Baron’s Ball) e nos churrascos. Até a terceira temporada, nenhuma mulher na família Ewing trabalhava; os homens não permitiam.

Já posturas como as de J. R. não eram toleradas quando vinham de mulheres. Há um momento que é um divisor de águas na jornada tóxica do casal, quando Sue Ellen começa a devolver o tratamento tenebroso do marido. Ela não só sai com o maior inimigo dele, Cliff Barnes (Ken Kercheval), como começa a dormir separada do marido, em outro quarto. As relações deles, nesse momento, baseia-se em morder e assoprar e, nesse morder e assoprar é interessante observar como o sexo é usado como forma de atingir o cônjuge. Em um momento memorável de Dallas, Sue Ellen entra no quarto do marido decidida a transar com ele. Eles dormem juntos, mas quando a transa termina, Sue Ellen acende a luz e começa a se arrumar. O diálogo entre eles simboliza a inversão de valores. De repente ela começa a usá-lo da mesma forma que assistimos desde a primeira temporada:

“De vez em quando, eu posso precisar de você. E quando isso acontecer, eu vou voltar. Mas é só isso. Isso é o máximo de casamento que nós vamos ter”.

Embora seja uma virada importante para a personagem, é possível ver como ela representa muito do relacionamento doentio que eles mantinham. É evidente como a relação deixou cicatrizes no corpo e na alma de Sue Ellen. Ao começar a usar o marido, ela o atinge onde mais dói, ou seja, na masculinidade. Ao final da cena, ele a insulta, como que para tentar sair por cima. Mas, apesar de sair vitoriosa da situação, a atitude só a destrói ainda mais por dentro.

A postura de Sue Ellen também pode ser lida como uma espécie de resistência. Quando procura prazer em outros lugares, é como se tornasse sujeito da própria história. Sue Ellen se envolve com um garoto com a metade da sua idade, o que foi considerado altamente ousado para a época. Como não consegue/pode sair do casamento, a arma que encontra para sobreviver é a afetividade de terceiros. É uma atitude questionável, uma vez que Dallas resume a personagem a affairs e alcoolismo. Não há interesse em aprofundar seu drama e mostrá-la como uma mulher multifacetada, para além dos interesses amorosos — o que desgastou tanto a personagem.

Capítulo 3: a libertação

Depois de quase 20 anos de relacionamento abusivo, Sue Ellen finalmente separa-se de vez de J. R. Ele já tinham se separado oficialmente antes, mas se casaram novamente na quinta temporada. A libertação definitiva de Sue Ellen coincide com o machismo que a atriz que a interpretava enfrentou nos bastidores. Geralmente, os atores principais de Dallas tinham a oportunidade de dirigir alguns episódios de determinada temporada. Larry Hagman e Patrick Duffy já tinham dirigido, e quando chegou a vez de Linda Gray querer o mesmo, a CBS disse não. Larry Hagman teve de interceder para que Linda conseguisse dirigir um episódio. Ele ameaçou sair da série caso ela não pudesse dirigir, por isso a CBS cedeu e a deixou seguir em frente. Contudo, quando tentou dirigir outros, foi mandada embora.

Se Linda Gray não conseguiu sair da série por cima, não foi o caso de Sue Ellen. A maneira como ela vai se desfazendo (será mesmo?) dos laços invisíveis que a prendem ao marido é fantástica. O momento coincide com a independência financeira, adquirida após abrir uma empresa de audiovisual. Na última cena entre eles, ela o leva para um cinema, para exibir um filme que sua empresa está produzindo: um filme sobre o relacionamento dos dois. A cena na tela do cinema mostra um casal, claramente Sue Ellen e J. R., rompendo sua relação. Depois disso, ela ameaça lançar o filme caso ele não ande na linha. De todos os cliffhangers da série, esse talvez seja o mais sem grande de todos, mas não deixa de ser muito simbólico para a conclusão do relacionamento deles.

No fim das contas, Sue Ellen aprendeu a jogar o jogo do marido, o que talvez tenha sido uma das maiores torturas psicológicas que ela sofreu. Quem pode culpá-la, afinal? Mais do que isso, Sue Ellen desenvolve uma dificuldade muito grande em se relacionar com outras pessoas. Ela não consegue acreditar que um homem pode amá-la plenamente e não tolher suas vontades, diminuir sua inteligência. Isso é evidente pelo fato de largar todos os outros homens com quem se envolveu, porque não conseguia aceitar que podia viver relacionamentos saudáveis. Para ela, um relacionamento precisava envolver agressão verbal e física, joguinhos de poder, porque é o que ela conhece.

A volta em 2013 e as feridas que não saram

Em 2013, para a alegria dos fãs, foi anunciado que Dallas iria voltar. A história continuaria a partir dos dois filmes exibidos para a televisão nos anos 90: Dallas: The War of the Ewings e J.R. Returns. Com a volta da série, a preocupação principal era em relação ao alcoolismo e ao destino de Sue Ellen e J. R. Apesar de a décima primeira temporada ter uma conclusão redonda, com a separação definitiva, tudo podia acontecer. De fato, o fandom ficou estremecido, porque todos queriam que eles ficassem juntos, mesmo sabendo que essa provavelmente não seria a melhor ideia.

Além da série ter sido uma decepção, o que aconteceu foi que as feridas de Sue Ellen ainda não haviam sarado. Ela ensaiou um flerte com o marido na segunda temporada, exibida pela TNT. Eles se encontram, trocam farpas, mas Dallas não foca exatamente neles, mas nos filhos deles. Isso não impede o enredo lindo criado por Cynthia Cidre em que Sue Ellen se candidata ao governo do Texas. Ela não bebia há mais de 20 anos e tudo se encaminhava para uma reconciliação com o ex-marido. No entanto, a morte de Larry Hagman impediu que essa história fosse para a frente. O interessante é que a morte de J. R. provocou um retrocesso tremendo na vida de Sue Ellen: ela volta a beber depois de ter tido a candidatura cassada, papel que lembra muito o que ela tinha na série “antiga”.

O retorno de Dallas demonstrou a força do casal. O público chorou ao saber que não haveria destino que pudesse consertar o que eles viveram. Mas o motivo para abraçar Sue Ellen e J. R. de maneira tão intensa é intrigante. Existem suposições, é claro, e elas estão ligadas à maneira como enxergamos relacionamentos amorosos. Acreditamos na ideia de que amar é sofrer, que há algo de errado em um relacionamento saudável. Pamela e Bobby tinham um relacionamento respeitoso e admirável, mas não tiveram o mesmo sucesso. O público queria discussões e problemas, porque isso é o que é vendido como relacionamento. Quando jovens do fandom de Dallas glorificam o casamento de Sue Ellen e J. R. percebo como falar sobre eles é necessário. Estuprar a mulher que você ama não é demonstrar amor. Relacionamentos complexos não significa abusar psicológica ou fisicamente do parceiro, e essa linha separa duas coisas que não deveria ser tênue. Deveria estar clara. Mas esses exemplos ainda permeia as produções de hoje.

Há um longo caminho a percorrer.

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