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Millie Bobby Brown e a problemática da adultização de meninas

Se você está lendo este texto, não vive embaixo de uma pedra e tem acesso contínuo a internet, acredito que já tenha tido algum contato com uma das maiores e mais bem sucedidas produções originais da Netflix, Stranger Things. Com o lançamento da segunda temporada da série em 2017, um elemento para além do enredo começou a chamar a atenção das pessoas – primeiro nas redes sociais, depois na mídia em geral e em blogs especializados em análise de cultura pop. Apesar da nova série de episódios atender as expectativas e manter o padrão de nostalgia, roteiro bem trabalhado, atuações impecáveis e até superar alguns outros quesitos em relação a temporada de estreia, não foram suas qualidades que ganharam a máxima atenção do público, mas sim o modo como a atriz mirim Millie Bobby Brown, que interpreta Eleven, tem se vestido (ou sido vestida por produções de revistas e marcas de roupas) nos eventos e aparições públicas que frequenta.

Millie tem hoje 14 anos e tinha 12 quando a série estreou, em 2016. Na época, ela e seus colegas de cena, todos na mesma faixa etária, precisaram enfrentar o sucesso da noite para o dia e se acostumar com o fato de que suas vidas se tornaram públicas – e sabemos muito bem o que Hollywood pode fazer com aqueles que decidem entrar em seu mundo, especialmente quando falamos de mulheres. Com a fama vieram as capas de revista, entrevistas, participações em convenções, sessões de foto e, logo nos primeiros meses, com uma avaliação rasa, já era possível perceber que os colegas de trabalho de Millie – Finn Wolfhard, Gaten Matarazzo, Noah Schnapp e Caleb McLaughlin – recebiam um tratamento diferenciado da mídia e agiam de formas a evocar de modo coerente a sua idade e estágio de desenvolvimento, a transição da infância para a pré-adolescência, evidenciando uma das linhas que separa e define cada pessoa em nossa sociedade: ser homem ou ser mulher.

Enquanto os meninos posavam de brincalhões, estavam sempre descontraídos em entrevistas, se vestindo como garotos de 13 anos devem se vestir – além de não serem julgados de forma severa pela mídia e pelos fãs por suas atitudes, fossem elas quais fossem –, Millie sofreu uma transformação com o passar do tempo, percebida principalmente em ensaios fotográficos.

Foto: Christian Coppola para L’Officiel FR

Mesmo que nas entrevistas Millie seja jovial, alegre, e tenha jeito de criança extrovertida, com gestos firmes, mas ainda inseguros diante de tanta atenção, e com uma fala que demonstra a sua idade, as fotos que são liberadas da atriz mostram uma versão diferente; suas poses e vestimentas nos fazem acreditar que a adultização e hiperssexualização da figura feminina bateu à sua porta. Não são raros os ensaios em que ela aparece extremamente maquiada, com roupas que não condizem com sua faixa etária e em poses que remetem a uma mulher sensual (lábios entreabertos, olhos semicerrados, etc).

Que personagens femininas e mulheres, de modo geral, sejam sexualizadas, especialmente quando estão sob os holofotes da mídia, não é novidade para ninguém. Homens, por ocuparem um lugar de privilégio, acabam por escapar desse comportamento tóxico reproduzido em massa pelas mais diversas mídias (se ele não for um homem negro, claro) e adotado por cada indivíduo de forma quase que automática. Por isso, quando se trata de meninos famosos, o efeito de crescer como centro das atenções tem suas consequências minimizadas. Não que elas não existam – isso Finn já descobriu –, mas elas não se comparam à pressão e às exigências feitas às meninas que crescem sob o mesmo olhar de milhões de pessoas.

“Mas não sei por que uma moça de quinze ou dezesseis anos é considerada uma mulher, mas um garoto de quinze ou dezesseis anos é um menino.”

A passagem do livro Vulgo Grace, de Margaret Atwood, lançado em 1996, explica muito bem as relações propagadas pela nossa sociedade e como meninas e meninos são vistos aos olhos das engrenagens que movem cada pensamento e, por que não?, nosso posicionamento enquanto seres sociais condicionados a reproduzir esses padrões. Se sexualizar o gênero feminino já é algo comum em nossa sociedade, adultizar crianças é, cada vez mais, um item que vem junto com o pacote do que meninas precisam enfrentar, sejam elas famosas ou não.

O desejo de aparentar ser mais velha, de usar maquiagem carregada, sapatos de salto, etc, são despertados cada vez mais cedo, isso porque parecer adulto, ou ser nomeada como ícone fashion, são sinônimos de popularidade no universo do entretenimento. Ser considerada sexy é vencer na vida, ter a atenção de toda a escola, todos os garotos mais lindos aos seus pés e ser adorada por estar “dentro das tendências”; que nada mais é do que um padrão, imposto desde tão cedo. São comportamentos moldados e internalizados por anos e mais anos de filmes, séries e outros produtos midiáticos que mostram garotas pré-adolescentes agindo como mulheres e obtendo vantagens, privilégios, atenção e aprovação por estarem virando “mocinhas”, por já serem maduras mesmo com tão pouca idade, e por se comportarem com responsabilidade e postura de alguém que já possui opiniões formadas e vivências suficientes na vida para tomar as rédeas da sua situação. As meninas não podem mais ser meninas.

O atestado de que vivemos em uma cultura que não hesita em ferir as mulheres e não poupa nem as meninas de seu rastro de violência (seja ela de forma física mas, principalmente, simbólica) reside no fato de uma revista não ver problema em eleger uma garota de 13 anos como um dos motivos de “A TV estar mais sexy do que nunca”. O horror vai além quando, ao olhar a capa da publicação, que estampa Charlize Theron, percebemos que não há muitos elementos na foto que a diferem dos ensaios feitos por Millie Bobby Brown, ainda que a diferença de idade entre as duas seja significativa: Theron tem 42 anos, quase três décadas a mais que Millie – o que, no entanto, não impede que as fotos de Booby Brown tentem passar uma mensagem tão sexy quanto a de Charlize em comparação.

A estrela de Stranger Things não é a primeira a enfrentar essa representação tóxica de sua imagem, contudo. Atrizes como Emma Watson e Mara Wilson (um ícone dos anos 90 ao interpretar a personagem título de Matilda e se tornou uma voz ativa de como crescer em Hollywood foi uma das piores coisas que lhe aconteceu) também precisaram enfrentar um crescimento precoce, lidar com comentários invasivos, abusivos e opiniões e julgamentos alheios sobre seus corpos, suas aparências e suas atitudes. Watson, por exemplo, precisou ver um jornal fazer contagem regressiva para seu aniversário de 16 anos, quando poderia ser fotografada de forma sensual – ou mesmo sexual – sem que isso fosse considerado pedofilia, ainda que, de acordo com a lei inglesa, continuasse a ser considerada menor de idade. Mas não é preciso ir muito longe ou cavar tão fundo no baú se tratando da erotização precoce de garotas. O caso da MC Melody foi muito comentado quando a cantora de funk estava no auge, em 2015, quando tinha oito anos, chegando a virar caso de investigação pelo Ministério Público, com justificativa do órgão de “violação ao direito ao respeito e à dignidade de crianças/adolescentes”, motivado pela negligência do pai em relação ao comportamento da filha, que sensualizava nos vídeos clipes e cantava músicas com alto teor sexual apesar da pouca idade.

Mais recentemente, a internet vive a perseguição à atriz Larissa Manoela que, por tentar emular um comportamento adulto, com sensualidade, destacando seu corpo, atributos físicos e cultivando atitudes e falas que remetem a mulheres adultas, se tornou alvo de cyberbullying e chacota generalizada, a exemplo do que Melody sofreu em seus 15 minutos de fama. Nesse caso, diferente da maioria das reações registradas em relação a Millie Bobby Brown, ocorre uma censura velada pelas garotas já estarem agindo como adultas, culpabilizando-as e ridicularizando-as por não agirem de acordo com sua faixa etária.

Foto: Christian Coppola para L’Officiel FR

Quando se trata de Millie, termos como “musa”, “ícone fashion”, “it-girl” e “sexy” são usados a todo tempo, empurrando-a cada vez mais para seu crescimento precoce e reforçando comportamentos que apenas adultas deveriam ter. As consequências disso são muito reais e concretas e ultrapassam a bravata de que é “apenas uma fase” ou que a única prejudicada, no final, será a pessoa adultizada/sexualizada. Somos seres sociais e aprendemos uns com os outros, bem como reproduzimos comportamentos e ideias que estão impregnados a nossa volta. Tratar uma criança como adulto não a leva apenas a acreditar que esse é seu papel, mas também abre espaço para outros, e neste caso me refiro a homens, acreditarem que é assim que garotas devem ser vistas e tratadas.

Uma pesquisa liberada em 2013 pelo site P0rnhub revela que no Brasil o termo mais buscado por internautas que acessam o site é “novinha”. Uma “novinha”, na visão dos homens, é uma garota que já age como mulher, porque se veste como tal e também possui um corpo curvilíneo e em pleno desenvolvimento, o que, claro, lhes dá passe livre para tornar essa figura objeto de seu desejo sexual. Afinal, se todos as estão tratando como adulta, inclusive com perguntas sobre relacionamentos amorosos em uma época tão precoce de sua vida, por que um homem não se sentiria no direito de fazê-lo também? A lei diz o contrário, obviamente. No Brasil, envolvimento amoroso e sexual com crianças menores de 14 anos é considerado estupro de vulnerável, já que há o entendimento que, com essa idade, a pessoa ainda não é capaz de tomar as próprias decisões e compreender por completo as implicações de se envolver com alguém. Nos Estado Unidos, esse limite é elevado, sendo punido por lei aquele que se relacionar e ter qualquer tipo de contato físico com menores de 18 anos.

Mais reflexos do ciclo vicioso que se cria com uma cultura aparentemente inofensiva, amenizada pelo argumento de que “crianças querem mesmos ser/parecer adultos”, são os dados cada vez mais alarmantes de pedofilia registrados nos país. Números colhidos a partir do Disque Denúncia e publicados pela Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos, vinculada ao Ministério da Justiça e Cidadania, mostram que, em 2016, 76.171 meninos e meninas podem ter sofrido algum tipo de violência no Brasil, não apenas sexual. Não estou dizendo que, necessariamente, a adultização e a erotização de crianças leve a pedofilia, mas é preciso entender que ações têm consequências, sendo assim, somos fruto daquilo que consumimos e vivenciamos diariamente, então esperar que tratar crianças como mais do que aquilo que elas são não passará sem efeitos negativos para a sociedade como um todo é ser ingênuo.

O que tiramos de tudo isso é que somos todos parte do problema, querendo ou não, de forma consciente ou inconsciente, e precisamos apoiar nossas crianças, sejam elas famosas ou não, e mostrar por meio de um educação aberta, informativa, baseada no debate que nem sempre o que a mídia nos dita é aquilo que deveríamos estar tomando como a verdade para a nossa vida, deixando, assim, que as crianças sejam aquilo que deveriam unicamente ser: apenas crianças.

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3 comentários

  1. Parabéns pela matéria!
    Concordo em gênero, número e grau.
    O ser humano não pode pular as etapas da sua vida.
    Tudo no seu tempo!

  2. 2019 e eu lendo essa matéria, perfeita por sinal… sou fã da millie e acho que ela tem que abrir os olhos, uma adultilizacao na carreira de uma atriz mirin acaba manchando a reputação dela