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A evolução do femslash: uma história de fanfic e dados

Segundo a Wikipédia, “femslash (também conhecido como ‘f/f slash’, ‘femmeslash’, ‘altfic’ e ‘saffic’) é um subgênero da fanfic slash que se concentra nas relações românticas e/ou sexuais, entre as personagens femininas de ficção”. A história do femslash começa nos anos 70, com o fandom de Star Trek. Entretanto, esse sempre foi um subgênero pouco popular de na maioria dos fandoms. Numa época em que a internet não existia, fãs publicavam suas fanfics em zines — publicações físicas independentes. Nas últimas décadas, a prática se tornou popular na internet, e possui sites e fóruns dedicados à sua prática, sendo o AO3 um dos maiores sites de fanfics atualmente.  A pergunta que queremos responder aqui é: o que os dados de atividade do AO3 têm a dizer sobre o presente, o passado e o futuro das fanfics femslash?

Mas afinal, o que é fanfic?

O termo Fanfic, ou fanfiction, é formado pela junção das palavras fan (fã) e fiction (ficção). No bom português, ficção de fã. Seja de um livro, série, banda ou até de gente famosa, fanfic são histórias criadas por fãs que utilizam universos e personagens que já existem para criarem suas próprias histórias.

A história das fanfics é antiga e extensa. Segundo Shannon Chamberlain, já existem indícios de trabalhos de ficção feito por fãs por volta do século XVIII. A popularização das fanfics na atualidade, porém, veio com a internet. Sites como Fanfiction.Net, Archive of Our Own (AO3), Tumblr e Wattpad estão cheios de histórias dos mais diversos fandoms, em diferentes formas, línguas e estilos.

“Fãs, online ou offline, discutem a caracterização e especulam sobre o que poderia ter acontecido caso alguma parte da história tivesse acontecido de uma maneira diferente… Fãs tentam tapar os buracos deixados pelos escritores e criadores das histórias originais, formando conexões entre os episódios.” (Clerc, 2001, p. 216-17)

Para Richard Berger, autor de Out and About, fanfic é um gênero literário e, como em qualquer gênero, fanfics não são imutáveis ou sistemas estáticos. Ao contrário, estão em permanente desenvolvimento.

Laura Hollis e Carmilla Karnstein, de Carmilla

Por que as pessoas escrevem fanfics?

Em termos gerais, nada se ganha quando você escreve uma fanfic. Esse é um dos grandes pontos polêmicos envolvendo esse tipo de trabalho. Muito já se discutiu sobre a legalidade das fanfics. Será que é certo utilizar e modificar o trabalho de ficção de outras pessoas?

Essa discussão de vez em quando volta a tona, mas podemos considerar que o consenso é que: sim, os fãs têm direito de criar mundos, histórias e arte com o conteúdo já existente, desde que não haja lucro. Mas por que as pessoas se dão ao trabalho de escrever histórias se não vão ganhar nada com isso?

Existem várias respostas para essa pergunta. Gosto de pensar que se alguém se dá ao trabalho de escrever uma história é porque essa pessoa ama o trabalho original no qual ela está se baseando. É também uma forma de expressar seus próprios desejos, explorar alternativas. E é aí que a gente chega no ponto das fanfics slash.

Slash é o termo (um pouco datado, mas a autora aqui também não é tão nova, então vocês me perdoem) para designar que o casal principal da fanfic é um casal gay. Femslash, então, seria a versão feminina: o casal principal da fanfic é um casal lésbico.

De acordo com Richard Berger, a internet no início dos anos 90 moldou o gênero das fanfics como ele é hoje: abriu espaço para que as fanzines e os trabalhos offline se espalhassem e chegassem a mais pessoas, facilitou e sofisticou o anonimato dos autores e permitiu que os escritores de fanfic formassem comunidades online. Escritores de slash (e femslash) podiam ser ainda mais abertos sobre sexualidade nas fanfics, mesmo que (ou talvez justamente porque) no início dos anos 90 e até o começo das anos 2000 as fanfics slash fossem quase sempre tratadas como um gênero “explícito” ou de conteúdo adulto. Tanto que a maioria dos autores de fanfic slash preferiam postar em sites especializados em casais slash e não em sites “gerais”, como o Fanfiction.Net.

Emma Swan e Regina Mills, de Once Upon A Time

As fanfics por si só sempre sofreram algum preconceito por parte da população geral. Escrever e ler podia ser considerado vergonhoso e até mesmo um insulto. Se estamos falando de fanfics com pares slash/femslash, era ainda pior. Muito provavelmente isso tem a ver com quem escreve fanfic. Para muitos estudiosos é certo dizer que, em sua maioria, os escritores de fanfic são mulheres, e trabalhos feitos por mulheres geralmente são alvo fácil para críticas.

“…a maioria dos escritores de fanfic slash são mulheres heterossexuais ou lésbicas/bissexuais que escrevem não para o lucro e sim para seu próprio prazer artístico.” (Katyal, 2006, p. 486).

Podemos dizer que esse preconceito diminuiu um pouco durante os anos, mas ainda é fácil encontrar alguém dizendo que algum texto, série ou filme “parece fanfic” para dizer que aquele trabalho não seja tão bom assim. O tom pejorativo ainda existe. Em minha opinião, quem ainda usa fanfic como insulto não é leitor de fanfic. Quem já leu sabe que é possível encontrar trabalhos maravilhosos dentro desse gênero.

Femslash e AO3

O Archive of Our Own é um site criado em 2008 com objetivo de armazenar fanfics e outros tipos de arte feito por fãs. Conhecido também como AO3, o site não tem fins lucrativos e em 2020 concentrava 7 milhões de fanfics/arte de mais de 40 mil fandoms diferentes.

Se antes as pessoas preferiam usar sites específicos para postar suas fanfics slash, hoje em dia essa não é mais a norma. O AO3 tem sido o site mais procurado nos últimos anos para armazenar e ler fanfics. Isso significa que podemos ter uma visão bem mais ampla do que as pessoas em geral têm escrito e consumido.  Usando as categorias do site, você pode filtrar por aquilo que deseja ler (ou o que não deseja). Com esse montante de trabalhos e com a maneira em que o AO3 categoriza as fanfics, ficou mais fácil de se obter dados sobre os textos postados e, logo, mais fácil de analisá-los.

Para ficar mais fácil, vamos utilizar as abreviações f/f (feminino/feminino), m/m (masculino/masculino) e m/f (masculino/feminino) para falar sobre os casais daqui para frente.

Catra e Adora, de She-Ra and the Princesses of Power

Segundo os dados do AO3 analisados por toastystats, o número de fanfics f/f tem aumentado ano após ano. Em especial nos últimos anos, houve um aumento significativo no número de novas fanfics postadas. 2020 teve 26. 545 fanfics a mais do que em 2019. Comparado com dados de anos anteriores, esse é um aumento significativo. Por exemplo, em 2013 foram postadas 2.818 fanfics a mais do que em 2012.¹

Um dos motivos para esse aumento não tem muito a ver necessariamente com o aumento de escritores e leitores de histórias que envolvem casais f/f. O próprio AO3 se tornou mais popular nos últimos anos e, logo, é de se esperar que o número de fanfics postadas reflita esse crescimento.

Os 5 fandoms com o maior número de fanfics f/f (embora para muitos desses fandoms, f/f não seja a maior categoria) são:

  1. Supergirl (Série)
  2. Universo Marvel (Filmes)
  3. Harry Potter (Livros)
  4. Once Upon A Time (Série)
  5. The 100 (Série)

Os 5 fandoms com o maior número de fanfics f/f e sem outros tipos de casais (ou seja, sem nenhum outro casal m/m e m/f na fanfic) são:

  1. Supergirl (Série)
  2. Once Upon A Time (Série)
  3. The 100 (Série)
  4. She-Ra e as Princesas do Poder (Desenho Animado)
  5. Carmilla (Série de Web)

É a primeira vez que um fandom com maioria de fanfics de casal f/f fica em primeiro lugar na lista. O resto dos fandoms não tem f/f como par principal.

Essa análise, porém, só leva em conta as fanfics femslash. Agora, se compararmos com outras categorias, fanfics femslash ainda são a minoria. Os casais f/f são muito menos populares do que os pares slash e héteros.

Kara Danvers e Lena Luthor, de Supergirl

De acordo com a análise de centreoftheselights, em 2016, no top 100 casais postados no AO3, 62% das fanfics eram de casais m/m, 19% de casais m/f, e 7 % de casais f/f. Em 2021, 61% das fanfics foram de casais m/m, 19% de casais m/f e apenas 3 % de casais f/f. Não houve nenhum tipo de aumento na porcentagem de femslash comparado com as outras categorias em nenhum ano.

Mais de 165.000 fics m/m foram escritas esse ano no top 50 pares. Em comparação, na mesma lista foram escritas 30.500 fanfics femslash.

Se a gente corta ainda mais, podemos ver mais complexidades e dificuldades na representação de casais lésbicos. Analisando raça por exemplo, o top 10 casais femslash postados no AO3 temos 55% de personagens brancas, 15% asiáticas, 10% latinas e 0% de personagens negras (o resto da porcentagem incluí população indígena, não-caracterizada ou personagem não-humano).

Para encontrar uma personagem negra temos que olhar o top 32 casais femslash postados no AO3. E mesmo assim ainda temos apenas 4.7% de personagens negras (incluindo afro-latinas). Em números exatos, isso significa que dentro das 64 pessoas que formam os 32 casais, apenas 3 são negras. Para quem tem curiosidade, são elas Luz de The Owl House (número 15 na lista), Santana Lopes de Glee (número 26 na lista) e Toni Topaz de Riverdale (número 32 na lista).

Luz e Amity, de The Owl House

Desde 2016, um total de 15 casais f/f entraram na lista dos top 100. O máximo em um ano foi em 2017, com 8 casais femslash na lista. O número foi caindo e em 2021 apenas 3 casais femslash entraram no Top 100.

Swan Queen (Emma Swan e Regina Mills de Once Upon A Time) foi o primeiro casal f/f a entrar na lista dos Top 50 (em 2015). Também é o único par que conseguiu ficar entrar os Top 100 em todos os anos desde 2013. Em 2021, Catradora (Catra e Adora de She-Ra e As Princesas do Poder) foi o primeiro novo casal f/f a entrar no Top 100 desde 2017.

Os 8 casais  f/f que entraram na lista dos Top 100 foram:

  1. Quinn Fabray/Rachel Berry (Glee) – 2013
  2. Brittany Pierce/Santana Lopez (Glee) – 2013-2015
  3. Rose Lalonde/Kanaya Maryam (Homestuck) – 2013-2016
  4. Emma Swan/Regina Mills (OUAT) – 2013-2021
  5. Laura Hollis/Carmilla Karnstein (Carmilla) – 2015-2017
  6. Clark Griffin/Lexa (The 100) – 2016-2021
  7. Kara Danvers/Lena Luthor (Supergirl) – 2017-2021
  8. Adora/Catra (SPOP) – 2021

Mas por que tão poucas fanfics femslash?

Muitos já tentaram responder essa pergunta e não acho que exista uma resposta simples para ela. É um conjunto de razões — porém todas elas têm um elemento em comum: mulheres. Ainda estamos caminhando para uma representação mais autêntica de mulheres na mídia (seja ela qual for!). Ainda nos deparamos com personagens femininos incompletos, escadas para o personagem principal masculino. Se falarmos sobre casais lésbicos, essa caminhada ainda está muito no começo. Logo, se as fanfics são baseadas em mídias que consumimos, é de se esperar que histórias sobre mulheres também não sejam as mais numerosas.

Canon é a história e personagens originais. Já fanon é a realidade do fã. Em filmes, séries e livros mais famosos, a vasta maioria das personagens femininas tem romances heterossexuais em suas histórias originais. Nas fanfics, mesmo que exista a liberdade de imaginação, os autores tendem em sua maioria a seguir as histórias e casais originais.

Lexa e Clark, de The 100

Como falamos anteriormente, é seguro dizer que a maior parte de quem escreve fanfics sáficas são as próprias mulheres, mas isso não quer dizer que a categoria está a salvo da misoginia. Muitas vezes, as mulheres nos fandoms julgam personagens femininos de forma muito mais severas, enquanto os personagens masculinos são tratados com muito mais empatia.

Além disso, escrever fanfics sobre personagens femininos força essas autoras a confrontar questões complicadas sobre elas mesmas. Imagem corporal, machismo e sua própria sexualidade podem ser tópicos dolorosos. Às vezes é mais fácil escrever sobre o que não somos. O que podemos concluir com os dados que o AO3 nos proporciona? Femslash ainda é um subgênero pouco explorado e com pouca diversidade. Comparado com outros gêneros, femslash continua em declínio.

Mesmo que não seja a maioria em número, não podemos excluir a importância que esse tipo de literatura. Assim como os diversos tipos de mídia têm, certamente, a passos lentos, incluindo mais personagens, escritoras e diretoras mulheres em suas produção, é possível dizer que as fanfics vão seguir também esse caminho. Pedi para algumas seguidoras do Tumblr me contarem um pouco sobre sua relação com as fanfics femslash e elas foram bondosas demais em me responder com seus depoimentos. Algumas delas preferiram ficar anônimas então usamos codinomes:

Praxidikai: Comecei a ler fanfic femslash aos 13 para 14 anos e foram as fanfics que me fizeram perceber que eu gostava de outras meninas. Eu ainda não sei definir ao certo minha sexualidade. O que eu sei é que eu me apaixono por homens e mulheres. Ler fanfics com par femslash (Misty Day e Cordelia Goode de American Horror Story: Coven) foi fundamental.

Lay: Femslash foi super importante para  mim na adolescência, somado ao contexto geral do Tumblr naquela época. Fez muita diferença para poder processar as coisas meio que passivamente, só lendo e lidando com minhas resistências internas e normalizando as coisas. Um dos pares mais importantes para mim foi Korrasami (Korra e Asami de Avatar: A Lenda de Korra). Li fanfics desse par de 2014, quando tinha 15 anos, até 2016. Hoje em dia continuo lendo femslash (não só de Avatar), mas não com tanta frequencia.

Myh: Eu descobri fanfic aos 15 anos, no fandom de glee lá em 2012. Na época, eu shippava faberry (Quinn Fabray e Rachel Berry) e me achava estranha por shippar as duas, mas depois descobri o fandom no twitter que me introduziu no mundo das fanfics. Pessoalmente, as fanfics foram extremamente importantes, pois eu tava começando a descobrir minha sexualidade, não me entendia bem e nem me aceitava.

Ler histórias sobre casais wlw (women loving women, mulheres amando mulheres) me ajudou muito nesse processo de descoberta e aceitação, mesmo que tenha demorado alguns anos. Fazer parte de um fandom com pessoas que na época estavam passando pelo mesmo que eu e nos conectar através do ship e das fanfics também foi essencial.

Quinn e Rachel, de Glee

Acho importante destacar a importância do femslash. Na época não existia livros com representatividade publicados aqui no Brasil e de fácil acesso como hoje, então as fanfic eram o tipo de leitura mais acessível, principalmente em português, já que a maiorias dos livros era em inglês. Aliás, mesmo tendo mais acesso a livros e mídias com conteúdo wlw, fanfic continua sendo algo que consumo bastante, e aparentemente vou consumir ainda por muito tempo.

Apesar de tudo, fanfics continuam sendo um jeito democrático de se relacionar com seu fandom, de formar comunidades e de ter acesso a leitura. Muitos autores hoje em dia confessam que já escreveram (ou escrevem!) fanfics. É um jeito de aprender e treinar e de certo modo popularizar a literatura. As fanfics também são uma maneira de pensar sobre o indivíduo, de se autoconhecer através de histórias, personagens e através das pessoas que você encontra nessas comunidades.  Nesse mês da visibilidade lésbica a gente quer saber: qual a sua história com fanfic femslah?


¹ Esses dados só incluem fanfics de um capítulo porém os números de fanfics com mais de um capítulo seguem a mesma tendência.

Referências:

It’s complicated: possible reasons for the lack of femslash;
AO3 Ship Stats 2021 por centreoftheselights;
[Fandom Stats] F/F stats (February 2021) por toastystats;
Fan Fiction Was Just as Sexual in the 1700s as It Is Today por Shannon Chamberlain;
Out and About: Slash Fic, Re-imagined Texts and Queer Commentaries por Richard Berger;
Clerc, S., 2001. Estrogen Brigades and ‘Big Tits’ threads: Media Fandom online and off. In: Bell, D & Kennedy, B, eds, The Cybercultures Reader. London: Routledge;
Katyal, S, K., 2006. Performance, Property, and the Slashing of Gender in Fan Fiction. In: The Journal of Gender, Social Policy & The Law. Vol. 14: 3.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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