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Em Ritmo de Fuga e o papel das coadjuvantes femininas

“I rarely meet men in real life as extraordinary as ones on film, and rarely see women on film as extraordinary as ones I know in real life.” (Jen Richards, criadora do Her Story Show)

“Eu raramente conheço homens na vida real tão extraordinários quanto os dos filmes, e raramente vejo mulheres nos filmes tão extraordinárias quanto as que conheço na vida real.”

Em determinada cena de Em Ritmo de Fuga, Debora (Lily James), a garçonete, conversa com o protagonista e seu par romântico, e admite, com tristeza, que não há muitas músicas com seu nome por aí. Ao perguntar a alcunha do personagem interpretado por Ansel Elgort e receber “Baby” como resposta, a garota afirma que os dois poderiam viajar de carro por bastante tempo sem esgotar as muitas canções que existem e citam seu apelido.

Da mesma maneira, em uma frustrante e dolorosa analogia, poderíamos apenas trocar as músicas por filmes e a história continuaria a mesma. Quantos filmes de ação e franquias de sucesso sobre homens em conflito você já assistiu até hoje? E quantos destes preferiram focar nas tímidas garçonetes no fundo da cena?

Basta pensar no cinema como uma ferramenta de linguagem entre o público e seu criador e você esbarrará em diversas pesquisas que demonstram quem lidera essa conversa há décadas e não pretende passar o microfone tão cedo.

“Em um estudo do Polygraph.com, em 2016, pesquisadores analisaram mais de 2 mil roteiros de Hollywood e concluíram que em 1.195 filmes, entre 60% e 90% dos diálogos são pronunciados por homens, contra 116 em que o destaque são as mulheres. Além disso, 70 dos longas observados têm 100% dos diálogos ditos por homens unicamente.” (Fonte: Globo.com)

Para além do emissor, é preciso também analisar a mensagem. Em Baby Driver, nova empreitada de Edgar Wright, acompanhamos o desenrolar da história do protagonista homônimo, um jovem que dirige carros de fuga em alta velocidade para ajudar grupos de bandidos em assaltos mirabolantes.

As pessoas que cercam e impactam a trajetória de Baby diariamente são todas homens. Joe (CJ Jones), sua figura paterna, Doc (Kevin Spacey), seu chefe e algoz com quem também é desenvolvida uma relação paternal, e ocasionais nêmesis como Bats (Jamie Foxx) e Buddy (Jon Hamm). Todas as mulheres, que aparecem em menor número na tela, com poucas falas e nenhum diálogo entre elas, reprovando o filme em qualquer Teste de Bechdel que se preze, alternam entre momentos em que aparecem representando estereótipos de gênero ou em que são tratadas como vítimas das circunstâncias, mostrando-se muito mais como ideias gerais de como se comporta uma mulher segundo um homem do que como pessoas de carne e osso.

As principais personagens femininas, Darling (Eiza González), Debora (Lily James) e a mãe de Baby (Sky Ferreira) compartilham entre si a característica de existirem mais como projeções e figuras idílicas dentro da trama do que como personagens reais com múltiplas camadas, desenvolvimento e aspirações. “A Mulher Sensual”, “A Donzela em Apuros” e a “Mãe que Morreu”, respectivamente, servem ao filme apenas como gatilhos que motivarão a ação do protagonista e dos demais personagens masculinos, inspirando cobiça, vingança, coragem e luto. Após os breves momentos de autonomia, as mulheres aqui, em pleno 2017, rapidamente retornam ao seu posto de troféus e sofredoras esperando seus cavaleiros andantes as salvarem do perigo em seus carros velozes e trilhas sonoras matadoras.

A própria personagem feminina com mais tempo de tela e poucas falas, Debora, é a encarnação do male gaze em roupas de garçonete ou figurinos de época, seguida por uma câmera que passeia por suas pernas sem pressa e retrata suas trocas de roupa com atenção. Desde sua primeira aparição, transformando-se de moça bonita na rua para uma musa que canta músicas com o nome do seu futuro par romântico como que para atrai-lo, fica claro que não nos será fornecido muito material para que nos encantemos por ela. E mesmo não recebendo maiores explicações sobre os motivos que movem seu namorado de caráter duvidoso que conheceu dois minutos atrás, é por ele que Debora largará a vida, o futuro e os sonhos que não conhecemos para acompanhá-lo em uma aventura que poderá matá-la.

A justificativa, além do amor instantâneo explorado em um único encontro, é que a moça gostaria de ir embora da cidade em uma viagem de carro sem rumo, apenas ela, sua música e a estrada. E esta teria sido uma cena bonita, mas é claro que nunca acontecerá, porque Debora não é uma mulher com medos, vontade própria e frustrações. Ela não existe por si só, mas como um detalhe na vida de Baby e, mais para o final do filme, previsivelmente, essa fala será alterada para “mal posso esperar para que sejamos apenas nós, a música a estrada.”

É claro, as cores, o ritmo, a ação em stereo e as referências pop aliadas ao humor certeiro de Edgar Wright estão lá e podem deixar qualquer fã do cineasta muito satisfeito na sala de cinema, principalmente em IMAX, se você puder ignorar a falta abismal de representatividade feminina que o longa apresenta. Mas por que exatamente você deveria?

“O problema está exatamente no tipo de representação que Edgar Wright sempre traz para a tela: o protagonismo masculino e branco. Com exceção de Spaced, série da qual já falei aqui, todos os seus protagonistas são masculinos, todos brancos. E se pararmos para analisar as personagens femininas, mesmo que secundárias, a situação não foge muito do papel de ‘musa-com-algo-a-mais’. 

(…)

Quando discuto nas minhas aulas ou palestras sobre a narrativa única e a importância de contar outras histórias que não a branca e masculina, o que eu procuro incentivar nas pessoas é exatamente querer mais, esperar mais. Como criadora de conteúdo ficcional eu não vou querer me prender a uma fórmula padrão, eu vou querer ir além, porque se nós temos tantas histórias no mundo, tantas pessoas, tanta diversidade, porque limitar a minha caneta àquela que é branca, masculina, heterossexual e cis? Por que me limitar criativamente?” (Rebeca Puig, no Collant).

Enfim, chegamos à última parte da nossa equação: o receptor. O diretor de Spaced e da trilogia do Cornetto é tido por muitos como um gênio do cinema moderno, revolucionário em sua linguagem cinematográfica com estilo próprio e adorado por hordas de fãs. Mas se ele está sempre contando a mesma história, e ela continua fazendo sucesso (95% de aprovação no Rotten Tomatoes), quem tem sido o seu público-alvo, representado na tela grande por Scott Pilgrim, Shaun e Baby? E o que eles pensam sobre Ramona Flowers, Liz, Debora e Darling? E por que isso não tem sido um empecilho no aproveitamento total desses filmes por parte dessa audiência?

Como ocorreu com Fragmentado, existem pessoas comentando sobre o sexismo gritante na obra de Wright, da qual Em Ritmo de Fuga é só mais um fruto que não caiu muito longe da árvore, mas ainda é pouco, ainda mais quando se olha para o atual cenário do cinema mundial, onde as mulheres estão lutando para sobreviver em um meio ainda tão predominantemente machista. Quando aproximamos a lupa da maneira como estamos sendo retratadas, a realidade é ainda mais desanimadora, como na pesquisa realizada pelo Instituto Geena Davis e o Google, onde os dados foram separados por gênero.

“O único [gênero] em que as mulheres aparecem mais do que os homens, com 53%, é o terror, categoria em que personagens femininas costumam ser retratadas como histéricas e desesperadas. O terror é seguido pelo romance e pela comédia, que contam, respectivamente, com 45% e 40% de tempo de tela para as mulheres.” (Fonte: Correio Braziliense)

Com os resultados recentes de empreitadas como Mulher-Maravilha (2017), sabemos que representatividade importa. Histórias importam, sejam elas ficcionais ou não, e por isso precisamos estar atentos a quem está contando, quem está ouvindo e em como estamos sendo retratadas nessas narrativas.

É mesmo uma pena que, junto com seus diálogos rápidos e engraçados ou suas trilhas sonoras arrebatadoras, Em Ritmo de Fuga, assim como os demais filmes do seu diretor, não tenha a devida preocupação em abrir espaço para o protagonismo feminino em sua trama. Talvez, para quem já transformou homens sem poderes especiais em guerreiros de apocalipses zumbis e deixou sem nenhum arranhão motoristas de surreais perseguições de carros, o próximo grande desafio seja apenas descobrir as mulheres extraordinárias que repousam dentro de cada namorada e garçonete escondida no canto da tela.

Em Ritmo de Fuga recebeu 3 indicações ao Oscar, nas categorias de Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição.

 

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2 comentários

  1. Senti um desconforto vendo o filme e cheguei até a rir da representação feminina nele..rir de nervoso. Somos muito mais e precisamos de uma representação melhor. Obrigada pelo seu texto.

  2. Cheguei até aqui pesquisando no google “Baby driver papel feminino”, pois estava me perguntando se alguém tinha feito a mesma crítica que eu após assistir ao filme (literalmente, acabei de ver o filme há 15 minutos). Estou maravilhada com sua inteligência e sensatez, além da forma como você se expressa: coerente, sensata, racional. Que bom que cheguei até aqui! <3