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O futuro de memórias de Claudine Doury

Alojada em toda experiência juvenil parece residir a nostalgia. Pelo tempo que passou e pelo que ainda vai se tornar passado. Seja quando se vive essa idade, seja posteriormente, na vida adulta e velhice. O que torna essa fase tão atraente aos anseios pelo que terminou e, graças ao seu caráter elusivo e romântico, pelo que foi perdido? A poeta Louise Glück tenta identificar uma resposta através de seu poema “Nostos”, no qual os últimos versos capturam a essência desse sentimento e da sua relação com a juventude: We look at the world once, in childhood. The rest is memory [“Olhamos para o mundo uma vez, na infância. O resto é memória”]. Com um igual objeto investigativo, a fotógrafa francesa Claudine Doury consegue, em seu ensaio Artek, representar visualmente a interpretação que Glück formula em sua estrofe, criando uma coleção imagética que retrata uma experiência que se sente de maneira compartilhada, mesmo que vivida a partir de especificidades culturais, políticas e sociais.

Durante 10 anos, entre 1994 e 2003, Doury frequentou o mais famoso acampamento de verão russo erguido no período soviético, Artek. Criado em 1925 na península da Crimeia, esse local de veraneio e recreação, entre muitos outros similares, fez enorme sucesso durante o regime socialista, principalmente nos anos 80. Eles eram peças operacionais importantes do grupo Jovens Pioneiros, organização juvenil soviética voltada para a orientação comunista durante a puberdade. Porém, fora suas funções como instituições ideológicas, os acampamentos eram populares destinos de férias, retendo a devoção do seu público-alvo por seu caráter recreativo e integrativo. A atenção às atividades do camping, algo que cativou Doury de primeira e foi o ponta pé inicial para o trabalho, entretanto, foi substituída quando a artista viu no movimento e na vida interna dos campistas um foco mais magnético. O que fez a rotina e a agenda de lazer se tornarem um reforço secundário para a apreciação em volta das vivências dos residentes. Vivências ricas, uma vez que se conceituam como prática e emocionalmente formativas, qualidade que instiga infinitas oportunidades de exploração, apesar de circular em volta de dúvidas, sentidos e desejos parecidos.

Claudine Doury

Com sutileza e atenção, podemos localizar a relação entre nostalgia e juventude no âmago do trabalho de Claudine Doury. Isso porque, ao observar as dinâmicas que residem no interior da adolescência: seus segredos, sua intimidade, sua força enquanto período de intensas transições, as fotos construídas são percebidas como memórias. Como flashes de momentos de encontro, de solitude, de tédio e de festa. Além disso, mais do que um agente do universo das recordações, a nostalgia, em seu cerne, é instrumentalizada pelos recortes tenros e atrativos dessa lembrança. Ela mora no limbo entre o acontecimento e a maneira como o recordamos, com saudosismo e com vislumbres idealizados, na maioria dos casos. Algo que, inclusive, Svetlana Boym descreve em seu livro, The Future of Nostalgia, e, em muito, conversa com sentimentos que se experimentam na juventude: “Nostalgia is a sentiment of loss and displacement, but it is also a romance with one’s own fantasy” [“Nostalgia é um sentimento de perda e desajuste, mas também se configura como um romance com a própria fantasia do sujeito”].

Partindo desse encontro, sua função, aqui, se encontra duplamente reforçada, já que a fotografia enquanto meio artístico e técnico também funciona sob uma fissura parecida. A objetividade da realidade capturada e a leitura ou o enquadramento que fazemos dela, seja como produtores ou receptores, são duas orientações que se acomodam em volta de uma imagem. Elas se ajustam na construção da mensagem dessa superfície. O trabalho de Doury, assim, situa-se numa legião de forças que estão intrinsecamente ligadas às discussões sobre o domínio da memória: seu tema, sua plataforma expressiva e as implicações conceituais dos dois e entre eles.

Como prova dessa sensação memorialística, as escolhas de exposição são como indícios de uma construção imagética voltada para a percepção de um lugar onírico e distante. Predominantemente primárias, as cores demarcadas nas fotos, em primeiro lugar, são rastros, indicativos que nos apresentam a todos os objetos e figuras a partir de uma premissa também de primariedade: a juventude que está conhecendo o mundo pela primeira vez. O vermelho carimba os sapatos, o batom, a colcha e as toucas de natação; o azul assina a saia, o short e a calça dos uniformes, a blusa dos meninos remadores, o jeans e as paredes; e o amarelo destaca a camisa das meninas se abraçando, a poltrona, a tonalidade do cabelo e da pele ao sol. Esse colorido pontual e marcado é pautado pela elementaridade, diretamente, e pela ingenuidade, alegoricamente, deixando um ar de infância e de fascínio. Percepções e pigmentações que se conectam, também, com a iluminação branca e macia que, em segundo lugar, suaviza os quadros e eleva os retratados a um patamar de encantamento, apesar do contexto cálido e brilhante do verão.

Claudine Doury

Em relação direta e complementar com essas escolhas estéticas, existem as emoções capturadas nos gestos e nos olhares dos personagens. A desconfiança no olhar da garota que, levemente desfocada, sozinha, olha para a câmera enquanto suas colegas ignoram a máquina; a expressão doce do menino envolvido por um céu roxo e amigos entediados; a atenção inexpressiva da menina que direciona seu olhar a seu reflexo iluminado pelo espelho portátil; a melancolia expressa corporalmente pela menina que se encontra sozinha pelos arbustos e árvores. De maneira minuciosa e delicada, Doury as faz ascender mesmo quando aparentemente elas querem se esconder atrás da disciplina e das regras do acampamento. Além disso, como colaboradores criativos, os enquadramentos ajudam na disposição emocional de muitas das fotografias, apresentando um tom jocoso, em instantes, enquanto, em outros, se revela uma natureza taciturna. O flagra do instante em que duas meninas, agitadas e curiosas, olham para os torsos nus de dois meninos funciona como um exemplo desse humor singelo do posicionamento da lente. Já em diferente ocasião, os olhos distantes da menina na qual a câmera rapta a perspectiva durante um abraço mostra a solidão que convive em meio ao contato coletivo e amigo. No interior do ensaio, é palpável essa mistura de intimidades que conversa com a essência ambígua da vivência juvenil.

Claudine Doury consegue mostrar o circuito de fragilidades, preocupações e desejos que enriquecem e movimentam a vida interior desses jovens. Tudo isso desfrutando das virtudes que o ambiente propicia para seu olhar. Isto é, sua configuração isolada e sua importância cultural e formativa faz do acampamento uma espécie de santuário, um local que serve conceitualmente à elaboração imaginativa de uma utopia adolescente. E dessa bolha que Doury ajudou a criar, com suas imagens encantadoras, não queremos fugir, mas rememorar.


Para ver mais: Artek, 2004 – Agence VU’, Claudine Doury, Artek | Landscape Stories, The most controversial pictures of post-Soviet “Artek” – GI (global-insiders.com)

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