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As Filhas do Fogo e a questão da pornografia feminista

A questão da existência ou não de algo que se possa chamar de “pørnografia feminista”,  pergunta que impulsiona e perpassa esse texto, com certeza é o centro de muitos debates no meio feminista. A depender da vertente com a qual se afine, há quem argumente que a pørnografia feita “por e para mulheres” pode ser vista como algo empoderador, que valoriza e reconhece a mulher como sujeito sexual dotado de desejos e autonomia sobre o próprio corpo. Essa concepção liberal não enfrenta o fato de que o machismo é estruturante na nossa sociedade e que aprender a amar as correntes que nos prendem não nos faz mais livres. Mas me adianto, voltemos um pouco.

As Filhas do Fogo, da diretora argentina Albertina Carrí, é um filme difícil de explicar. Em linhas gerais, a obra conta a história de um casal de mulheres que, depois de passarem um mês separadas por uma expedição à Antártida, se reencontram e muita coisa acontece, sem grandes explicações nem muita lógica. As duas têm um objetivo inicial: ir até a casa da mãe de uma delas resgatar o carro que pertenceu ao falecido pai e que agora a mãe planeja vender. Antes de partirem, as duas conhecem uma terceira mulher em um bar, com quem passam a se relacionar romântica e sexualmente. Juntas, as três engatam uma viagem de carro, reunindo aos poucos um grupo de seis mulheres que passam a fazer parte dessa experiência erótica e sensorial. A maior parte do filme é composta por cenas de sexo, nas mais variadas locações, posições e circunstâncias, e as maiores diferenças com as pørnografias de massa que se encontra aos montes na internet talvez seja apenas uma preocupação técnica/estética mais artística e o fato de ter feito sucesso em festivais e circuitos cinematográficos independentes.

Apesar disso, As Filhas do Fogo pode trazer alguns pontos interessantes para discussão, como é a questão da monogamia e sua ligação com o patriarcado. Segundo Simone de Beauvoir, na obra O Segundo Sexo, a monogamia surgiu quando se passou a conhecer a função masculina na reprodução, e tem relação com o capitalismo e a propriedade privada. Ao contrário da mulher, que tem certeza sobre a maternidade dos filhos, os homens não têm essa garantia. É em busca dessa certeza que a monogamia foi instituída: a exclusividade sexual como mecanismo para assegurar que o nome e o patrimônio da família seriam repassados para um herdeiro “real” (leia-se biológico) daquele homem. Por esse e outros motivos a infidelidade masculina sempre foi considerada natural e aceitável, e a infidelidade feminina não. Apesar dos fundamentos eminentemente patriarcais da monogamia, com o passar do tempo esse modelo se consolidou na sociedade como a única forma legítima de se relacionar romanticamente, mascarando mais uma vez de normalidade uma prática patriarcal construída como forma de controlar o corpo e tolher a liberdade da mulher.

O fato de ter sido imposta de forma muito mais firme às mulheres do que aos homens e a insegurança geral que nossa sociedade estimula nas mulheres faz com que até mesmo o discurso supostamente antipatriarcal do amor livre seja usado em nosso detrimento. Na prática, o que vemos são muitos homens que se apresentam como politicamente conscientes e “desconstruídos” impondo esse tipo de relacionamento às parceiras como forma de legitimar sua própria liberdade sexual. Ir contra a cultura monogâmica vigente não é fácil e não pode ser uma imposição. E a forma natural e espontânea com que isso aparece em As Filhas do Fogo rompe com essas expectativas sociais. Na obra, não vemos ciúme em nenhum momento. O que existe é a compreensão de que o amor é maior e mais complexo do que o padrão Hollywood que estamos tão acostumadas a seguir e idealizar. Não é só sexo que aparece no curso da história: é carinho, afeto e cuidado que extrapola os modelos de relacionamento impostos e isso causa desconforto.

Outro ponto é que, apesar de As Filhas do Fogo pecar ao apresentar 50 tons de brancura no elenco, não vemos representados apenas corpos magros e dentro do padrão — muito pelo contrário. Já entre o casal original encontramos um corpo gordo, e não é o único e nem um token na obra — ou seja, um único elemento não-normativo que serve apenas para dar uma verniz de inclusão na obra, sem de fato promovê-la. Apesar de algumas das personagens se aproximarem mais ao padrão estético vigente, nenhuma delas tem exatamente o corpo plástico e artificial idealizado pela cultura e encontrado nos filmes pørnográficos de massa. O interessante nesse quesito é que todas as personagens aparecem perfeitamente à vontade com os próprios corpos e os das demais, completamente confortáveis para usá-los como instrumento de descoberta e exploração sexual independente da forma que ele possua. E, diferente das pørnografias comuns, o que vemos são corpos femininos voltados para o próprio prazer feminino, e não para a satisfação de uma figura masculina, esteja essa figura em cena ou na audiência.

As filhas do fogo

É por essa camada a mais de sentido e subversão que fica difícil declarar terminantemente se As Filhas do Fogo, afinal de contas, é ou não é pørnografia. E esse é um questionamento levantado de forma metalinguística por uma das próprias personagens — especificamente Violeta Valiente, que volta de viagem com a ideia de dirigir um filme pørnô. Continua sendo pørnografia quando os sujeitos retratados são tridimensionais, e não apenas usados como parte da paisagem em busca de satisfazer os impulsos sexuais da audiência? Essa é uma pergunta sem resposta, que explicita toda a dificuldade de categorização que paira sobre o filme. Apesar de a história ser pouquíssimo aprofundada, dá para adivinhar ali pessoas de verdade, com as próprias questões, problemas e desejos. Não são só corpos vazios que transam, apesar de o sexo dominar a maior parte do tempo de tela.

Se a função da arte é incomodar, gerar desconforto e reflexão, só podemos dizer que As Filhas do Fogo atingiu seus objetivos enquanto obra de arte. Mas isso não retira a importância da questão sobre a existência de uma pørnografia feminista politicamente válida. Sabemos que corpos femininos no geral, e corpos negros e gordos principalmente, são objetificados e transformados em instrumentos de satisfação do desejo masculino. Sabemos que o patriarcado conseguiu até mesmo transformar o sexo lésbico — aquele no qual, por princípio, o desejo masculino não tem lugar — em fetiche também para satisfação masculina. É possível pensar em formas de subversão desses pensamentos para trazer a mulher para o centro da cena? Esse é um ponto altamente questionável. Um homem médio que chegue até essa obra em busca de material para satisfação própria provavelmente não vai nem perceber o tom subversivo do filme. Aquelas mulheres tão transgressoras e questionadoras vão continuar sendo apenas pedaços de carne e objetos voltados para a satisfação masculina. Pessoalmente, não considero possível a existência de uma suposta “pørnografia feminista” enquanto o patriarcado estiver de pé.

Apesar disso, As Filhas do Fogo pode ser encarado como um filme que mostra o amor e a parceria entre mulheres de forma mais ampla. No curso de sua viagem, as personagens se reúnem, se reconhecem mutuamente, se ajudam, se entendem e buscam libertar a si mesmas e outras mulheres das amarras do patriarcado. Não deixa de ser uma pequena revolução. Isso se mostra inclusive em um trecho que acaba por parecer despropositado no contexto geral do filme, mas que fornece uma chave muito importante para a compreensão mais geral dos objetivos e do simbolismo da obra. Em determinado momento, o grupo para em uma cidade para ajudar uma amiga de uma delas, que vive um casamento abusivo e violento com um homem. Em vez de resgatarem a mulher e a levarem embora, elas buscam uma forma de neutralizar e afastar o agressor, para que a vítima não precise deixar sua vida para trás para viver em segurança e plenamente. A partir dessa cena, todo o sexo que encontramos no filme pode ser encarado também como uma forma mais profunda e mais inesperada de relacionamento e conexão entre mulheres, fugindo às expectativas e aos moldes da sociedade patriarcal. O que está em cena é mais do que desejo, é conexão e amor em um sentido muito mais amplo do que estamos acostumadas.

Em resumo, é muito difícil falar sobre As Filhas do Fogo de forma lógica e ordenada, porque nenhuma análise ou crítica pontual que fizermos vai ser suficiente para dar conta da obra como um todo. A profundidade dos sentidos vai muito além do que nos damos conta quando assistimos ao filme e isso mostra a habilidade impressionante de Albertina Carrí para construir uma obra muito mais profunda do que ela própria se apresenta em um primeiro momento. Racionalmente falando, As Filhas do Fogo é um filme com muito sexo, pouca história e quase nenhuma lógica. Mas também é muito mais do que isso.

Para continuar a explorar as nuances de As Filhas do Fogo, recomendo essa entrevista com a diretora.


** A imagem em destaque é de autoria do editora Paloma

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