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O humor possível de The Good Place

São muitas as perguntas sobre a morte. Existe vida após a morte? Céu? Inferno? Purgatório? Para onde vão as almas das pessoas boas? Almas existem? Quem é que julga as pessoas? Deus? Você acredita em Deus? Ou será que a gente apenas deixa de existir? Você acredita em reencarnação?

Uma coisa que aprendemos com a vida (e com a morte também) é que o mundo não é tão maniqueísta assim e nem sempre as coisas são pretas ou brancas — na maior parte das vezes, é tudo meio cinza. Pessoas boas erram e pessoas ruins melhoram — ou não. Pessoas nem sempre fazem o que é o certo, nem o que é esperado. Afinal, o que é o certo? Dá para explicar isso melhor? E de preferência de uma maneira fácil de entender? E se existisse uma série sobre isso?

De todas essas perguntas, escolho apenas a última para responder. Sim, ela já existe. A série em questão se chama The Good Place e fala sobre o que acontece com as pessoas depois que elas morrem — e sim, ela é bastante engraçada.

Atenção: este texto contém spoilers!

The Good Place

Questionamentos existencialistas, aulas de ética e filosofia moral não são coisas que vemos muito em séries de comédia. Especialmente quando alguém une tudo isso em um universo em que pessoas são julgadas e separadas entre Boas e Más quando morrem. As boas vão para o Lugar Bom e as ruins, bem, essas vão para o Lugar Ruim. Mas quem as seleciona? O que faz alguém bom ou mau? Em The Good Place, a seleção parece um pouco arbitrária, mas é apenas em primeiro plano, pois a série vai muito além dos estereótipos e aparências quando o assunto é a dicotomia entre bem e mal.

Eleanor Shellstrop (Kristen Bell) não é o melhor modelo a seguir quando se fala em pessoas boas. Mas isso também não quer dizer que Eleanor seja uma má pessoa. Ela vivia em uma sociedade capitalista que privilegiava pessoas oportunidades, que não têm medo de passar por cima de outras para alcançar seus objetos. E Eleanor era boa nisso. Segundo o algoritmo que elege quem vai para o Lugar Bom e o Lugar Ruim, ela provavelmente seria selecionada para o Lugar Ruim, mas, por um erro de cálculos, depois de sua morte, Eleanor acaba indo para o Lugar Bom.

Ao invés de contar a verdade ao Arquiteto do Lugar Bom, Michael (Ted Danson) e seguir o conselho de sua alma-gêmea, Chidi (William Jackson Harper) — é claro que nesse universo almas-gêmeas são reais e todos no Lugar Bom têm a sua —, Eleanor decide merecer o seu lugar no paraíso e aprender com Chidi, que era professor de ética e filosofia moral quando vivo, como ser uma boa pessoa. A partir daí, ela precisa convencer todos a sua volta — e principalmente a si mesma — que pode realmente melhorar, se tornar uma boa pessoa e merecer o seu espaço no Lugar Bom. Mas as coisas não serão tão simples. Para uma série de comédia, The Good Place traz muitos questionamentos profundos sobre a vida e a morte — não porque o humor não suporta temas profundos, mas é difícil vê-lo ser explorado dessa maneira. É surpreendente o quanto é possível fazer e criar e ainda arrancar risadas das pessoas.

The Good Place

Muito já se fala sobre os limites do humor: polêmicas com humoristas e piadas ofensivas, críticas ao “politicamente correto”, acusações de censura, etc. Para todas essas histórias, sempre vale a pena lembrar da máxima: o de uma pessoa acaba quando começa o limite da outra. Se a piada ofende alguém, ela deixa de ser piada. O humor pode ser uma perigosa desculpa para encobrir preconceitos e ódio e, infelizmente, ainda se vê muito disso em produções atuais.

Contudo, esse tipo de humor não é o único possível. Aliás, ouso até dizer que o humor possível seja exatamente o contrário do humor que esconde por trás discursos de ódio e preconceitos. O humor é uma importante arma de resistência. Se bem feito, ele pode — além de conquistar as pessoas por ser fácil de se identificar — criticar e desconstruir paradigmas e colocar em evidência problemas sociais e políticos. Se bem feito, o humor pode mudar as coisas e o rumo da conversa. The Good Place não só muda o rumo da conversa como também acredita em seus personagens. Mesmo no paraíso, ninguém é perfeito, nem mesmo Janet (D’Arcy Carden), uma espécie de computador-robô de forma humana que contém todas as informações sobre tudo e foi designada para ajudar as pessoas na vida após a morte. Em The Good Place, até os robôs têm uma segunda chance.

Além de Eleanor e Chidi, a vizinhança no Lugar Bom também abriga Tahani (Jameela Jamil) e Jianyu (Manny Jacinto). Ela, uma filantropa e modelo inglesa, amiga de todas as celebridades relevantes e divas do pop, e ele, um monge budista que permanece em voto de silêncio mesmo após a morte. Os dois são informados que também são almas-gêmeas e tentam, sem muito sucesso (e conversas, já que Jianyu não fala) se conectar um com o outro. Apesar de estarem no Lugar Bom, o paraíso para aqueles que o merecem, as dificuldades de suas vidas na Terra não deixam de ser problemas para os personagens. Mesmo vivendo numa utopia perfeita, há alguma coisa errada com o Lugar Bom e o segredo de Eleanor pode ter algo a ver com isso.

The Good Place

Ao mesmo tempo que tentam resolver seus problemas e o problema com a vizinhança, os episódios são emoldurados pelas aulas de ética e moral de Chidi. Mesmo assim, a série nunca cai em clichês moralistas. As pessoas ruins não são aquelas que bebem, consomem drogas e traem seus namorados; são aquelas que cometem homicídio ou assédio sexual, pessoas que esquentam peixe no microondas do trabalho, ou aqueles que tiram sapatos e meias em voos comerciais. As personagens também acompanham esse raciocínio: são profundas e engraçadas, sem precisar de clichês e estereótipos. É uma linha delicada, pois muitas vezes são clichês e estereótipos que são usados como piada, mas assim como outras séries do criador Michael Schur, como Parks and Recreation e Brooklyn Nine-Nine, o humor está na construção dos personagens e nas situações em que eles são colocados. Apesar de serem divididos entre Lugar Bom e Lugar Ruim, em The Good Place não há muito espaço para o lugar comum.

Livre da limitação dos estereótipos, a série consegue trazer mais complexidade nas narrativas de seus personagens, principalmente de suas personagens femininas. Eleanor e Tahani podem, a princípio, não se dar muito bem uma com a outra, mas, depois de se conhecerem melhor, elas se tornam as amigas que precisavam. Apesar de parecer sempre perfeita e falar sempre as coisas certas, Tahani, aos poucos, traz à superfície as suas inseguranças e defeitos. Ninguém consegue ser correta e impecável 100% do tempo. E são nesses momentos de vulnerabilidade que Tahani cresce mais. Eleanor, por outro lado, desde o primeiro episódio é o erro, a pessoa que não se encaixa naquele pedaço de paraíso, mas ela, assim como o resto de nós, não precisa ser apenas uma coisa. Eleanor consegue reverter parte de sua fama e melhorar sua reputação. Não é difícil ser generoso com personagens femininas, é só dar espaço para elas serem o que devem ser: humanas.

Não é apenas Eleanor quem precisa melhorar e aprender a ser uma boa pessoa; com o passar do tempo, percebemos que ninguém é perfeito e todos os personagens principais precisam melhorar suas ações e aspectos de suas vidas — e mortes. Uma importante característica do humor, que retoma os princípios da comédia da Grécia Antiga, é que a comédia é o gênero sobre as pessoas piores que nós, caricaturas e sátiras dos homens e mulheres reais. A tragédia, a menina dos olhos de Aristóteles (filósofo grego que na Poética definiu os gêneros literários e se aprofundou na Tragédia), tratava sobre o homem ideal, personagens melhores que nós e mais elevados, o que nós humanos devemos mirar. Curiosamente, em The Good Place, esses conceitos se sobrepõem, graças à contemporaneidade que permite que os gêneros se misturem, possibilitando novas formas de criação.

Eleanor não é o melhor da raça humana, mas também não é o pior. Ela é um retrato da nossa sociedade e, quando posta em contraste com as conquistas e ações das pessoas merecedoras do Lugar Bom, fica claramente para trás. Mas uma questão que os gregos não consideravam e que os personagens contemporâneos são capazes de conseguir é um arco de evolução. Os personagens na Grécia Antiga não eram criados com profundidade psicológica e de caráter como fazemos hoje: eram apenas tipos de comportamentos trazidos à vida. Eleanor, assim como outros personagens da série, são capazes de querer melhorar, aprender e realmente mudar de comportamento. Ainda bem que em 2017 é possível fazer comédia sobre humanos que querem sempre melhorar e ser boas pessoas.

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2 comentários

  1. Essa série é maravilhosa!!! Tenho indicado para todos os conhecidos, até porque em um primeiro momento ela passa despercebida no catálogo.