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O Som do Silêncio: o meio do caminho também é um lugar

Indicado ao Oscar em seis categorias diferentes, O Som do Silêncio (no original Sound of Metal) conta a história de Ruben Stone (Riz Ahmed), baterista da dupla de metal que forma com a namorada Lou (Olivia Cooke), após acordar um belo dia e descobrir que boa parte de sua audição se foi, e que o pouco que sobrou também está em risco. Partindo dessa descoberta, acompanhamos a transição do personagem da rotina nômade que sempre conheceu para uma vida completamente nova e, à primeira vista, estática.

Atenção: este texto contém spoilers

A obra, que marca a estreia de Darius Marder como diretor, é uma experiência audiovisual mais do que um filme nos moldes tradicionais. Não é que a história não seja interessante e não conte com um bom roteiro, mas sim que a forma como foi executado acaba levando a produção como um todo por outros caminhos. Antes mesmo do protagonista começar a perder a audição, o som é o centro do espetáculo. Desde sons rotineiros, como a respiração ou o liquidificador, até sons extremos, dos shows da dupla, em contraste com a súbita ausência de som em que Ruben acorda um belo dia. A ausência absoluta de som não é imediata, primeiro o baterista perde 80% da capacidade auditiva, e recebe do médico a recomendação de evitar sons altos para prevenir a deterioração do que resta da sua audição. Ignorando a recomendação, a surdez total chega em questão de um dia.

Dependente químico em recuperação, a situação drástica e inesperada coloca Ruben à beira do abismo para uma recaída. É para evitar que isso aconteça que Lou entra em contato com o padrinho do namorado e, juntos, descobrem um centro de acolhimento para dependentes químicos em uma comunidade surda, administrado por Joe (Paul Raci). É chegando lá que a experiência de contrastes sonoros se intensifica, contrapondo os sons ambientes e o silêncio dos diálogos. Ruben fica tão perdido quanto a audiência, alienado de conversas que se desenrolam — obviamente — em língua de sinais. É interessante a experiência de presenciar cenas com diálogo, mas sem o som de vozes. O som de risos ocasionais é o mais próximo que chegamos de compreender o que se passa nessas primeiras cenas. Esse elemento é crucial para marcar e transmitir de forma muito concreta a sensação de isolamento que o protagonista sente, não só por sua nova condição de surdez, como por ser jogado só e sem aviso em uma realidade completamente desconhecida.

Não bastasse todas essas situações estressantes, a surdez traz a inevitabilidade de lidar consigo mesmo. Com esse canal de entrada do mundo fechado, fica difícil abafar e ignorar seu mundo interior. Incapaz de se comunicar com as pessoas à sua volta, Ruben ganha um caderno, uma sala, e as instruções para extravasar naquelas páginas tudo o que lhe vier à mente. É a análise que está disponível, a forma de dar vazão ao fluxo sufocante de pensamentos e sentimentos até que ele seja capaz de simplesmente sentar parado e esvaziar a mente. Não é imediatamente que esse “tratamento” mostra seus efeitos, mas o desfecho de O Som do Silêncio é muito claramente uma consequência direta desse processo de mergulhar em si mesmo.

Ruben e Joe

Aos poucos, Ruben parece ir se integrando à nova comunidade, aprendendo a se comunicar e participando de oficinas musicais com crianças e jovens surdos na escola. Cada vez mais, ele vai aprendendo a navegar aquele novo mundo e novas possibilidades de vida, completamente diferentes do que ele conhecia, se mostram. Ainda assim, parte do personagem não consegue se desvencilhar de sua antiga vida, de Lou e dos sonhos e planos que eles tinham juntos.

Ainda que apareça apenas no começo e no final do filme, é possível tirar algumas conclusões sobre o relacionamento entre Ruben e Lou. A princípio, os dois parecem dois jovens desgarrados e libertários, sem nenhuma amarra e vivendo sua própria verdade no ônibus que lhes serve de casa enquanto viajam de um lado para o outro fazendo shows e vendendo seus produtos. É só na parte final de O Som do Silêncio que descobrimos que os dois não são tão parecidos assim. Enquanto Ruben viveu de forma nômade a vida inteira, acompanhando a mãe, enfermeira militar, Lou é filha da classe média alta, traumatizada pelo abandono paterno e pelo suicídio da mãe, mas contando com a certeza de uma rede de segurança à disposição no momento em que se cansar da vida de aventura. Conhecendo esse pano de fundo, a interpretação dos personagens muda completamente. Enquanto Lou escolhe essa vida como uma forma de rebeldia, para Ruben aquela é apenas a vida que ele conhece. Essa normalidade se mostra em alguns aspectos simples, como o hábito de acordar cedo, os exercícios matinais e o café da manhã saudável que ele prepara enquanto o casal ainda vive junto no ônibus. É a perda desses pequenos pontos de consistência, mais do que da aparente instabilidade de sua vida, que realmente marcam a ruptura que o protagonista sofre.

É a essa vida mais consistente do que inconstante que ele sonha voltar enquanto faz o possível e o impossível para conseguir dinheiro para a cirurgia para a colocação de implante coclear que promete devolver sua audição. A parte técnica relacionada à cirurgia, ao que parece, é a parte do filme que mais deixa a desejar, com alguns aspectos fantasiosos e ultrapassados. A cirurgia em si é polêmica dentro da comunidade surda, que possui uma cultura e valores próprios, e tem a surdez como uma parte da sua identidade e não como qualquer tipo de deficiência. É isso que explica a mágoa e a reação de Joe, que se sente traído quando Ruben volta para casa um dia com as marcas da cirurgia na cabeça.

Apesar de chegar ao extremo de vender tudo o que possui, gastar todo o seu dinheiro na cirurgia e pôr a perder todo o apoio e acolhimento que teve na comunidade, o que o final de O Som do Silêncio mostra muito claramente é que não é possível voltar atrás. A vida corre sempre no mesmo sentido. A audição que resulta da cirurgia não é a mesma da qual ele se lembra, Lou viveu novas experiências e se reconciliou com o pai enquanto os dois estavam separados, o mundo parece barulhento demais para quem se acostumou a duras penas com o silêncio. A vida para a qual ele sonhava voltar é só uma lembrança, não existe mais. Alguns resumos dão a entender que a escolha de Ruben é entre a vida nova que encontrou na comunidade surda e voltar a sua vida anterior, mas isso não é verdade.

Ruben e Lou

A dicotomia que perpassa o filme como um todo não é entre duas possibilidades de vida, mas entre movimento e imobilidade, que se desdobra em som e silêncio. Ruben sempre viveu uma vida de movimento, uma vida dinâmica, e de uma hora para outra se viu obrigado a uma vida de imobilidade. Ele demora a se acostumar, mas acaba se acostumando. Até que a nostalgia e a idealização daquilo que foi se tornam mais fortes e ele sai em busca do que é confortável para ele.

Passando a outros tópicos, também merece destaque o fato de grande parte do elenco do filme de fato ser composto por pessoas surdas, além da diversidade étnico-racial. Ainda assim, no geral, é um filme muito “masculino”. Por ser extremamente intimista, o único personagem completamente desenvolvido é o próprio Ruben, seguido bem de longe por Joe e, mais atrás ainda, Lou, que só aparece mesmo no começo e no final. Entre os personagens secundários de O Som do Silêncio que recebem uma parcela mínima de atenção, encontramos Jenn (Chelsea Lee). Jenn, ao que parece, é uma das duas únicas mulheres residentes na casa de Joe. Lésbica e longe de performar qualquer tipo de feminilidade, podia ser um ponto muito positivo, mas acabou recaindo em uma representação extremamente estereotipada e heteronormativa da lesbianidade.

Como destacado em 20 entre 10 críticas, o elemento que merece maior destaque na obra é a mixagem de som, que realmente impressiona ao combinar e confrontar os sons e os silêncios no nível exato para criar a experiência imersiva de O Som do Silêncio. Os sons da vida cotidiana, os silêncios da comunicação de sinais, o barulho distorcido do implante recém ativado, a paz do silêncio quando Ruben tira o aparelho e observa as crianças brincando na rua. O final é aberto, mas não é. Durante todo o filme, o protagonista se vê dividido entre o mundo ao qual agora pertencia e aquele para o qual queria voltar, sem caber completamente em nenhum dos dois. É ali, na cena final, que ele parece finalmente fazer as pazes com o fato de que o meio do caminho também é um lugar.

Sound of Metal - EUA - 2019 - Darius Marder

O Som do Silêncio recebeu 6 indicações ao Oscar, nas categorias de: Melhor Filme, Melhor Ator (Riz Ahmed), Melhor Ator Coadjuvante (Paul Raci), Melhor Roteiro Original, Melhor Montagem, Melhor Som.

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