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She-Ra e As Princesas do Poder: para onde aponta o futuro de Etéria?

Poucos meses após o desfecho de sua primeira temporada, She-Ra e As Princesas do Poder retorna a Lua Clara em sequência imediata aos eventos de “The Battle of Bright Moon”, quando Adora (Aimee Carrero), Cintilante (Karen Fukuhara) e Arqueiro (Marcus Scribner) precisam lidar com os estragos causados pelo confronto com a Horda. Lançadas, respectivamente, em abril e agosto deste ano, a segunda e a terceira temporadas da animação mantêm as muitas qualidades apresentadas em seu lançamento; qualidades estas que, a despeito do ódio recebido à época de sua estreia, não apenas comprovam o talento de Noelle Stevenson e seu time de roteiristas, como também reforçam o sucesso alcançado anteriormente pela animação.

Juntas, as duas temporadas somam treze episódios (ao contrário da primeira, que conta com o mesmo número sozinha), mas são episódios muito mais focados na vida interior de seus personagens e propositalmente mais densos, embora a ação também esteja presente. Se o primeiro ano da série deu a Adora e seus amigos uma profundidade emocional inédita, revelando com cuidado e sensibilidade traumas, desejos e inseguranças, ao mesmo tempo em que se mantinha fiel à história de origem da protagonista, os novos episódios permitem um mergulho ainda mais profundo em sua trajetória, tanto quanto na de seus amigos e antagonistas, que recebem mais espaço para explorar as próprias angústias e sentimentos conflitantes. As experiências de Adora continuam a nortear a narrativa — implicações de ser uma heroína, de não conhecer o próprio passado, de estar em constante transformação e descobrindo a si mesma e ao mundo que a cerca —, mas a série busca construir uma história mais ampla, dedicando mais tempo também às narrativas pessoais de Cintilante, Arqueiro, Felina (AJ Michalka), Sombria (Lorraine Toussaint) e Hordak (Keston John).

Atenção: este texto contém spoilers!

Muito disso ocorre a partir dos relacionamentos que estabelecem entre si e como essas relações são desenvolvidas pelo roteiro. A série permanece reforçando o discurso de que amizade e união são tão importantes quanto habilidades físicas e o uso da tecnologia no combate à Horda, uma noção que escapa aos inimigos. Mas enquanto a amizade entre o trio principal parece cada vez mais sólida, a adição de personagens ao contexto da Rebelião e a necessidade de que o trabalho, outrora realizado por Adora, Arqueiro e Cintilante, passasse a ser dividido, contribui para o surgimento de novas dinâmicas que nem sempre se desenvolvem com facilidade. Adora e Arqueiro conseguem lidar melhor com a situação (embora, naturalmente, existam exceções), mas para Cintilante, muito provavelmente aquela com maiores dificuldades em estabelecer laços e criar conexões, estar cercada por pessoas que não seus melhores amigos é um incômodo tão evidente quanto aquele causado por ter de dividi-los (e, em consequência, também sua atenção) com outras pessoas — característica já apresentada na primeira temporada e que ganha mais nuances nos novos episódios. São essas nuances que, por fim, permitem enxergar um lado até então desconhecido da personagem: questões como o receio de mostrar-se vulnerável, o excessivo zelo com aqueles que a cercam, a complexidade de seu relacionamento com a mãe, a falta que sente do pai e o medo de perder alguém durante uma missão são exploradas em diferentes momentos pela animação e criam um retrato bastante complexo da princesa para além do seu desejo de servir à Rebelião. É também nesse momento que ela pode ter um contato mais próximo com Felina sem a mediação de Adora, o que a leva a perceber que não está disposta a qualquer coisa para vencer seus inimigos.

She-Ra e As Princesas do Poder

A descoberta de que Entrapta (Christine Woods) está viva, e, mais do que isso, permanece na Zona do Medo por vontade própria, auxiliando a Horda no desenvolvimento de novas tecnologias e na criação de um portal, também é um golpe particularmente doloroso para Cintilante, que continua a se culpar por tê-la deixado para trás. Enquanto isso, Entrapta parece lidar muito melhor com o caso, desenvolvendo relacionamentos um tanto quanto inesperados (como a amizade com Hordak, com quem divide alguns dos momentos mais sensíveis de ambas as temporadas) e encontrando um espaço para chamar de seu. Se a Zona do Medo é um lugar de horrores, para os integrantes da Horda ele é, antes, um ambiente em que podem sentir-se verdadeiramente pertencentes, e esse é um dos grandes motivos que levam parte de seus membros até lá em primeiro lugar. Quando Scorpia (Lauren Ash) revela, ainda na primeira temporada, que, apesar de ser uma princesa, nunca se sentira de fato uma parte daquele mundo porque sempre fora tão diferente, ela não exatamente justifica as ações da Horda, mas mostra que entre seus membros e a Rebelião existem questões mais complexas do que uma dicotômica disputa entre bem e mal. O mesmo pode ser observado nas narrativas pessoais de Sombria, Felina e até mesmo de Hordak, que prova-se mais falho e vulnerável do que seria possível supor. Entrapta segue por um caminho semelhante: depois de sentir-se deslocada em seu universo de origem, é com a Horda que ela encontra conforto e aceitação, um lugar onde aquilo que a tornara peculiar deixa de torná-la uma estranha para ser verdadeiramente valorizado.

Naturalmente, o desejo por pertencimento e aceitação não está restrito aos moradores da Zona do Medo. Cintilante, sobretudo, manifesta esse desejo de maneira bastante clara e alguns de seus relacionamentos estão diretamente conectados a eles, como é o caso da dinâmica com a mãe, a quem parece decepcionar com frequência. O mesmo é percebido em personagens como Frosta (Merit Leighton), Arqueiro e até mesmo o Gavião do Mar (Jordan Fisher) — que volta a dar as caras de tempos em tempos —, embora sejam personagens com menos espaço para explorar as próprias angústias — exceto por Arqueiro, que ganha ao menos um episódio focado exclusivamente em sua narrativa pessoal. Nada disso muda a decisão de Entrapta, no entanto, que permanece do lado inimigo mesmo após a descoberta de que, até aquele momento, todos em Lua Clara acreditavam que ela estava morta.

Não é possível, todavia, desconsiderar que as ações da Horda são essencialmente más e que os laços que os unem são também bastante frágeis. Sombria descobre que é não apenas substituível, mas inteiramente descartável, a partir do momento em que suas ações deixam de corresponder aos desejos de Hordak. Felina, embora tente fingir o contrário, obedece às mesmas regras, sendo mantida em constante estado de ansiedade graças a necessidade de provar-se sempre melhor, sempre útil aos planos do líder. Scorpia é uma mulher sensível e uma amiga fiel, mas permanece cumprindo as ordens de Hordak e Felina, embora vez ou outra venha a se questionar sobre a real necessidade de determinadas ações. Em todos os casos, a aceitação que encontram é, de certa forma, condicionada à utilidade que têm para o grupo e não ao fato de serem aceitas como verdadeiramente são. Entrapta ainda ocupa um lugar diferenciado — em partes, porque é a única a quebrar as barreiras que impedem Hordak de se mostrar um líder vulnerável e a única a enfrentá-lo mesmo em seus acessos de raiva —, mas é impossível não se questionar se ela de fato entende as implicações de seus experimentos (e, em tempo, de seu sucesso) para o futuro de Etéria. Como na vida real, a ciência em She-Ra e As Princesas do Poder pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal.

Interromper o avanço de Hordak — e, consequentemente, da própria Entrapta — torna-se, então, o maior objetivo da Rebelião. Mas esse é um caminho mais complexo do que parece, especialmente porque agir de maneira planejada é uma dificuldade para todo o grupo, que funciona muito melhor na base do improviso. É o que explicita o ótimo “Roll With It”, de longe um dos melhores episódios da segunda temporada, quando, na tentativa de traçar um plano para desmontar a ocupação inimiga, os personagens começam, quase sem perceber, um jogo de RPG. Durante o episódio, cada um tem a oportunidade de imaginar cenários, figurinos e habilidades para todos, no que Noelle Stevenson transforma em um excelente espaço para delinear diferentes perfis para os mesmos personagens. Cabe até mesmo uma referência ao original da década de 1980, por sua vez imaginado por Arqueiro, não surpreendentemente o único homem do grupo.

She-Ra e As Princesas do Poder

Mas em She-Ra e As Princesas do Poder o passado retorna de muitas maneiras e não apenas na forma de referências ao material de origem. Mais adiante, em “Light Spinner”, a série faz um mergulho no passado de Sombria que, antes de se refugiar na Zona do Medo e tornar-se aliada de Hordak, desempenhara um importante papel como feiticeira na formação dos jovens de Lua Clara, incluindo o pequeno Micah (Taylor Gray), pai de Cintilante e um de seus pupilos favoritos. Assim como Adora depois dele, Micah fora pessoalmente treinado por Sombria, a quem dedicava-se com muito afinco, auxiliando-o a desenvolver habilidades mágicas bastante avançadas, sobretudo para alguém com tão pouca idade. À medida que a ameaça de Hordak torna-se mais séria, no entanto, suas opiniões deixam de estar em acordo com a dos líderes de Etéria, que se recusam a responder as investidas do vilão de maneira mais agressiva. A frustração, tanto quanto as limitações impostas por seus superiores, a levam a desobedecê-los, realizando um feitiço proibido com a ajuda de Micah, que resulta tanto na deformação de sua face quanto em sua expulsão de Lua Clara, impulsionando-a na direção do inimigo, em direção a Hordak. Suas ações, contudo, não afirmam necessariamente que ela era uma pessoa má; Sombria toma uma decisão ruim em vista de uma boa causa (e o inferno, afinal, está cheio de boas intenções), mas no fim é o afeto que a torna uma personagem tão complexa, capaz de nutrir rancor tanto quanto de oferecer cuidado e amor.

Quando, ao final da segunda temporada, Sombria foge da Zona do Medo rumo a Lua Clara para encontrar Adora, ela não pensa tanto nos riscos que corre quanto pensa em encontrar a menina e poder conversar com ela mesmo que uma última vez — e o roteiro, mais uma vez, reforça o quanto ela é, antes de tudo, uma personagem tão cheia de nuances. Nada disso significa que sua trajetória seja, necessariamente, uma história de redenção (a bem da verdade, ela nunca parece se arrepender de suas ações e jamais pede desculpas por elas), mas ainda é uma história interessante, que torna questionável cada um de seus passos, e sua presença, cada vez mais ambígua.

Para Adora, a presença de Sombria em Lua Clara é também de imensa ambiguidade. Até então, seu passado na Zona do Medo fora mantido em separado de sua vida em Lua Clara, exceto pelos eventuais encontros com Felina, sua antiga melhor amiga e de quem mais sentia falta em sua nova realidade. A presença de Sombria, entretanto, traz a tona dezesseis anos de história deixados deliberadamente para trás por Adora. O tempo de convivência com a feiticeira a leva a acreditar que ela não lhe causaria qualquer mal, mas é com alguma desconfiança que ela olha para a outra e é difícil precisar quanta confiança ela pode, de fato, depositar nela, ainda que Sombria continue a ser o mais próximo de uma referência materna — e, por isso, a única capaz de lhe fornecer respostas sobre suas origens. Assim, quando Sombria se recusa a falar com qualquer pessoa que não Adora, na tentativa de fazê-la ir ao seu encontro, ela não sabe que, para Adora, o encontro aconteceria de qualquer forma. Nem mesmo a reticência de Ângela (Reshma Shetty) a impede de se aproximar, e é dessa maneira que obtém novas informações que lhe serão úteis num futuro próximo.

Enquanto a segunda temporada centraliza principalmente os laços que unem os personagens, a terceira prioriza a ação, ganhando mais agilidade em relação à predecessora — estrutura que permanece em acordo com os treze episódios iniciais. A busca de Adora por Mara (Zehra Fazal) e de Felina pela tecnologia dos Primeiros tornam possível um novo encontro entre as partes, mas mais do que isso, são um lembrete de como esses encontros guardam significados, principalmente no que diz respeito à dinâmica entre Adora e Felina. O fato de seguirem caminhos diferentes não as tornam necessariamente mais distantes uma da outra — ao menos, não em um sentido emocional — e é durante seus confrontos que a série constrói as muitas camadas que compõe essa relação. A essa altura, é evidente que o sentimento que nutrem uma pela outra não é exclusivamente o de amizade, mas como jovens em idade de formação, compreender o que de fato sentem nem sempre é a tarefa mais simples. O roteiro de Noelle Stevenson é sensível o suficiente para entender isso, delineando ambas as personagens com tanto cuidado quanto gentileza, de modo que mesmo suas péssimas ações não são tidas como definições absolutas de caráter.

Porque permanece ao lado da Horda mesmo quando é desprezada pelo seu líder, é mais complicado entender o que realmente motiva Felina. Mas talvez seja justamente por ser tão complexa, e por vezes tão pouco compreensível, que ela seja uma das personagens mais interessantes da série. “Once Upon a Time in the Waste”, terceiro episódio da terceira temporada, é bastante significativo nesse aspecto: após conquistar espaço na Terra Vermelha e, na sequência, também a nave que outrora pertencera a Mara, She-Ra e As Princesas do Poder concede espaço a uma Felina consideravelmente diferente, mais divertida e confiante. É uma mudança tão evidente que até mesmo leva Scorpia a sugerir que elas não voltem, que permaneçam na Zona Vermelha e sejam… felizes. Felina não parece considerar realmente a proposta, embora não pareça desconsiderá-la de todo também, e é somente quando Adora revela que Sombria havia lhe procurado, que desde sua fuga a feiticeira permanecia em Lua Clara, que Felina retorna ao seu antigo modus operandi, agindo de acordo com as instruções de Hordak mesmo que seu plano implique na possibilidade de sua própria destruição.

De fato, é sua decisão de retornar à Zona do Medo que permite que o portal seja aberto, apesar das tentativas de Cintilante, Arqueiro e Sombria, bem como de Serena (Vella Lovell), Frosta e Perfuma (Genesis Rodriguez), de impedir uma catástrofe. Mas há, em sua narrativa, uma evidente necessidade de provar-se correta ou, ao contrário, provar que Adora está errada em suas suposições. “Adora sempre consegue tudo o que quer”, ela brada antes de atingir Entrapta, pouco antes desta afirmar que o experimento teria implicações fatais para todos. O mesmo traço se apresenta quando pergunta a Hordak quem ele acredita ter deixado as princesas entrarem na Zona do Medo, pondo em xeque a relação construída entre o vilão e Entrapta; ou quando aciona o portal entre os pedidos desesperados de Adora para que não o faça — o que torna o desfecho de “Moment of Truth” particularmente desesperador.

“Remember” e “The Portal”, os dois episódios subsequentes, desenvolvem as consequências da abertura do portal ao mesmo tempo em que fornecem o vislumbre de uma realidade alternativa em que Adora teria permanecido na Zona do Medo. Mas, como sugere “Remember”, as lembranças são o que a levam a perceber que algo está errado, que existe algo mais entre aquilo que vê e a realidade propriamente dita. Não é uma surpresa que seja Scorpia a primeira pessoa a admitir que as coisas estão realmente erradas e manter-se aliada à protagonista apesar de suas ressalvas. Enquanto isso, a memória de outros personagens é mantida em suspenso, parcialmente perdidas, perceptivelmente instáveis. A série emula alguns momentos chave da narrativa, como a fuga de Adora e Felina para a Floresta dos Sussurros, que agora acontece de maneira muito diferente, ou o encontro da protagonista com Madame Rizzo (Grey Griffin), a única a compreender o que realmente está acontecendo e dar algum senso de direção a Adora — o que, pelo contrário, não torna a missão mais fácil para a heroína. Eventualmente, torna-se claro que, para salvar Etéria, é necessário não apenas o sacrifício de um passado que teria sido mais confortável para muitos, incluindo a própria Cintilante e sua mãe, Ângela, mas o sacrifício de alguém — algo que Mara já havia tido de enfrentar. Em uma disruptura com o passado, no entanto, a série não faz com que Adora siga os passos de sua antecessora, traçando um caminho, em muitos aspectos, diferente desta.

No desfecho da terceira temporada, She-Ra e As Princesas do Poder opta por uma direção de fato surpreendente — o que também torna mais difícil precisar o que reserva o futuro de Etéria. Se sempre parecera óbvio que She-Ra, Cintilante e Arqueiro salvariam o dia, seu final agridoce aponta para um lugar em que a falha é tão possível quanto o sucesso para ambos os lados e as apostas, à medida que a história avança, também tornam-se exponencialmente mais altas. Às vésperas da estreia de sua quarta temporada, algumas questões permanecem em suspenso (para onde foram Hordak e Felina, como Lua Clara resistirá sob o comando de Cintilante, como a nova rainha lidará com o poder e a perda, e quais serão os resultados da cena final são algumas delas) e podem funcionar como um possível norte para os novos episódios. Resta, no entanto, uma única certeza, a mesma que, por bem ou por mal, com frequência aprendemos enquanto amadurecemos: a de que as coisas que conhecemos nunca permanecem as mesmas para sempre.

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