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Ready or Not: privilégio, gore e a subversão do tropo final girl

2019 foi um bom ano para o gênero eat the rich [coma os ricos, em tradução literal] no cinema. O maior exemplo desse fato é, claro, o desempenho de Parasita em literalmente todas as competições que participou. Da Palma de Ouro em Cannes até o Oscar, o longa de Bong Joon-Ho tentou explorar um aspecto específico da cultura sul-coreana e acabou falando com o resto do mundo. Como o cineasta mesmo apontou, todos vivemos debaixo de um mesmo guarda-chuva, chamado capitalismo; no mesmo ano, o cinema também ofereceu Entre Facas e Segredos, de Rian Johnson, que tem um texto atual e importante, abordando uma família rica e seus privilégios na era Donald Trump — sem deixar o humor e o mistério de lado; o incrível Satanic Panic, que apresenta uma trabalhadora que acaba envolvida em um ritual satânico de gente rica, tendo que lutar pela sua sobrevivência; e por fim, Ready or Not, um terror absolutamente divertido, dinâmico, com uma mensagem sobre classes nada tímida e pertinente. O filme, no entanto, ainda não chegou no Brasil — e nenhuma distribuidora tem planos para trazê-lo (assim como ocorreu com The Nightingale, de Jennifer Kent).

O longa, que é uma das maiores surpresas do cinema em 2019, é um terror bem conduzido sobre sobrevivência, com uma crítica nada sutil ou tímida dentro do contexto aplicado. E em um ano como esse, onde a realidade bateu na nossa porta e a sociedade se encontra cada vez mais polarizada e problemática, essa com certeza é a escolha certa. Todas as situações apresentadas ali podem parecer absurdas ou exageradas, mas elas acontecem dentro de uma situação específica, onde o principal ponto é a jornada da protagonista e como ela chega em uma catarse libertadora após passar grande parte da sua vida ansiando por encontrar um lugar onde crie uma família e consiga pertencer. Ora comédia, ora terror, Ready or Not é uma viagem, cujo o investimento vale 100%.

Atenção: este texto contém spoilers! 

A história começa quando Grace (vivida por Samara Weaving, que parece ter nascido para fazer filmes desse cunho) se casa com Alex (Mark O’Brien), o caçula da milionária família Le Domas, que construiu um legado gigantesco na indústria de jogos de tabuleiro. Tudo na dinâmica entre os parentes parece ser esquisito. Não só o jeito como eles se comunicam é extremamente frio e distante, como também eles moram em uma mansão digna do jogo Detetive, com um arquitetura clássica e imponente. Ao contrário do seu recém-marido, Grace é uma mulher pobre, que cresceu pulando de casa em casa, sem encontrar um lar fixo para viver ou sequer entender muito bem o conceito de família. Como Alex e os Le Domas parecem carregar a tradição de ser uma família perfeita, a protagonista fica ansiosa para se casar e finalmente ter um lugar para pertencer.

Mas a tradição da família perfeita não é a única que eles têm. Gerações atrás, um dos seus ancestrais criou um jogo que era para ser aplicado em qualquer pessoa que ousasse tentar entrar na família. Se eles jogassem a regra da figura que eles descrevem como o “demônio”, eles iam continuar prosperando financeiramente. Para finalmente conquistar seu lugar entre os Le Domas, dessa vez a atração principal é Grace, que tem que escolher uma carta em vários baralhos — que contêm jogos simples e famosos. Se ela tirar hide and seek (o famoso esconde-esconde no Brasil), no entanto, as coisas se complicam e eles têm até o amanhecer para conseguir matá-la. Caso contrário, todos eles vão sofrer graves consequências (que não exatamente ficam claras no começo do longa).

Sem saber exatamente no que está entrando, ela acaba tirando justamente a carta coringa, sendo que no momento em que começa a se esconder, a família pega as mais variadas armas para correr atrás de Grace, transformando a madrugada em uma montanha-russa de sentimentos e usando o melhor do gênero gore, com muito sangue e violência.

Como apontado antes pelo texto, a mensagem aqui não é nada tímida. Ao colocar uma família rica que literalmente faz um pacto com um demônio para conseguir prosperar e nunca perder seu dinheiro, a trama fala diretamente sobre os maiores problemas de classe que a sociedade enfrenta hoje. Quem é rico, fica cada vez mais rico. Quem é pobre, fica cada vez mais pobre. Não existe meio termo. Ao tentar entrar na dinâmica de uma família rica, Grace passa por uma trajetória violenta que enfrenta completamente sozinha. Ninguém na rua para para socorrê-la, e até mesmo a tecnologia parece não querer ajudar. Em um momento, por exemplo, ela consegue entrar em um carro para fugir, mas com todos os dispositivos feitos de segurança, o sistema começa a falhar e sem reconhecer sua voz acaba desligando, obrigando-a a fugir a pé outra vez.

Uma coisa fica clara: o sistema, a tecnologia e tudo o que foi construído está contra Grace. Assim como na vida as pessoas pobres estão sempre em desvantagem imediata. É importante mencionar que apesar de todos os problemas que a protagonista enfrenta com os Le Domas, ela ainda é uma mulher branca. Inclusive, Ready or Not exclui completamente a possibilidade de explorar uma questão mais profunda de desigualdade de raças — que está diretamente ligada aos problemas de classe. Os únicos personagens não-brancos morrem em questões de segundos. Talvez a escolha de não colocar pessoas de outras raças tenha sido deliberada pela parte dos diretores Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, mas ainda parece estranho ter uma discussão tão importante quanto essa sem um elenco mais diverso.

Ready or Not

É verdade que a premissa do longa parece absurda demais para ser verdade e, talvez, sem a atuação quase perfeita de Weaving, nada ali funcionaria. Mas porque a atriz australiana é brilhante em retratar uma mulher desesperada pela sobrevivência, e que ao mesmo tempo nunca parece esquecer que o dia do seu casamento era para ser especial e um ponto de virada na sua vida, tudo parece estar em perfeita harmonia. Todo o seu desempenho no longa é sensacional, sendo que ela dá um humor único para sua jornada, transformando um vestido milionário de noiva em uma arma, carregando várias espingardas e rindo para evitar cair no desespero total. Tudo isso culmina em um momento catártico onde ela grita f*cking rich people [porra de pessoas ricas, em tradução livre].

O desempenho do restante do elenco também é bem satisfatório. Nenhum deles chega a brilhar tanto quanto Weaving, mas é interessante perceber como alguns membros da família não parecem satisfeitos em carregar essa tradição, embora não consigam se livrar da necessidade pelo dinheiro e conseguir viver mais um dia como membro rico e “importante” da sociedade. Adam Brody, por exemplo, vive o irmão mais velho de Alex, Daniel. Alcoólatra e com um péssimo casamento, ele passa grande parte do longa sendo torturado por sua consciência e pelos segredos que sua família carrega. Em um contraponto direto, está Emilie (Melanie Scrofano, de Wynonna Earp). Ela não só parece muito feliz em empunhar armas para tentar matar Grace, como também cheira cocaína e parece drogada demais para entender o que está fazendo. A narrativa, inclusive, faz com que ela mate empregados “por acidente”, reforçando o quanto eles estão empenhados em manter sua posição de privilégio.

De certa forma, todos os membros dos Le Domas parecem ser construídos para representar exatamente esse ponto: o ápice do privilégio branco. Doa a quem doer, eles vão conseguir manter essa posição.

Subvertendo o papel da final girl

Apesar da trama ser um jogo de gato e rato tão explorado pela narrativa cinematográfica antes, Grace, de certa forma, representa uma subversão para a tropa das final girls, que foi perpetuada nas telas de cinemas durante tantos anos. Na primeira vez que vi o longa, achei que ela se encaixava perfeitamente nessa categorização, mas aos poucos fui percebendo que apesar de beber um pouco dessa fonte, suas motivações são bem diferentes.

De Jamie Lee Curtis como Laurie Strode em Halloween, que representa a menina virgem e pura, até Neve Campbell como Sidney Prescott, o oposto total da primeira e uma adolescente que persegue e mata os assassinos, a trajetória das final girls sempre foi sobre um aspecto: sobrevivência. É claro que todos os problemas que tanto Laurie como Sidney enfrentaram eram fortemente influenciados pelo patriarcado em si, mas em Ready or Not essa característica parece ser ainda mais forte. Grace não é virginal. Ela faz sexo com seu namorado, como Sidney, e sua trajetória é muito sobre lutar para sobreviver, fugir e se proteger sem ceder ao medo. Mas é também sobre pertencimento, sua necessidade de encontrar uma família, e sobre classes, levantando outro tipo de discussão.

O patriarcado aqui é escancarado porque a família de Alex hesita em aceitar Grace, questionando se ela está apenas interessada na fortuna dos Le Domas ou se ela realmente ama o parceiro. Na hora de matá-la, eles subestimam e alegam que tudo deve acabar rápido. Afinal, ela é apenas uma mulher indefesa. Mas Grace não é uma mocinha comum e quando ela finalmente rasga seu vestido branco e impecável de noiva para estancar um dos seus ferimentos, o momento representa uma ruptura na forma como ela lida com as coisas. Ela não luta apenas para encontrar um lugar agora, mas sim para sobreviver e, principalmente, para não ceder e provar que eles estão certos. Ela vai até o fim.

O vestido branco, delicado, um dos símbolos mais imponentes do patriarcado e da pureza virginal de uma mulher, está todo sujo de sangue, rasgado para que ela possa pular, se esconder, correr, acompanhado de um All Star e uma arma arcaica. Assim como Samantha (Hayley Griffith) de Satanic Panic, ou a Bex (Hari Nef) de Assassination Nation e principalmente a Dani (Florence Pugh) de Midsommar, Grace é um novo tipo de final girl. Ela representa uma evolução para o gênero, e como fã do terror, de Laurie Strode, de Sidney Prescott e agora de Grace, mal posso esperar para ver o que vem a seguir.

Quando Grace chega ao final do longa viva, os Le Domas acham que acabou para eles. Afinal, o demônio estava mentindo o tempo inteiro? Essa dúvida paira no ar por exatamente cinco minutos antes de eles começarem a morrer, um por um, explodindo em bolas gigantes de sangue. Um momento ridículo, engraçado e plenamente satisfatório, que faz Grace (e muito provavelmente o público) explodir em risadas exageradas. Nada daquilo parece real. Suja de sangue, ela sai da mansão, senta nas escadas e acende um cigarro. Um bombeiro aparece e pergunta “o que aconteceu com você?”. Ela não responde, mas fica claro: o patriarcado aconteceu.

Ready or Not

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