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Dash & Lily: a comédia romântica que precisávamos para o natal

Uma das únicas certezas da vida é a de que, ironicamente, não temos certezas de muitas coisas.

Para alguns, essa é a graça de viver; para outros, sinônimo de puro temor e desespero. Seja qual for seu lado, podemos concordar em algo: as infinitas possibilidades de acontecimentos que a vida nos reserva, nem sempre parecem possíveis dentro de nossas rotinas.

A banda norte-americana Grouplove, talvez na melhor de suas intenções, canta no refrão de “Welcome to Your Life” que a vida pode ser como uma fantasia — deixe que ela assim seja, eles ressaltam. No entanto, sabemos que consumidos pelas obrigações que a sociedade exige de um ser humano funcional (insira aqui um longo suspiro), a ideia de uma vida como nos nossos devaneios, que te convida e o surpreende com aventuras, é algo distante demais da realidade.

Se esse parecer nosso triste status quo, existe uma época do ano que a ideia da vida ser inusitadamente fantasiosa parece possível: o Natal. O calendário vira para o mês de novembro e pelos próximos dias, luzes decorativas, uma overdose de vermelho e verde, e instrumentais de sinos começam a criar uma atmosfera de esperança que se “Vamo Pulá”, de Sandy & Junior, fosse uma música natalina, com certeza seria essa a tal energia contagiante que quer dominar o caçula do Xororó.

A magia do Natal, no entanto, não é consenso para todo mundo. Lily (Midori Francis) ama essa época, mas Dash (Austin Abrams) detesta. As diferentes perspectivas quanto ao feriado, no entanto, não impedem os dois adolescentes de embarcar em uma série de desafios bolados um pelo outro pela cidade de Nova York. Essa é a proposta da série natalina Dash & Lily, da Netflix. Baseada no livro O Caderninho de Desafios de Dash & Lily, primeiro da trilogia fruto da parceria de David Levithan e Rachel Cohn, a comédia romântica nos entrega uma história de coincidências, acasos e todas as dores e delícias que é se conectar e apaixonar por alguém, além das próprias expectativas.

Atenção: este texto contém spoilers!

Dash & Lily

Natal, Nova York e um caderninho vermelho

Se no Brasil nossas maiores referências para o Natal são o especial de fim de ano do Roberto Carlos (que não teremos em 2020!) e a inquisidora linha “Então é Natal, e o que você fez?” na versão da Simone de “Happy Xmas (War is Over)”, os Estados Unidos tem a instituição não oficialmente estabelecida de produções natalinas. Seu objetivo? Trazer a temática para todos os locais possíveis, além das decorações. Filmes de Natal? Visto. Álbuns especiais com regravações e canções inéditas sobre o principal feriado do ano? Também. Episódios especiais natalinos das séries? Por favor.

Para um garoto que não gosta de Natal, escapar do furor em que Nova York se transforma durante a temporada é impossível. Logo, é de esperar que o humor de Dash não esteja lá dos melhores. Ele está rabugento o suficiente para responder mensagens apenas com um emoji de joinha (que dependendo de qual geração você for, entende que é uma resposta um tanto seca demais) e ir até sua livraria preferida, a Strand, e reclamar, duas vezes, para o funcionário da loja sobre a organização dos livros nas prateleiras.

Felizmente, para o alívio do atendente da livraria, Dash é distraído de encontrar mais livros fora do lugar na Strand quando, em vez disso, descobre um misterioso caderno vermelho, com um “Você tem coragem?” escrito à mão na capa. Ele abre e encontra uma série de charadas, que envolvem os livros da loja, necessários para decifrar uma mensagem codificada.

Entediado, o caderno é a válvula de escape perfeita para Dash fugir daquela que ele considera a pior época de todas. Ele embarca nos desafios, escritos por uma garota misteriosa e coroados por uma leitura dramática, em público, da melancólica “River”, canção de Natal de Joni Mitchell. Com as charadas decifradas, ele decodifica a mensagem da anônima, que o questiona: você vai passar o natal sozinho?

Dash & Lily

Sim, Dash vai — e por escolha própria. Isso é possível graças a uma mentira elaborada, que envolve dizer para o pai que ele iria ficar com a mãe; para ela, que ele iria ficar com o pai; e para os curiosos, como Priya (Agneeta Thacker), a amiga de sua ex-namorada, que ele vai para a Suécia com o pai. O único que sabe de toda a verdade é seu amigo Boomer (Dante Brown), a quem o garoto confidencia sobre o caderninho vermelho e arma um plano para conhecer a “garota das pistas”.

Nossa anônima, Lily, já é o oposto de Dash. Ela ama Natal e tudo que envolve a época: coral, decorações, doces especiais, pijamas combinando com a família — o pacote completo. O que era para ser o ponto alto do ano cai por terra quando ela descobre que os pais viajarão para Fiji durante o feriado como uma lua de mel tardia. Langston (Troy Iwata), seu irmão, também não vai servir de companhia, já que está ocupado demais com o novo namorado, Benny (Diego Guevara). Nem seu avô, Arthur (James Saito), de quem também é próxima, estará em Nova York na temporada — ele foi para a Flórida passar as festas de fim de ano com a namorada.

Além de não poder contar com a companhia das pessoas de quem é mais próxima no seu feriado preferido, outra questão para Lily — e uma das razões dela adorar tanto a data — é o que o Natal representa para sua família. Foi nesta época que seu avô conheceu sua avó e assim também foi com o pai e a mãe. Já um tanto desesperançosa com sua vida romântica e a ideia de se apaixonar durante a temporada, a ideia de ter que encarar isso e a questão de seus familiares faz o ânimo da garota murchar, mesmo que ela procure esconder.

Langston não se deixar enganar pelos sorrisos ou os corais improvisados que a irmã participa. Junto com Benny, ele encontra o caderninho vermelho velho e abandonado no quarto de Lily e decide fazer com que o devaneio romântico dela — encontrar o amor entre as prateleiras da Strand — se transforme em realidade. Como? Com charadas boladas a partir de livros específicos da estante de Lily. A lógica é que o garoto que 1) encontrar o caderninho na livraria, entre centenas de títulos, 2) conseguir decifrar a mensagem e 3) se dispor a fazer uma leitura dramática em público de “River” (ideia da adolescente, que ama a música) é a pessoa mais provável a se conectar com ela.

Essa era a intenção do casal, mas para Lily (pelo menos de primeira), não funciona tão bem na prática. Afinal, a resposta de Dash é enfática: ele detesta o Natal. Como poderia surgir algo entre ela e o garoto que não gosta de sua época preferida? A ideia lhe parece absurda e por um momento, ela pensa em desistir. Mas a curiosidade e toda a excitação da ideia de se corresponder por alguém pelo caderno — e a segurança que isso lhe traz, sem envolver todas as questões que a assustariam em uma interação carne e osso — faz com que ela resolva dar uma chance.

Dash & Lily

Se os primeiros desafios ainda deixam os dois incertos quanto a participar do jogo, conforme mais trocas do caderninho acontecem, Dash e Lily vão se conhecendo e compartilhando confidências que até mesmo as pessoas mais próximas a eles desconhecem. Mesmo diferentes, há algo mais profundo que une os dois: ambos desejam uma conexão que os permitam ser vistos, de fato, por eles mesmos, além das aparências.

Para Dash e Lily, a presença física não é um fator que atrapalha sua conexão — pelo contrário. A comunicação exclusiva pelo caderninho aguça outras formas deles aprenderem e descobrirem mais não só sobre o outro, mas também sobre seu mundo. Aqui, em vez de olhares e gestos, que dizem tanto sobre nós, as entrelinhas daquilo que foi escrito é que ganham força. Ainda maior que elas são todos os detalhes que os desafios, de forma óbvia ou indireta, revelam sobre eles.

Como isso acontece? Dash e Lily constroem cada desafio baseado em suas próprias referências nova-iorquinas. Como o caderninho é entregue para cada um após o outro combinar de deixar em um local específico, os dois percorrem a cidade e conhecem Nova York pelos olhar um do outro. A metrópole pulsa viva em cada episódio e além de cenário, funciona como uma personagem central da história que Dash e Lily estão, literalmente, escrevendo juntos.

Assim, lugares, eventos e comidas e, até mesmo, outras pessoas não só ampliam o que eles conhecem um sobre o outro, mas também revelam a forma como eles se relacionam com o mundo e encaram seus próprios medos e dificuldades. Mesmo que não estejam juntos, no início, fisicamente, eles conseguem sentir a presença um do outro nesses momentos. De repente, o Natal não lhes parece mais solitário — e a ideia de se verem pessoalmente não é mais tão assustadora.

Além das expectativas

Ao mesmo tempo em que o caderninho permite com que Dash e Lily se conheçam de uma maneira desprendida, em um primeiro momento, das aparências, ele também é um terreno fértil para que uma série de expectativas sejam criadas. Essa é uma questão que ressoa nos dois de maneiras diferentes. Para Lily, o que lhe parece mais provável é que Dash se decepcione quando a conheça pessoalmente. Logo no começo da série, depois que ela pega o caderninho pela primeira vez após de colocá-lo na Strand, a jovem fala para o irmão que a resposta de Dash (de que o Natal é horrível etc) é resultado dele tê-la entendido de maneira errada. Ela comenta para Langston que ele, autor das primeiras pistas, a fez parecer “blasé, debochada e legal” — algo que ela definitivamente não é.

Frustrar Dash é uma questão especialmente forte para Lily por conta das dificuldades que ela tem de interagir socialmente com pessoas da mesma idade que ela. Se a personalidade dela na vida real não atrai amizades, como não pensar que com ele seria diferente? As inseguranças também se estendem para sua aparência — que tipo de garota Dash imaginaria que ela é, fisicamente? Estaria ela ao alcance dele?

Se para Lily são essas as questões que mais pesam, para Dash, os problemas com a expectativa partiriam dele, em busca de uma garota perfeita que só existe na mente dele. Essa é uma questão, inclusive, apontada por sua ex-namorada, Sofia (Keana Marie), em alguns momentos. Sem nunca terem de fato se conhecido, escolhendo apenas mostrar as partes sobre si que desejam, o quão real seria a conexão entre os dois? Ou eles apenas estariam se apaixonando pela ideia que criaram um do outro?

Esse é a grande dúvida que permeia a trama: o quanto colocamos de nossas expectativas e devaneios, especialmente os românticos, em cima de outras pessoas. Qual é a linha que separa uma expectativa normal e perfeitamente saudável, de uma irreal, que suprime e exige de um indivíduo algo do que ele não é? Inevitavelmente, Dash e Lily colidem com essa questão. No entanto, antes mesmo de saberem a resposta para essa pergunta, a série dá seu jeito de nos mostrar que quando, de fato, eles se conhecessem pessoalmente, as faíscas iriam acontecer — e isso sem eles saberem, ainda, que estavam conversando com seu confidente de caderninho.

Dash & Lily

Além da magia do Natal e das comédias românticas (mas, claro, com a ajuda deles), Dash & Lily se sobressai entre outras produções natalinas porque nos entrega uma história com seus estereótipos e clichês, mas com a construção de um relacionamento que é genuína, doce e nos cativa mais e mais a cada episódio. Acompanhar como eles mutuamente se desafiam a viver novas experiências e ampliar seus horizontes, tudo isso enquanto absorvem e aprendem pequenos e valiosos detalhes sobre o outro, traz aquele encantamento que só um bom romance ou produção natalina — ou algo que una os dois, o próprio melhor dos dois mundos — é capaz nos fazer sentir.

Se você está à procura de um filme ou série com a temática natalina, aposte sem medo: Dash & Lily nos entrega, com a melhor qualidade, tudo o que esperamos de uma série que se propõe a ser uma comédia romântica adolescente. De furtos de chapéus de Papai Noel até conselhos amorosos dados por Nick Jonas (sim!), o seriado ainda tem uma excelente trilha sonora, repleta de músicas natalinas nos mais variados estilos, que vão das clássicas interpretações de Ella Fitzgerald até o alternativo de Sufjan Stevens.

Parafraseando Um Lugar Chamado Notting Hill (o que, alerta de spoiler, de fato acontece), Dash e Lily só são um garoto e uma garota em busca de alguém que os entenda — e os queiram — do jeito que eles são: com suéteres de natal multicoloridos, comentários espertinhos e referências de Esqueceram de Mim que somente eles entendem e acham graça. No fim, quem de nós também não quer?

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