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15 Minutes of Shame: toda fama é boa?

Segundo um dos mitos da criação, Adão e Eva foram banidos do Jardim do Éden e condenados ao sofrimento como forma de castigo pelo descumprimento da ordem que os regia. Narrativas de punição como essa estão presentes em diversas culturas, se não todas, e uma das formas de “correção” que parece mais agradar é a humilhação pública. Rebatizado nas redes sociais como “cancelamento”, o julgamento público na cultura moderna é o mote do documentário 15 Minutes of Shame.

A produção, disponível na HBO Max, foi realizada por duas pessoas familiarizadas com a exposição e os perigos da internet: Monica Lewinsky, ativista e  ex-estagiária da Casa Branca que, da noite para o dia, se tornou o centro de um grande escândalo de repercussão global, e Max Joseph, diretor conhecido por ter apresentado o programa televisivo Catfish, na MTV, sobre pessoas que estabeleceram relacionamentos virtuais enquanto escondiam suas verdadeiras identidades.

Com duração de 86 minutos e narrado pela própria Lewinsky, 15 Minutes of Shame oferece uma breve história da vergonha pública e da cultura do cancelamento, presente em nossa sociedade desde os primórdios da civilização, e apresenta diversos insights de formadores de opinião e especialistas sobre o assunto. Entre eles, o jornalista e escritor Jon Ronson, autor da obra Humilhado: Como a Era da Internet Mudou oJulgamento Público (2018), a historiadora Tiffany Watt Smith que esclarece, baseada em pesquisas científicas, a respeito do prazer que sentimos ao presenciar quem julgamos ser um malfeitor sendo punido ou humilhado, e Mary Aiken, especialista em psicologia cibernética forense, que trabalha com a Interpol e o governo dos Estados Unidos para rastrear criminosos cibernéticos. Aiken fala do “efeito de desinibição on-line”, isto é, quando “você faz coisas on-line que não faria no mundo real” (conforme definiu em 15 Minutes of Shame).

Monica Lewinsky

O fenômeno da humilhação pública sempre existiu e, certamente, sempre existirá, mas o maior alvo de críticas do documentário são as redes sociais e sua capacidade de potencializar comportamentos inadequados. Boicotes e cancelamentos podem ser benéficos quando direcionados às grandes corporações e pessoas de imensa influência e poder, como políticos, que, sem uma massiva mobilização popular, não seriam responsabilizados por seus erros. No entanto, quando feitos contra indivíduos comuns, o resultado pode ser muito negativo, colocando em risco até mesmo a saúde e a segurança dos “cancelados”.

“A rede social é uma boa ideia, mas as pessoas estragaram tudo”, diz a professora, comentarista social e escritora Roxane Gay, que advoga que no mundo virtual não há tolerância para erros e nuances.  Essas nuances são apresentadas em 15 Minutes of Shame por meio do depoimento de pessoas que foram bombardeadas com ataques nas plataformas. Relatos comoventes como os de Matt Colvin, vendedor no marketplace da Amazon que comprou mais de 17 mil frascos de álcool em gel depois da primeira morte por COVID-19 nos EUA, ou Emmanuel Cafferty, mexicano que, também em 2020, foi acusado de reproduzir um gesto de supremacia branca próximo à manifestações do movimento Black Lives Matter que ocorriam na cidade, são alguns dos exemplos de que nem tudo é o que parece ser.

Com testemunhos pessoais, incluindo o da própria Monica Lewinsky, 15 Minutes of Shame pretende que o telespectador veja além das manchetes nos portais de notícias e dos tweets virais, enxergando a humanidade presente nas pessoas vítimas da perseguição on-line em virtude de terem cometido deslizes, erros de julgamento — “quem entre vós não tiver pecado atire a primeira pedra” (Jo 8, 1-11) — ou até mesmo por terem sido pré-julgadas e mal interpretadas, tendo o azar de estar no lugar errado, na hora errada. E também como a internet e as redes sociais facilitaram os 15 minutos de fama, mas tornaram o retorno ao anonimato praticamente impossível.

O documentário também faz questão de diferenciar o cancelamento do ataque identitário, como o racismo, um dos crimes crescentes em todo o mundo com a popularização das redes sociais. A proliferação dos linchamentos virtuais e crimes de ódio na internet ganha destaque na produção para criticar os algoritmos das redes sociais e a falta de ações efetivas das empresas donas dessas plataformas. O argumento do documentário ganha ainda mais força após seu lançamento ocorrer quase simultaneamente às denúncias da ex-funcionária do Facebook, Frances Haugen, que apresentou uma série de documentos que provariam que a empresa de Mark Zuckerberg estimula de forma proposital, por meio dos algoritmos, o ódio e a desinformação em suas plataformas para gerar mais engajamento e, consequentemente, mais lucro.

15 Minutes of Shame é um alerta sobre um grave problema que se intensificou nas redes sociais e em como podemos cair facilmente em armadilhas, mesmo quando a intenção é reprimir comportamentos impróprios ou mesmo criminosos. Ainda que não ofereça muita novidade, uma vez que o documentário O Dilema das Redes (2020) já havia suscitado discussões semelhantes, o longa de Lewinsky e Joseph, ao contrário da produção da Netflix, não exclui o fator humano da equação. As plataformas impulsionam comportamentos destrutivos e infames, mas esses comportamentos já existiam antes.

Nos primeiros minutos do documentário, Lewinksy questiona: para onde estamos indo? 15 Minutes of Shame não tem uma resposta definitiva, seguramente porque ela ainda não existe e apenas o futuro poderá dizer se iremos mudar nosso comportamento on-line e se haverá regulamentações mais efetivas das redes sociais. O certo, entretanto, é que não há mais como voltarmos atrás.

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