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Reply 1988: em Ssangmundong, todo mundo está dando o seu melhor

“Para as coisas que já se foram, para um tempo já passou, eu quero dizer um adeus atrasado. Adeus, juventude. Adeus, Ssangmundong.” — Deok-sun

O ano é 1988 e a Coreia do Sul se prepara para receber as Olimpíadas. No bairro de Ssangmundong, cinco amigos adolescentes e seus familiares esperam o evento com ansiedade, ao mesmo tempo que enfrentam os problemas de suas respectivas rotinas. Neste contexto, as relações nascem, crescem e se concretizam.

Se tem uma coisa que aprendi durante todos esses anos consumindo cultura pop avidamente é que você nunca sabe quando está diante de uma produção que muda completamente a forma como você vê e absorve as coisas. Às vezes, uma série, um filme ou um livro muito esperado acaba decepcionando, enquanto algo que começa como uma forma de passar o tempo e se distrair pode se tornar um favorito. Quando comecei Reply 1988, eu buscava algo na via da segunda opção. Não esperava me apaixonar pelos personagens com tanta intensidade, assim como não esperava me envolver com todas as tramas do k-drama.

Exibido entre o final de 2015 e começo de 2016, Reply 1988 não chega sem limitações. O drama faz parte de uma série popular na Coreia do Sul, que explora assuntos como amadurecimento e família ao passar dos anos (além de ter um barulho de cabra absurdo que entra em todos os momentos mais cômicos). A primeira produção da série foi Reply 1994, seguida por 1997. Reply 1988, no entanto, é um pouco diferente. Na última produção a ser lançada, os episódios são mais longos e exigem mais do público. Não apenas porque os capítulos são realmente muito extensos (ao ponto do exagero), mas também porque tudo é abordado com uma delicadeza absurda. Apesar de os três dramas tocarem em assuntos complicados, existe algo em Reply 1988 que faz com que tudo seja absorvido de forma mais intensa. Você pode começar odiando um personagem, mas vai acabar gostando ou simpatizando com ele em algum momento. E pode amar outro de paixão, mas se estressar com alguma ação e reação. Todo mundo tem a oportunidade de brilhar e conquistar o público, e vice-versa.

Antes de escrever este texto tentei entender exatamente porque Reply 1988 é tão bom e porque a série falou tanto comigo. Não me entenda errado: reconheço muito bem as falhas que existem dentro do próprio escopo do dorama. Eu ligo? A essa altura do campeonato, de jeito nenhum. Assim como as coisas que mais amo nessa vida, o k-drama triunfa em uma mistura caótica de personagens que crescem, mudam e, no geral, estão dando o seu melhor. Nem tudo funciona, mas poucas vezes vi a dor do amadurecimento, a juventude e as relações familiares (sejam elas de sangue ou não) captadas de forma tão honesta e maravilhosa.

Reply 1988

Reply 1988 me deu, acima de tudo, conforto. Conforto para a pessoa que fui quando adolescente e que passou por tudo que os cinco protagonistas enfrentam na série, mas também para a que sou agora, aos 25 anos. E isso pode parecer algo fácil de ver em produções da cultura pop, mas é realmente difícil ver tais sentimentos retratados com tanta delicadeza e naturalidade ao mesmo tempo. Esses elementos se misturam de forma orgânica na narrativa e acrescentam uma dose pertinente de personagens incríveis, coração e um ritmo cômico que, apesar de às vezes ser perturbado pelo barulho de cabra, é gostoso de acompanhar. Entre trancos e barrancos, e algumas decepções, Reply 1988 chegou na minha vida do nada e veio para ficar. Mesmo pouco tempo depois que acabei a maratona, posso dizer que a produção é uma das minhas favoritas da vida.

Atenção: este texto contém spoilers

Ao contrário da maioria dos doramas, que dá bastante foco para o casal principal e deixa para os coadjuvantes poucas oportunidades para se destacar, Reply 1988 tem o que as pessoas chamam de “ensemble cast”, o que significa que todos os personagens têm o seu momento de brilhar e, consequentemente, têm seus conflitos explorados — com algumas raras exceções. Isso também faz com que o leque de assuntos abordados seja maior. O que seria um problema, se a série não fosse tão brilhante em explorar temáticas dentro do seu próprio escopo. Reply tem uma das melhores representações de masculinidade que já vi na TV, seja pela forma como abordam a paternidade ou como desenvolvem os protagonistas adolescentes.

Kim Jung hwan (Ryu Jun-yeol), Choi Taek (Park Bo-gum), Sung Sun-woo (Go Kyung-pyo) e Ryu Dong-ryong (Lee Dong-hwi) vivem no bairro e são amigos de infância (também ao lado de Deok-sun, vivida por Lee Hye-ri). Apesar de terem crescido no mesmo ambiente, irem à mesma escola e suas famílias terem contato umas com as outras, todos eles são diferentes e complexos, sendo que seus conflitos internos não poderiam ser mais diferentes entre si. Sun-woo, por exemplo, tem que lidar com a perda do pai, enquanto faz de tudo pela mãe e pela irmã. Companheiro, leal e muito presente, ele segura as pontas das formas mais simples — mas que fazem toda a diferença. Ele cuida da irmã, é carinhoso com a mãe, não pede mais do que ela pode oferecer (algo que, talvez, um adolescente comum não faria). Mais do que isso, ele abdica um pouco da sua individualidade para ver as duas pessoas mais importantes da sua vida prosperarem.

A perda também é uma constante na vida de Taek. Jogador profissional de Go, o protagonista vive sozinho com o seu pai, Moo-sung (Choi Moo-sung) já que sua mãe morreu quando ele era bem pequeno. Apesar dos dois terem arcos individuais para além da dinâmica pai/filho que carregam, é possível traçar um paralelo interessante na forma como eles terminam a série. Ambos são solitários, introspectivos e têm uma personalidade calma e tranquilizadora. É possível ver, inclusive, que os amigos de Taek adotam uma postura bem protetora em relação a ele, sempre fazendo-o estar mais presente no mundo real e não apenas em uma partida de Go. De qualquer forma, o que os dois aprendem é a contar mais com as pessoas ao seu redor e a fazer parte de uma comunidade.

Até mesmo Dong-ryong, que em muitos momentos é negligenciado pela narrativa e às vezes parece apenas uma espécie de alívio cômico, é incrivelmente perspectivo e observador, oferecendo alguns dos melhores conselhos no decorrer dos episódios. Por ser de uma família mais fria e distante, ele sofre com o peso da solidão, ao mesmo tempo que observa e absorve as coisas de uma forma diferente, com mais sensibilidade. É interessante perceber como ele entende mais as mães de seus colegas do que os próprios e até mesmo tem uma percepção maior dos sentimentos de Deok-sun, revelando ser alguém empático e uma presença reconfortante. Como a própria protagonista aponta: ele é sua alma gêmea.

Reply 1988

Por fim, chegamos em Jung hwan. Posso ser suspeita para falar porque ele é um dos meus personagens masculinos favoritos da vida, mas seu desenvolvimento é talvez o mais sutil e interessante da série. Quando Reply 1988 começa, Jung hwan tem uma tremenda dificuldade em demonstrar o que sente. Não apenas em relação a Deok-sun (por quem ele alimenta uma paixão secreta), mas também em relação a sua família e seus amigos. Mesmo assim, ele se faz presente. Tenta animar o pai quando ele está desanimado, ajuda a mãe quando precisa, ama incondicionalmente o seu irmão e cuida de Deok-sun em milhares de situações diferentes. Afinal, amor não necessariamente vem de grandes gestos ou demonstrações. Mesmo sendo claramente uma pessoa amorosa na essência, sua dificuldade de demonstrar o que sente define todos os momentos do personagem, o que é dolorido e difícil de acompanhar. Apenas a audiência e aqueles que conhecem Jung hwan profundamente sabem como ele é, criando uma sensação agridoce ao acompanhar toda a sua jornada como personagem.

Já com Deok-sun, Reply 1988 encontra e desenvolve uma das melhores personagens femininas adolescentes que já vi nas telas. Ingênua, autêntica, amorosa e completamente perdida na vida e no que quer, ela luta mais do que todos eles para entender o que gostaria de fazer na vida adulta, além de ser a filha do meio e, consequentemente, receber menos atenção dos pais. Ela grita por seus ídolos, tem uma queda por (quase) todos os seus melhores amigos e passa grande parte da narrativa confusa com os sinais amorosos de Jung hwan e do próprio Taek — que mais tarde se torna seu marido. De muitas formas, sua irmã Bo-ra (Ryu Hye-young), que é mais séria, decidida e tem uma carreira brilhante como estudante, é seu contraponto direto. As duas são especiais de maneiras diferentes, mas sofrem com suas limitações. Isso não quer dizer, no entanto, que elas não venham de um lugar genuíno: ambas procuram seus lugares e papéis no mundo, além de quererem amar e ser amadas de volta.

Quando Dong-ryong fala para Deok-sun: “você não precisa ser amada por alguém, você também pode amar ao invés disso”, é uma revelação. E essa frase específica serve para Deok-sun não apenas no nível amoroso, mas também pela forma como ela leva sua vida até então. Ela não precisa traçar o mesmo caminho da sua irmã mais velha, e pode muito bem trilhar algo novo e diferente para si. Assim como não precisa necessariamente gostar do menino que gosta dela, mas desenvolver um afeto honesto e sincero por outra pessoa. Ou seja, ela pode ser ela mesma. Algo que, apesar de todos os seus dilemas, ela consegue fazer muito bem quando está no seu grupo de amigos. Deok-sun dança, canta e é sua versão mais autêntica quando se sente segura em um ambiente, algo que diz muito sobre o seu grupo de amigos de infância.

O dilema geracional e a forma como os pais lidam com os filhos é também um dos fatores mais interessantes da narrativa — que tira sua força e está no seu melhor quando explora muito destes aspectos. Os pais, que são de uma geração mais dura e difícil do que a dos filhos, têm maneiras diferentes e bem específicas de lidar com a forma que a vida aconteceu para eles, assim como eles projetam isso nos seus filhos. Eles demonstram amor de formas distintas e parecem mais calejados pelo tempo e pela perda que sofrem do que os mais jovens, assim como a pressão e a responsabilidade de ter que cuidar de uma família, ainda mais em um país tradicional como a Coreia. É comum se revoltar com Sung Dong-il (vivido pelo ator de mesmo nome) pela forma como ele age com Bo-ra (que gosta de protestar), já que ele não entende as motivações válidas da filha, e do jeito que ele bebe demais, mas é também possível desenvolver certa empatia pelo personagem quando ele perde a mãe e começa a entender que o tempo está passando e as coisas vão continuar mudando.

Se a paternidade é bem explorada em Reply 1988, essa característica não chega nem aos pés da forma como o drama aborda a vida das três mães da trama: Lee II-hwa, Ra Mi-ran e Kim Sun-Young (vividas também pelas atrizes de mesmo nome). Apesar de serem as tradicionais mães que ficam em casa e cuidam dos filhos, as três são as personagens mais complexas e interessantes da série, com dilemas que vão de menopausa até uma segunda chance no amor. A solidão que elas sentem e até mesmo a forma como a responsabilidade de ter uma jornada de trabalho que envolve tanto o papel de mãe pesa, é algo comum na narrativa, que brinca com estes elementos de forma quase inconsciente. A amizade que existe entre elas também é incrível, sendo que uma ajuda a outra de forma quase comovente. Isso também demonstra o cenário de lealdade que é tão exposto na produção, seja na dinâmica dos adolescentes, dos pais ou até mesmo entre as mães. Ssangmundong é, afinal, uma comunidade.

“Chamar pelo nome mãe é algo que tem o poder de mexer com o meu coração.” — Bo-ra

Existem muitas linguagens de amor e formas distintas de demonstrá-lo, mas uma coisa que absolutamente todos os doramas que vi até hoje fazem muito bem, é provar que atos de serviços também é uma destas linguagens. Talvez a mais importante de todas. Seja na forma como Jung hwan cuida de Deok-sun (ainda que sem nunca contar isso para ela), do jeito que Sun-woo protege a mãe e da irmã, como Kim Jung-bong (Ahn Jae-hong) torce para que seu irmão, Jung hwan, consiga realizar todos os sonhos que ele mesmo não conseguiu concretizar, ou até mesmo na forma que a relação complicada entre Bo-ra e seu pai parece ganhar vida quando ele leva remédios para ela ou usa roupas e sapatos que não são do seu tamanho só porque ela comprou para ele, Reply 1988 faz isso de forma espetacular, que deixa um quentinho no coração e vontade de ser melhor com as pessoas que você ama. O que nos leva ao próximo ponto: em Ssangmundong, todo mundo está dando o seu melhor.

Porque as experiências humanas são tão diferentes entre si, o seu melhor às vezes não será o suficiente para outra pessoa. Isso fica completamente claro com a relação entre Jung hwan e Deok-sun. Por causa de uma série de mal entendidos e das milhares de vezes que ele hesitou ao contar seus sentimentos para ela, os dois colocam um ponto final em uma relação que nem sequer teve uma chance real de prosperar. Apesar de Jung hwan ter amado Deok-sun de forma tímida e incisiva durante todos os anos que eles passaram juntos em Ssangmundong e ter se tornado uma pessoa incrível, altruísta e leal, ele nunca conseguiu passar a sua timidez inicial e insegurança para contar a ela como se sentia. Quando finalmente reúne essa coragem (em uma das cenas mais dolorosas que já vi na vida), já é tarde demais e ela está apaixonada por Taek.

Mesmo com todas as suas barreiras e inseguranças, Jung hwan cuidava do bem-estar da sua família, de Deok-sun e dos seus amigos. Na época, ele fazia o seu melhor. Isso não foi o suficiente para levar seu relacionamento com a protagonista para outro nível, mas fez dele uma pessoa melhor, com certeza. A narrativa entende suas limitações, e não faz disso uma fraqueza. Ao invés disso, eles mostram os seus sentimentos e como, aos poucos, ele vai superando as suas limitações para se tornar a pessoa que é no final da série. São situações complexas e ambíguas, mas ao mesmo tempo muito reais.

“No final, o destino não acontece apenas por causa de coincidências e circunstâncias. Ele é uma combinação de desejo e sinceridade, escolhas simples que criam momentos milagrosos. Ser resoluto, tomar decisões sem hesitar — isso é o que cria as circunstâncias.” — Jung hwan

Eu não cresci em Ssangmundong, não nasci na Coreia do Sul e não tive um grupo de amigos de infância como os protagonistas de Reply 1988. Minha experiência pessoal, como uma mulher que nasceu na maior cidade da América do Sul no final da década de 1990, não poderia ser mais diferente. E ainda assim, o dorama falou comigo como se tivesse retratando ali as minhas experiências. Retratando uma realidade completamente única e específica, mas ainda assim universal, Reply 1988 é uma carta de amor à juventude e todas as coisas que passaram e não voltam mais. Um tempo onde as coisas eram mais simples e os sentimentos que pareciam tão importantes na época, mas evoluíram e se tornaram apenas um registro de tempo. É sobre família, amizade e amor. Assim como Deok-sun fala no episódio final: adeus Ssangmundong, também vou sentir a sua falta.

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1 comentário

  1. Carol, que texto precioso! Eu AMO Reply 88 e ler esse texto foi como revisitar os corredores do meu coração! Esse drama fala comigo de uma maneira muito particular, muito especial, e você pôs em palavras o que penso, vejo e, principalmente, o que e como sinto! Obrigada por isso!