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Carmen Sandiego: as muitas nuances de uma carismática anti-heroína

Os mais velhos irão se lembrar de que Carmen Sandiego nasceu de um jogo educacional para computador lançado em 1985: em Where in the World is Carmen Sandiego? o jogador é um detetive que precisa reunir pistas ao redor do mundo de maneira a solucionar o caso que envolve Carmen, obviamente, e o roubo de algum artefato precioso. Por meio de dicas deixadas pela protagonista, o jogador/detetive precisa descobrir, levando em consideração aspectos geográficos e características específicas, onde no mundo está Carmen Sandiego, desvendando, por consequência, o mistério. De lá para cá passaram-se mais de trinta anos; a Netflix decidiu recontar essa história e a pergunta que fica é a seguinte: será que deu certo?

Do jogo de computador vieram um game-show na televisão norte-americana e animações, sendo a mais famosa delas a homônima ao jogo original de 1985, exibida no Brasil durante a década de 1990 e, mais recentemente, reprisada no canal por assinatura Nickelondeon. Where in the World is Carmen Sandiego? acompanha dois agentes da ACME, Zack e Ivy, em busca de Carmen, uma antiga detetive da agência que, entediada com as missões, decide passar para o outro lado, fundando a V.I.L.E. e reunindo ladrões do mundo inteiro cujo objetivo é roubar itens raros e preciosos de diferentes países ao redor do globo. A premissa da animação era a mesma do jogo e por meio de pistas deixadas por Carmen, Zack e Ivy tentam encontrá-la antes que ela pudesse concluir seus planos de roubar mais um artefato valioso.

Na onda de reboots como o de She-Ra e as Princesas do Poder, a Netflix resolveu recontar a história de Carmen Sandiego e para isso contou com Duane Capizzi responsável por, entre outras, animações como As Aventuras de Jackie Chan, Batman, Ace Ventura, O Máskara e a versão para a televisão de Aladdin. Com Carmen Sandiego, Capizzi destituiu a protagonista de seu ar de mistério e deu a ela uma história de origem, uma manobra pensada para fazer o público simpatizar com Carmen e os obstáculos que apareceriam em seu caminho durante os nove episódios que compõe a primeira temporada da série — já renovada para um segundo ano. É dessa maneira que assistimos aos dois primeiros episódios de Carmen Sandiego, “Becoming Carmen Sandiego”, e vemos a jovem órfã quebradora de regras treinar para se transformar na melhor aluna da academia V.I.L.E.

Carmen Sandiego

Antes de ser Carmen Sandiego, a talentosa ladra que viaja o mundo usando um trench coat vermelho e um chapéu Fedora combinando, ela era apenas Ovelha Negra, uma órfã resgatada ainda bebê das ruas de Buenos Aires, na Argentina, e levada para a academia V.I.L.E. por um de seus professores. Sem se lembrar de seus pais ou de qual professor a resgatou, Ovelha Negra aceita a vida na V.I.L.E. como sua, ainda que sinta uma vontade imensa de sair da sede da escola, em uma ilha, para conhecer o mundo. Não demora para que Ovelha Negra deseje se juntar aos outros alunos da academia e passe a treinar para se transformar na melhor entre eles. Os dois primeiros episódios de Carmen Sandiego desvelam a protagonista, mostrando o que a levou a romper com a V.I.L.E. e a fugir para o mundo assim como conta como a jovem escolheu seu nome e os motivos por trás de seu icônico figurino. Dublada no original por Gina Rodriguez, de Jane the Virgin, a nova Carmen Sandiego é carismática e divertida, e pinça de sua versão anterior apenas pequenos detalhes, visto que em seu reboot a história é outra.

Quando descobre que a V.I.L.E não é uma agência que se autodenomina Valiosas Importações, Largas Exportações mas Vilões da Liga Internacional do Mal, Ovelha Negra entende que não poderá ficar ao lado deles. Os roubos dos artefatos e itens históricos requerem uma dose extra de maldade e a jovem não está disposta a cruzar essa linha — sendo assim, ela deixa o codinome Ovelha Negra para trás, assume a alcunha de Carmen Sandiego e se dedica, agora longe da academia, a atrapalhar os roubos da V.I.L.E. colocando-se no caminho de seus antigos colegas de escola. Mas Carmen não está sozinha nessa tarefa e ela conta com a ajuda de Player 1, dublado por Finn Wolfhard, o Mike de Stranger Things, um “hacker do bem”, como ele se apresenta, e dos irmãos Zack (Michael Hawley) e Ivy (Abby Trott) — sim, os mesmos agentes da trama original, agora parceiros de Carmen em suas missões ao redor do mundo.

No reboot da Netflix, Carmen atua como uma espécie de Robin Hood, tirando das mãos dos ladrões internacionais da V.I.L.E. itens de valor inestimável e devolvendo cada um deles aos museus a que pertenciam. Aqui não existe mais aquele mistério característico da animação original ao redor da protagonista, e não há nada de errado com isso — Carmen Sandiego surge como uma nova proposta para o público infantojuvenil, mostrando uma protagonista não-branca salvando o dia e chutando as bundas dos vilões. Carmen Sandiego é espirituosa, altruísta e inteligente, uma protagonista que carrega com facilidade a trama de uma animação que pode até mesmo lembrar franquias de filmes de espionagem com os diversos cenários e países visitados por ela e sua equipe. Essa, inclusive, é uma das características que permanece de Where in the World is Carmen Sandiego?: assim como no jogo, em Carmen Sandiego são mostradas curiosidades e informações a respeito do país em que se desenrola a trama do episódio, seja a respeito da culinária local, da geografia ou da fauna. As telas sempre coloridas são belamente animadas e o público pode descobrir curiosidades a respeito da Indonésia e do Equador, por exemplo, apenas para citar dois dentre os vários lugares que Carmen visita na primeira temporada.

Carmen Sandiego

Com relação aos personagens, o brilho está, evidentemente, em Carmen. Ainda que a transformação de estudante promissora à ladra brilhante aconteça de maneira um tanto abrupta, já estamos vendidos para Carmen quando isso acontece e torcer por ela é simples e fácil. Com um senso de justiça apurado e uma inteligência primorosa, Carmen consegue atrapalhar os planos da V.I.L.E. com segurança, mesmo quando o detetive Devineaux (Rafael Petardi), da Interpol, aparece em seu encalço tentando prendê-la pelos crimes que os vilões cometem. O detetive Devineaux, inclusive, é um estereótipo do detetive arrogante que pensa saber de tudo: ele crê que apenas as suas deduções são certeiras, ignorando os palpites muito mais promissores de sua parceira, Julia Argent (Charlet Chung), o que o leva a perseguir Carmen Sandiego enquanto deveria dirigir seus esforços para outro lugar. Devineaux não leva em consideração os argumentos de Argent, mete os pés pelas mãos um sem número de vezes e crê, até o último episódio, que Carmen é realmente a vilã da história. Um homem firme em suas convicções completamente erradas? Nada de novo sob o sol.

Os demais personagens que habitam ao redor de Carmen não possuem tanto desenvolvimento quanto a protagonista da série, o que é normal dada à dinâmica dos episódios de vinte e poucos minutos, mas é algo que não faria mal se for melhor trabalho na vindoura segunda temporada. Ainda que Carmen Sandiego seja quem, de fato, suscite maior curiosidade, também seria interessante saber mais a respeito de outras personagens — Julia Argent, por exemplo, parece ter uma história interessante para ser desenvolvida, assim como algumas das nêmesis de Carmen como Tigress (Kari Wahlgren) e Paperstar (Kimiko Glenn). Carmen Sandiego pode ser uma animação voltada para o público infantojuvenil, mas isso não quer dizer que não possa — ou deva — aprofundar as histórias de seus personagens. Aqui eles não lidam tanto com sentimentos e o que significa senti-los — algo que She-Ra e as Princesas do Poder consegue fazer muitíssimo bem —, preferindo focar muito mais na aventura e no percurso até ela.

No que se refere a aspectos técnicos, Carmen Sandiego é uma animação belíssima e que consegue evocar com maestria a estética noir típica dos filmes de detetives, espiões e agentes secretos. Os frames são trabalhados com cores vivas e toda a animação tem um algo a mais, um cuidado com detalhes e montagem de cenas que não se vê em muitos títulos do gênero. Das cenas de luta a perseguição de carros, das fugas inteligentes de Carmen aos planos mirabolantes da V.I.L.E., tudo é trabalho de maneira única, evidenciando cenários e ambientações baseadas em nossa mundo real que entretém ao mesmo tempo em que ensina, resgatando o motivo pelo qual a Broderbund Software decidiu lançar Where in the World is Carmen Sandiego? na década de 1980. O reboot da Netflix é para um público infantojuvenil, mas isso não quer dizer que é um material bobo ou vazio — os episódios são capazes de ensinar sem sequer parecer se esforçar para tal.

Carmen Sandiego

De maneira geral, Carmen Sandiego é uma ótima adição ao catálogo de originais do serviço de streaming. A protagonista é adorável e fácil de amar, e se você decidir assistir a animação com a dublagem original, vai se encantar ainda mais facilmente com Carmen, visto que a atuação inspirada de Gina Rodriguez investe a personagem com um carisma inegável. O mesmo vale para o trabalho de Finn Wolfhard como Player 1, o inseparável parceiro de Carmen que evoca o jogador de Where in the World is Carmen Sandiego? em sua primeira versão animada.

Os personagens da animação não são de todo bons ou ruins, e há tons de cinza em suas construções. Ao mesmo tempo em que Carmen está protegendo o mundo da V.I.L.E. ela está, tecnicamente, entrando em lugares onde não deveria estar e agindo contra a lei — mas tudo em nome de um bem maior. Como aponta a resenha da ComicBook, tais nuances surgem como uma oportunidade de criar diálogos entre pais e filhos, mostrando que há mais no mundo do que apenas dois lados. Enquanto Carmen faz o possível para impedir os planos da V.I.L.E., o detetive Devineaux atua praticamente como seu antagonista, e somos impelidos a torcer por ela e ficar muito irritados com as interrupções (desastradas) dele.

Em tempos de #MeToo e uma busca cada vez maior pela representatividade de minorias nas telas, Carmen Sandiego se mostra uma produção acertada e revigorante. Todas as suas personagens femininas são independentes e donas de si mesmas, lideradas por uma protagonista não-branca e de origem latina que passa longe dos estereótipos relegados a essas mulheres em Hollywood, algo que não se vê todo dia, principalmente em produções para crianças. O show consegue combinar muito bem um enredo de espionagem para o público infantojuvenil, momentos divertidos e alguns até dramáticos, com direito a um plot twist ao final da temporada que, se você não viu chegando, certamente vai aquecer seu coração. Carmen Sandiego é diversão garantida para novos fãs de todas as idades enquanto trabalha com pitadas de nostalgia para (re)conquistar os antigos. Respondendo a pergunta do primeiro parágrafo desse texto, encerro: será que a empreitada da Netflix deu certo? Deu certíssimo, e agora só nos resta esperar para ver onde no mundo estará Carmen Sandiego em sua segunda temporada.

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