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Novamente, caminhamos para o fascismo com a censura de livros

Não é fácil escrever isso porque não é fácil encarar a realidade do que está acontecendo, mas nós estamos cada vez mais caminhando para o fascismo. Não existem outras palavras que possam substituir essas, ainda que elas sejam desagradáveis e que seja preferível se refugiar em obras de ficção para esquecer do momento horrível que estamos enfrentando neste país. Não é a primeira vez que livros são censurados, mas é chocante ver um governo que usa da censura de livros para aprisionar mentes.

Na quinta-feira passada, dia 6 de fevereiro, uma ordem governamental foi colocada à vista de todos nas redes sociais: se tratava de um documento do Secretário de Educação de Rondônia, Suamy Vivecananda, listando títulos de livros que deveriam ser recolhidos das escolas públicas do Estado. Os 43 livros listados, muitos deles clássicos da literatura nacional e mundial, foram censurados por supostamente terem “conteúdos inadequados a crianças e adolescentes”. Ainda que, após pressão popular, a medida tenha sido cancelada, o fato é que a ordem seria cumprida caso a arbitrariedade da situação não tivesse causado uma polêmica nas redes sociais, suscitando o furor público. Isso é muito grave.

Banir livros não é um ato novo. Para entendermos o presente, é preciso olharmos para o passado e o que encontramos na história é assustador. Um dos sinais mais óbvios de um regime autoritário é a censura, especialmente a livros e obras artísticas. Não é difícil pensar no porquê de a literatura ser um dos primeiros alvos de ataques quando o autoritarismo assume: ler nos faz abrir a mente para outras realidades além da nossa, nos faz conhecer novos caminhos, nos faz pensar e questionar. E isso nunca será aceito por aqueles que governam sob o nome do terror.

Em setembro do ano passado, já testemunhamos um episódio assim quando o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, censurou o gibi Vingadores – A Cruzada das Crianças, na Bienal do Livro, com a alegação de que havia nele conteúdo sexual para menores. Entretanto, o conteúdo das páginas daquele gibi exibia, entre lutas e histórias de heróis, apenas um beijo entre dois garotos. Desde quando um beijo é considerado inapropriado para menores? Desde que o governo aparelhado com instituições evangélicas assumiu. O Estado é laico, mas nossos governantes não respeitam isso. Para eles, o que vale são suas crenças individuais e seus preconceitos absurdos direcionados tanto ao público LGBT+, quanto a minorias e quaisquer pessoas que pensem de forma diversa e se manifestem, seja artisticamente ou não. E não apenas o gibi dos Vingadores foi censurado, como foi ordenado que todos os livros com temática LGBT+ recebessem uma etiqueta que alertasse para o conteúdo impróprio e pornográfico.

Já em novembro, foi a vez de Luisa Geisler, autora de Enfim, Capivaras, ter seu livro censurado em uma cidade no interior do RS. Com a alegação de que o livro seria inadequado para jovens por conter palavrões e consumo de bebida alcoólica, o convite para participar da Feira do Livro de Nova Hartz foi retirado. Luisa havia sido convidada a conversar com alunos de idade entre 11 e 15 anos sobre Enfim, Capivaras. Os livros haviam sido adquiridos e tudo estava acertado, até que a censura chegou, dizendo que o conteúdo daquele material era inadequado. Os alunos, assim, não tiveram acesso aos livros nem puderam conhecer Luisa.

Em pouco mais de um ano do governo Bolsonaro, o país foi submetido a três episódios marcantes de censura a livros. Tecnicamente, vivemos em uma democracia, mas é uma democracia do terror, onde não sabemos qual será o próximo golpe infligido contra as artes e o pensamento livre. Nós repudiamos toda e qualquer forma de censura, mas o que podemos fazer mediante um autoritarismo que nos cerca mais e mais a cada dia? Podemos continuar falando e resistindo, lendo, estudando, nos informando e produzindo arte e crítica. Mas até quando?

Existem diversos tipos de censura e, cada vez mais, estamos presenciando ela acontecer no Brasil em muitas esferas. Precisamos lembrar que o fascismo não chega de repente na forma de tanques de guerra nas ruas e soldados armados batendo nas casas. Ele chega na televisão, com um secretário da Cultura fazendo uma homenagem ao nazismo e a Joseph Goebbels, em lives onde um presidente ameaça qualquer pessoa que se opuser a ele e sai impune por isso, em manifestações oficiais de órgãos governamentais que colocam uma cineasta brasileira como inimiga da pátria. O fascismo chega quando todos os dias pensamos naqueles que governam o país e suas imagens nos fazem sentir medo, angústia e ódio. Não sabemos o que será do nosso futuro, mas sabemos bem quem já está aqui: é o fascismo disfarçado de cidadão de bem.

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1 comentário

  1. Post importante e necessário. Nossa realidade tem entrado cada vez mais no terreno da distopia. “Fahrenheit 451”, “1984” e “O Conto da Aia” estão mais próximos de nós a cada dia.

    Precisamos insistir na liberdade e na força da palavra. Ler e escrever é, cada vez mais, resistir. Resistamos.