Categorias: CINEMA

Hora de curtir: 7 curtas-metragens indicados ao Oscar 2019

No dicionário Houaiss, curta-metragem é definido como “um filme com duração de até 30 minutos, de intenção estética, informativa, educacional ou publicitária, geralmente exibido como complemento de um programa cinematográfico”. Para a Academia, um curta é considerado qualquer filme com duração de até 40 minutos, incluindo os créditos. Na premiação mais conhecida do cinema, o Oscar, são três as categorias que buscam premiar curta-metragens: live-action, animação e documentário. No ano de 2019, cada categoria recebeu cinco indicações. Entre nos fazer pensar, sentir, sorrir e chorar, selecionamos alguns dos curtas indicados para você conhecer.

A Night At the Garden

Documentário • Estados Unidos • 7min • 4/5

Quando pensamos em atrocidades de larga escala, o Holocausto sendo o grande exemplo, conjuntamente pensamos em como puderam deixar algo assim acontecer. A técnica não é tão difícil: desumanizar pessoas; reduzi-las a animais, àquilo que é menos que humano. É utilizar o rótulo daquilo que causa repulsa; que é visto com maus olhos. Fazendo isso, o “humano” é mais do que aquele de quem se roubou a humanidade. Fazendo isso, cria-se distância daquilo que acontece com as pessoas que não são humanas.

A técnica antiga é utilizada até hoje. O escudo do “é só minha opinião”, das crenças em superioridade de raça, religião, orientação sexual ou classe, movem para frente a ideia de que alguns valem mais do que outros. Abrir espaço para que essas “crenças” cresçam, para que os “é só minha opinião” ganhem força, é estar abrindo espaço para que atrocidades voltem — e estão voltando — a acontecer; é dar concordância tácita para que atrocidades jamais deixem de ocorrer.

Os horrores que já vimos, os horrores ainda maiores que logo veremos, são sinal não de que os homens rebeldes, insubordinados e indomáveis estejam aumentando em número no mundo todo, e sim de que aumenta constantemente o número de homens obedientes e dóceis”, é o que diz George Bernanos, jornalista e romancista francês. O curta de Marshall Curry, editado a partir de filmagens de um desfile do partido nazista que lotou o Madison Square Garden em 1939, não precisa mais do que sete minutos para cumprir o exato papel a que se propôs: refletir sobre como a passividade pavimenta o caminho para o horror. Fritz Julio Kuhn, o líder da organização nazista nos Estados Unidos na época, promovia o discurso de “devolver o país às origens”. O mesmo discurso é hoje reciclado em campanhas políticas.

At Night at the Garden é um curta simples e poderoso. Sua mensagem ressona e conversa, de muitas maneiras, com Infiltrado na Klan, filme de Spike Lee indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Montagem e Melhor Trilha Sonora. É uma boa indicação, de muitas maneiras pertinente aos dias atuais.

Animal Behaviour

Animação • Canadá • 14min • 3/5

Uma sessão de terapia é casa para muito plot interessante ser desenvolvido. Tramas inteiras são destrinchadas utilizando a terapia como recurso. Então, nada novo quanto a isso. A novidade em Animal Behaviour é colocar animais nesse ambiente, no melhor estilo BoJack Horseman.

Roteirizado e escrito por Alison Snowden e David Fine, o curta acompanha uma sessão de terapia em grupo para animais com grandes problemas: uma louva-a-deus que come seus parceiros; uma sanguessuga acusada de ser preguiçosa por seu namorado; um porco com compulsão alimentar; um passarinho com trauma de infância; uma gata introvertida; e o novo membro do grupo de apoio, um macaco com dificuldade em controlar a raiva. A sessão é guiada por Dr. Clement (na voz de Ryan Beil), um pitbull terapeuta.

Falar sobre impulsos incontroláveis e naturais e ódio a si mesmo parece ser o cerne da questão em Animal Behaviour — por certo o pitbull terá um ataque de raiva quando provocado da mesma maneira que vai querer buscar o graveto quando atirado pela janela. É uma distração divertida.

Bao

Animação • Canadá/Estados Unidos • 8min • 3,5/5

Com direção e roteiro de Domee Shi, a primeira mulher a dirigir um curta nos 32 anos de história da Pixar, Bao acompanha uma mãe sofrendo com a Síndrome do Ninho Vazio. Quando um bolinho ganha vida, a possibilidade da maternidade reacende na vida da personagem. A mãe e seu bolinho trilham uma jornada amorosa, cheia de cuidados, passeios, trocas e, como qualquer jornada de crescimento, um eventual distanciamento. Filhos são criados para o mundo e em Bao, nem com o seu bolinho há de ser diferente. Bao participa de atividades com a mãe, mas logo cria seus próprios interesses. Bao cresce, passa pela rabugenta fase da adolescência e então cresce um pouco mais, conhece uma mulher, noiva e sai de casa. Enquanto isso, a mãe passa a se sentir triste e sozinha.

Nos momentos finais do curta sabemos que se trata de uma transferência, sendo o bolinho a representação de seu filho de carne e osso e que trilhou a mesma jornada. O filho, nos momentos finais, retorna para casa para dividir um momento significativo com a mãe.

O nome do curta vem da cozinha chinesa, e é um tipo de pão cozido a vapor, que pode levar diversos tipos de recheio. Bao é simples e adorável, a ilustração lembra os sucessos da Pixar, mas há originalidade nos traços. É uma opção rápida para quem quer aquecer o coração.

Black Sheep

Documentário • Reino Unido • 27min • 5/5

I can’t control how people react to my story. I can only try and make them understand my perspective” [“Eu não posso controlar como as pessoas reagem à minha história. Só posso tentar fazê-los entender minha perspectiva”]. Era novembro de 2000 quando Damilola Taylor, um menino de onze anos, foi morto em Londres, na Inglaterra. Cornelius Walker, que tinha a mesma idade de Taylor na época, viu sua vida mudar quando, prezando pela proteção do seu filho, sua mãe decide que a família deve deixar a multicultural capital inglesa em busca de uma realidade mais calma e segura no subúrbio Essex. O que o garoto Cornelius, negro, com pais de origem nigeriana e serra-leonense, encontra em Essex são famílias de “bem” e gangues racistas. O que antes parecia seguro, então se torna um local hostil.

Após sofrer episódios de racismo e agressões de colegas de escola, Cornelius busca se adaptar ao seu ambiente. Fazendo uso de cremes clareadores e lentes de contato azuis, o objetivo é parecer mais branco, mais como seus possíveis novos amigos – aqueles mesmos que, um tempo atrás, o agrediram física e psicologicamente. Pertencer é o seu desejo, e fazer isso às custas de ouvir em silêncio comentários racistas e assistir em silêncio atitudes racistas parece um bom preço a se pagar – até que ele percebe que não é. O curta é a epítome do “não sou racista, até tenho amigos que são [negros]”, que conta uma história de quase vinte anos atrás e que, assim como A Night At the Garden, fala muito sobre os dias de hoje.

Em artigo publicado no The Guardian é possível conhecer um pouco mais da vida pessoal de Cornelius Walker, sua busca pela própria identidade e amor-próprio, muito do que é, também, apresentado em Black Sheep. Com direção de Ed Perkins, o documentário flerta com o drama. A narrativa conduzida por Walker é interpretada por Kai Francis Lewis, de maneira que é preciso um pouco de tempo para entendermos que se trata de um documentário e não de um live-action. É artístico, sensível e necessário.

End Game

Documentário • Estados Unidos • 40min • 4/5

“Para morrer basta estar vivo” é uma frase que escuto há anos da mulher mais sábia do mundo — minha mãe. Realmente, ela está certa. A morte é a nossa única certeza na vida e, ainda assim, não lidamos muito bem com ela, menos ainda podemos prevê-la. No documentário End Game (A Partida Final, em português), disponível na Netflix, os diretores Rob Epstein e Jeffrey Friedman nos levam para os quartos e corredores de hospitais e casas de repouso onde A Morte está logo ali. Conhecemos Thekla, uma idosa ansiosa para saber o que está por vir; Pat, uma mulher que descobriu um câncer agressivo no útero; Bruce, um senhor que, após desistir da hemodiálise aceitou ser movido para o Zen Hospice, um centro de cuidados paliativos; e, principalmente, Mitra e sua família.

A jornada de Mitra é de uma mulher ativa e divertida, de 45 anos, mãe de um menino de oito, que descobre um câncer incurável. Boa parte do curta orbita em torno da difícil aceitação da família de Mitra em aceitar que a mãe, esposa, filha e irmã está morrendo, sem chances de cura, que se distancia — por conta da doença e da medicação — da mulher que um dia foi.

O documentário é sensível e pontual. Fala da morte com naturalidade, não como se fosse uma amiga da qual tenhamos que fazer amizade, mas com os benefícios de se fazer paz com a inevitabilidade em torno dela. A morte chega para todos. É a forma como a recebemos que pode mudar.

Fauve

Live Action • Canadá • 17min • 5/5

Com roteiro e direção de Jérémy Comte, o curta acompanha Tyler (Félix Grenier) e Benjamin (Alexandre Perreault) em um dia de brincadeiras ao ar livre, entre trilhos de trem, casas abandonadas, maquinários e meios de transportes típicos de uma mineradora. Em um primeiro momento, Fauve emula uma história simples sobre amizade entre dois garotos, que é movida a disputas, camaradagem e competições, da maneira que muitas amizades nessa idade são. Filmado, inicialmente, em estilo livre, o curta parece caminhar para um dia de verão comum, o que serve de contraste quando a filmagem se torna estabilizada, com shots longos, no ambiente inóspito e cinza da mineradora.

Baseado em um pesadelo recorrente do diretor, o que era leve logo se transforma em terror para os garotos que, brincando, percebem que o solo da mineradora nada se parece com o solo que estão acostumados a pisar — é um solo nada receptivo, que consome, pouco a pouco, como areia-movediça, o que e quem se arrisca a se colocar no local. Quando Tyler sai em busca de ajuda para Benjamin e nada nem ninguém encontra, o desespero do garoto atinge em cheio o telespectador, intensificado quando o menino retorna ao local e não encontra mais o amigo. De impacto inegável, o curta é visceral. Os dezessete minutos de Fauve ressonam além dos créditos finais. O gosto bom da liberdade, o flerte com o perigo e a perda da inocência são alguns dos elementos costurados com maestria no curta.

Tendo Jérémy crescido no interior de Quebec, foi importante para o cineasta mostrar a perspectiva de uma criança, com as devidas frustrações que acompanham a idade. A atuação natural e mundana dos meninos não é à toa, visto que é a primeira de ambos os garotos, resultado de mais de cinquenta audições em escolas locais da região. Fauve foi lançado em janeiro de 2018, e já levou pra casa mais de vinte prêmios, sendo bem recepcionado pela crítica do Festival Sundance de Cinema. Apesar de o curta ser do ano passado, é difícil assisti-lo sem associá-lo ao crime ocorrido em Brumadinho, Minas Gerais, em 25 de janeiro desse ano, onde uma barragem de uma mineradora se rompeu, fazendo, no dia de hoje, aproximadamente duzentas vítimas, além de mais de uma centena de desaparecidos. Por esse motivo, talvez, assistir ao curta pode tocar em uma ferida bem aberta do brasileiro. O curta-metragem é um dos favoritos a receber a estatueta e, realmente, é um curta para mexer com nossos sentidos.

One Small Step

Animação • Canadá • 8min • 5/5

Após deixar a Walt Disney Estúdio de Animação, Shaofu Zang, um dos artistas responsáveis por Big Hero, Moana e Zootopia, criou sua própria companhia, a Taiko Studios, um estúdio onde as histórias criadas falam de otimismo e inclusão de uma maneira a atingir os mais variados públicos.

O primeiro projeto da Taiko, One Small Step, animação de Andrew Chesworth e Bobby Pontillas, é sobre Luna, uma menina apaixonada pelas estrelas, pela lua, por foguetes espaciais. Seu grande sonho é ser astronauta. O pai da garota, um sapateiro e pessoa simples, apoia os sonhos da filha engajando em suas brincadeiras e presenteando-lhe com sapatos de “astronauta”. O curta traz muito do amor fraternal que podemos vislumbrar, também, em Bao. É também um curta sobre crescer, trilhar o próprio caminho, ver suas expectativas frustradas e, apesar de tudo, não desistir.

Ainda que utilize de alguns clichês para contar a história, o filme emociona na mesma medida em que aquece o coração. É uma história sobre sonhos, sobre família, e sobre persistência.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 comentários