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O som do tapa (que às vezes é abafado)

Em entrevista concedida ao site do Itaú Social em novembro de 2020, a romancista, contista e poeta mineira Conceição Evaristo define o termo “escrevivência”, palavra que estaria no título do livro a respeito de sua obra Escrevivências: A Escrita de Nós – Reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo.

“Se pensar bem a genealogia do termo, vou para 1994, quando ainda estava fazendo minha pesquisa de mestrado na PUC. Era um jogo que eu fazia entre a palavra “escrever” e “viver”, “se ver” e culmina com a palavra “escrevivência”. Fica bem um termo histórico. Na verdade, quando penso em escrevivência, penso também em um histórico que está fundamentado na fala de mulheres negras escravizadas que tinham de contar suas histórias para a casa-grande. E a escrevivência, não, a escrevivência é um caminho inverso, é um caminho que borra essa imagem do passado, porque é um caminho já trilhado por uma autoria negra, de mulheres principalmente. Isso não impede que outras pessoas também, de outras realidades, de outros grupos sociais e de outros campos para além da literatura experimentem a escrevivência. Mas ele é muito fundamentado nessa autoria de mulheres negras, que já são donas da escrita, borrando essa imagem do passado, das africanas que tinham de contar a história para ninar os da casa-grande.”

Carla Guerson, embora não seja uma mulher negra, se compromete com todos os sentidos da palavra cunhada por Conceição Evaristo. Coordenadora do coletivo Escreviventes, Carla tem outras formas de por o verbo escreviver em ação que não através deste grupo de mulheres que registra suas histórias através da palavra escrita. É principalmente nos textos que a autora põe em prática a escrevivência. O Som do Tapa é uma coleção de contos curtos que contém uma rica variedade de histórias contadas com o claro compromisso de (d)escrever as vivências pouco vistas: a de mulheres em seus cotidianos.

O som do tapa

Se ao longo do tempo, o lugar da mulher foi sendo estabelecido pela sociedade como algo doméstico e caseiro, o homem, em contrapartida, foi ganhando o mundo. As construções sociais antigas que ainda se mantêm de pé estabelecem para tudo aquilo alinhado ao masculino a possibilidade de ser visto, analisado, estudado, aceito, canonizado e celebrado. As artes mais populares e enaltecidas são um reflexo deste olhar masculino, e não é diferente na literatura: a maioria dos autores e protagonistas são homens, e os temas mais recorrentes são aqueles que lidam com experiências supostamente universais. Há pouca produção de obras a respeito do ambiente doméstico, do pequeno, do detalhe, do não visto e isto também é consequência da pouca disponibilidade que as mulheres encontram em suas vidas para escrever, e quando o fazem, são criticadas e suas obras reduzidas a categorias supostamente menores, ou ainda massacradas pela crítica — composta, não surpreendentemente, por uma maioria de homens.

Ainda que essas definições venham se transformando com o tempo, aquilo que vivem as pessoas socializadas como mulheres permanece não recebendo tanta visibilidade. Não só a produção feminina ainda é menor e recebe menos espaço, mas os temas — que trazem tanta universalidade quanto os outros — ainda são predominantemente alinhados com a experiência masculina. Não deveria ser, mas ler histórias passadas principalmente em um ambiente relegado a mulheres (o lar, a casa, a criação de filhos) ainda é raro. Chega a ser surpreendentemente bom como uma brisa fresca num dia quente quando podemos ler várias narrativas sob o ponto de vista de mulheres. Ao longo de vinte e oito contos, O Som do Tapa contraria a máxima que afirma que “todas as histórias já foram contadas.” Aqui, vemos as histórias de avós, mães e filhas. Temos acesso a mulheres narrando e fazendo parte de narrativas que contam o que ainda não foi dito, ou ao menos, não tão dito assim.

Além de ter uma linguagem simples e direta, outro aspecto que torna o livro fácil de ler rapidamente é o fato de que muitos dos contos nos fazem querer devorá-los. Se utilizando de recursos bastante variados — como uma parede que narra os acontecimentos que testemunha silenciosamente, experimentos com a maneira de narrar, ou mesmo mudanças inesperadas no rumo dos fatos — os textos nos prendem, de forma que acaba sendo difícil largar as páginas até que todas sejam viradas.

O que mais impressiona é que, ainda que a temática esteja sempre próxima de um universo interior ainda poucas vezes visto na literatura e na arte em geral, os temas seguem diversos e abordam muitos pontos da vivência de todos os seres humanos, mas sob a ótica e dentro do cotidiano comum às mulheres. A solidão, as tentativas de controle, a dificuldade de se sentir pertencente ao mundo, a sobrecarga física e emocional tão presentes na socialização feminina se mostram também em várias faces, em especial se relacionando à maternidade, que muitas vezes reúne todas essas questões em uma só experiência.

É com um olhar atento e sensível que Carla Guerson passa por pontos delicados e os torna visíveis. Embora todas sejam boas, algumas histórias são mais memoráveis porque ressoam num lugar mais profundo. Um dos contos mais tocantes é “Parede”, que, sob o ponto de vista de um narrador incomum, acompanha toda a vida dos moradores de uma casa até que passem por uma tragédia que os faz desmoronar. Também é impactante a história que dá título ao livro. “O Som do Tapa” é uma narrativa ágil e introspectiva que revela uma das pequenas violências abafadas no cotidiano. Leitores e personagem conseguem sentir a angústia daquela dor, cuja força muitas vezes reverbera apenas nos silêncios “Primeira Vez” conta algo pouquíssimas vezes retratado sem muitos rodeios: de forma direta, mas muito sensível e realista, a trama acompanha as tensões e inseguranças de uma mãe que acabou de ter seu primeiro bebê e tenta retomar sua vida sexual. Além disso, outras histórias trazem um leque amplo de personagens e narrativas que vão acompanhando as dores e pequenas alegrias do cotidiano feminino, como “Hoje Não” que acompanha um dia de folga auto-definido por uma mulher cheia de afazeres. Junto com a personagem, sentimos a leveza de deixar de lado as obrigações — ainda que elas não deixem seus pensamentos.

Além destas, há muitas outras narradoras e personagens muito bem construídas em um curto espaço, e este é um grande mérito da autora: dizer muito do que é não dito com muito pouco. Como um tapa, que num só gesto comunica muito mais que todo um discurso e cujo som e sensação ressoam por um longo tempo no nosso corpo, como a literatura de Carla Guerson. Muitas vezes, só um tapa é capaz de nos fazer parar para olhar o que ainda não foi visto, como as histórias aqui narradas.

É importante não só se ver nas páginas — o que acontece quando nos identificamos com aqueles lugares e pessoas —, mas O Som do Tapa também é um livro que deveria ser lido por quem não se enxerga em tais identidades e locais, porque é, como Conceição Evaristo definiria, uma escrevivência sobre o universo feminino que faz com que as pessoas tenham contato com aquela experiência coletiva comum à toda uma classe que nem sempre é vista.


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