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De Volta Para Casa: normal é ser quem você é

Crescer é uma merda. Essa constatação é válida quando se tem 5, 10, 20, 30, 40 anos e assim por diante. Quando a gente se acostuma e se sente um pouco mais seguro nesse mundo e nesse corpo que habitamos — dizem — aí começamos a envelhecer, e isso também deve ser uma merda. Dor e inadequação fazem parte da condição humana, não tem muito pra onde fugir. No entanto, desconfio que algumas fases são mais difíceis pelo simples motivo de algumas dores serem levadas menos a sério que outras, o que só adiciona mais uma cama de sofrimento à experiência. Estou falando da infância e da adolescência, duas experiências que são romantizadas e subestimadas em igual medida, e a consequência nesses dois casos é a mesma: o sentimento de incompreensão. Esse é um dos principais temas de De Volta Para Casa, novela de Seanan McGuire publicada esse ano pela Editora Morro Branco.

Atenção: este texto contém spoilers!

Logo nas primeiras páginas conhecemos Nancy, uma adolescente que é levada para um internato depois que sua família simplesmente desiste de tentar entendê-la. Nancy é adolescente, mas seus problemas não envolvem sexo (chegaremos lá), drogas ou rock ‘n roll — é um pouco mais complicado que isso. Um belo dia, Nancy encontrou um porta misteriosa no porão de sua casa, um portal mágico que a levou aos Salões dos Mortos. Lá ela conheceu o Senhor dos Mortos, tornou-se sua discípula e por anos viveu como habitante daquele mundo, lugar em que ela finalmente descobriu sua verdade, que era a de se parecer cada vez mais com uma estátua: imóvel, fria, alheia ao universo ao redor. É uma descrição que se parece muito com a de um cadáver ou um fantasma, e ter isso como verdade pode parecer meio estranho até para uma adolescente neogótica como nossa nova amiga Nancy, mas essa é a vantagem de estar no seu próprio mundo — quando se está em casa, não é estranho ser quem você é.

Sua temporada nos Salões dos Mortos durou anos, mas no mundo real passaram-se apenas alguns meses. O choque da volta foi uma espécie de aventura no País das Maravilhas às avessas. Enquanto Alice cai na toca do Coelho e se encontra num universo em que seu corpo muda de tamanho toda hora e conversas incompreensíveis acontecem o tempo inteiro ao seu redor — pela boca de lagartas, gatos sorridentes e chapeleiros malucos —, para Nancy essa maluquice é transferida para o lugar que entendemos como mundo real, dentro da suposta normalidade. Ao retornar, ela sente o tempo inteiro que não faz mais parte desse mundo e as pessoas ao seu redor só reforçam o sentimento de inadequação apontando seus defeitos. Ela é magra demais, fria demais, fala de menos, gosta de roupas estranhas, tem mechas brancas no cabelo e precisa constantemente se lembrar de respirar e comer.

O fato de a garota esquecer desses gestos tão básico para a nossa sobrevivência não significa que ela queira morrer — embora deseje voltar para os Salões dos Mortos e fantasie com o Senhor dos Mortos — mas é apenas uma dentre as várias metáforas que Seanan McGuire usa para dar forma a essa sensação de desconexão e não pertencimento. Levá-la ao plano físico, na forma de uma garota que, para se adequar, precisa se lembrar constantemente de inspirar e expirar, é uma maneira de levar a sério seus sentimentos e suas experiências. Esse gesto de empatia se estende a todos os personagens da história, como um movimento da autora para celebrar e acolher as diferenças, e também da própria protagonista, que tem nesse exercício sua principal lição ao longo de De Volta Para Casa. Ela não é a única que está sofrendo.

O que Nancy descobre ao chegar no internato é que aquele lugar disfarçado de escola é, na verdade, uma casa de acolhimento para crianças e adolescentes que passaram pela mesma experiência além-mundo que ela. O Lar de Eleanor West Para Crianças Desajustadas abriga aqueles que encontraram um porta para outra dimensão, seja embaixo da cama, dentro de armário, em tocas de coelho ou em portas que surgem do nada. “Crianças desaparecem o tempo inteiro”, diz a sinopse do livro e também várias histórias infantojuvenis que fazem parte do nosso imaginário, como a já citada Alice no País das Maravilhas, As Crônicas de Nárnia, Coraline e até o moderno Mundo Invertido de Stranger Things. A própria Eleanor West, descobrimos depois, foi uma dessas crianças, e sua missão é ajudar seus alunos no processo de readaptação com o “mundo real”, que nunca é fácil.

Existem muitos outros mundos além do nosso e do Salão dos Mortos de Nancy. Em vez de norte, sul, leste e oeste, os pontos cardeais do universo criado por McGuire são Absurdo, Lógica, Virtude e Malícia, e tê-los conhecido é algo que muda profundamente todos os personagens — para o bem e para o mal. Alguns, como Nancy e a própria Eleanor, encontraram um lar fora desse mundo, e desejam desesperadamente voltar, pois sabem que não vão se sentir em casa em outro lugar; já outros acabam visitando mundos horríveis e o trauma também os torna incapazes de seguir normalmente com suas vidas. Sumi, que vem a ser a colega de quarto de Nancy, por exemplo, visitou um mundo de Alto Absurdo, completamente nonsense, e assim a realidade que conhecia antes parou de fazer sentido. Kade, um de seus primeiros amigos, foi confundido com uma garota e por isso foi parar na Terra das Fadas, mas foi expulso de lá quando elas perceberam que ele era um garoto que só se parecia muito com uma menininha. Sua família também não o quis de volta por também não aceitá-lo como ele era, ou seja, um menino. Parece familiar?

Os elementos fantásticos em De Volta Para o Lar são excelentes alegorias para falar de saúde mental e identidades não-normativas, como o fato de Kade ser um garoto transgênero. A história não se aprofunda nessa característica do personagem, mais implícita do que declarada, mas isso não chega a ser um defeito da obra, uma vez que a ideia é justamente não defini-lo a partir desse aspecto. De forma mais ou menos parecida, descobrimos que Nancy é assexual, ou seja, alguém que não sente atração sexual por outras pessoas. Para a personagem isso é algo bem resolvido, principalmente porque é uma forma de viver sua sexualidade que faz todo sentido nos Salões dos Mortos. Ao explicar sua relação com o Senhor dos Mortos, por quem ela é apaixonada, Nancy resolve de forma simples e clara a diferença entre pessoas assexuais e arromânticas, e o mesmo acontece quando ela diz não estar interessada em fazer sexo com um garoto da escola simplesmente porque não se sente atraída por pessoas dessa forma. Simples assim.

Esses detalhes não são essenciais para o desenvolvimento da trama, mas são aspectos interessantes na construção de mundo feita pela autora. Com bastante habilidade, Seanan McGuire subverte ideias de padrão e normalidade ao construir uma narrativa sobre personagens inadequados e fora da norma que encontraram um universo paralelo em que suas identidades fazem sentido, mostrando que padrão e normalidade são apenas uma questão de perspectiva. O fato de todos desejarem desesperadamente voltar para casa — seja essa casa o outro mundo em que visitaram ou uma realidade que não é definida pelo trauma — carrega a história de uma melancolia profunda, ainda que percebida de forma sutil no decorrer da trama. De Volta Para Casa é uma obra madura e corajosa ao adotar como mensagem a ideia de que certas faltas talvez nunca sejam preenchidas, e talvez ninguém realmente se sinta adequado e nunca vai se sentir. Crescer é uma merda e o livro não quer nos convencer do contrário. O consolo está em saber que não somos os únicos a nos sentir assim e que podemos encontrar lares, ainda que imperfeitos, uns nos outros, e isso pode ser uma força poderosa. Esse é o real propósito da casa de Miss West e são esses encontros que fazem esse livro ganhar nosso coração.

Em formato de novela, com menos de 200 páginas, De Volta Para Casa é uma leitura muito dinâmica. Próxima do realismo fantástico e da fantasia urbana, a narrativa de McGuire não perde muito tempo explicando sua própria mitologia, mas isso não faz falta, uma vez que as ideias têm raízes bem fincadas na realidade do que é ser humano, e isso dispensa explicações. Como espinha dorsal da história há uma trama de assassinato misterioso que nos faz virar as páginas bem rápido, mas é algo que quase passa despercebido diante do trabalho grandioso que a autora faz com seus personagens, e é por isso que a resolução simples e até um pouco óbvia do mistério também não incomoda. O livro é o primeiro volume da série Crianças Desajustadas (Wayward Children, em inglês) publicado no Brasil, que já tem outros quatro livros e mais um a ser lançado, cada um focado em um dos alunos do Lar.

O grande trunfo de De Volta Para Casa, obra que foi vencedora dos prêmios Hugo e Nebulla — os mais importantes no terreno da fantasia e da ficção científica — é nos inserir nos pequenos universos dos personagens, num exercício profundo de empatia que nos faz ver o que parece estranho e inadequado como próximo, e trata nossa própria estranheza e inadequação como normal. Não é preciso entrar num portal para um universo distante para sentir, vez ou outra, que não pertencemos a esse mundo, mas a jornada dos personagens de nos ensina a olhar para os lados e nos encoraja a conhecer mais sobre o universo dos outros e a questionar toda e qualquer ideia de normalidade.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Morro Branco.


** A arte em destaque é de autoria da colaboradora Clara Browne. Para ver mais trabalhos da autora, clique aqui!

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