Categorias: LITERATURA

Procura-se um Namorado, de Alexis Hall

Luc O’Donnell é fruto de um relacionamento conturbado entre duas estrelas do rock dos anos 1980, o que significa que ele cresceu às margens da fama de seus pais e também de seus declínios. Pelo histórico do estilo de vida de seu pai, a mídia britânica, cruel como ninguém, traçou o destino de Luc para ser igual ao de seu pai: um grande fracasso.

Depois da publicação de uma foto comprometedora (e totalmente fora de contexto), Luc decide ir em busca de um namorado falso para convencer a todos de que sua vida não é um completo desastre e não correr o risco de perder o seu emprego. De alguma forma, ele convence ninguém mais ninguém menos que Oliver Blackwood, um advogado criminalista que não é muito fã de grandes aparições ou grandes interações sociais. Oliver aceita entrar nessa enrascada de ser o namorado falso de Luc e convencer a grande mídia e a alta sociedade britânica que ele tem a sua vida nos eixos, enquanto Luc precisa acompanhá-lo na festa de bodas de rubi de seus pais logo após um grande evento importante no trabalho de Luc.

Atenção: este texto contém spoilers!

Procura-se um Namorado é a primeira comédia romântica de Alexis Hall publicada no Brasil pela Editora Paralela. Divulgada com comparações a Vermelho, Branco e Sangue Azul, de Casey McQuiston, os dois não vão mais longe do que comédias românticas adultas em cenários britânicos que tem como proposta um falso namorado e um clichê hate to lovers [inimigos a amantes]

Enquanto Oliver e Luc concordam em um relacionamento falso apesar de um não suportar o outro, em nenhum momento o leitor é convencido de que eles realmente não gostam um do outro ou que aquilo é de fato um relacionamento de interesse. Desde o primeiro instante está na cara que Oliver é apaixonado por Luc e apenas tem obstáculos para se expressar, enquanto Luc se sabota devido aos traumas passados.

Procura-se um Namorado possui uma forte conexão com a Inglaterra, não apenas em seu cenário, Londres, mas em seus personagens que atuam como caricaturas de diversos grupos, além do tipo de humor usado em algumas cenas. O retrato da alta sociedade que está muito enraizada em seus costumes e não possui nenhum tipo de interesse em uma abertura para mudar seus conceitos também não é novidade. Em uma tentativa de denunciar essa sociedade nacional em um pequeno núcleo, o que temos são personagens que não são questionáveis ou minimamente interessantes, cenas que são difíceis de ler e absorver.

Luc começa a sua jornada em busca de alguém para ser o seu par perfeito a partir de um episódio homofóbico em seu ambiente de trabalho, em que o seu “estilo de vida” não condiz com o aceitável pelos doadores da ONG em que trabalha. Luc escolhe Oliver para ser seu parceiro por ele ter o perfil de gay socialmente aceitável pela alta sociedade britânica. Ao longo da narrativa, Luc e Oliver aceitam ofensas e abusos com o argumento de que a sociedade é assim e eles têm que se encaixar nela, o que nos transmite veracidade em uma parte porém, em alguns momentos, se transforma em algo doloroso demais e sai da proposta de comédia romântica.

“Porque, quando permito que alguém entre na minha vida, das duas, uma: ou a pessoa vai continuar me aguentando embora eu não mereça isso de ninguém; ou a pessoa pisa em mim e vai embora.”

Em 422 páginas, muitas caixinhas são abertas pela narrativa junto de alguns gatilhos que são usados como argumentos, mas nunca devidamente discutidos ou digeridos de forma correta em prol da leveza do gênero do romance, como se o autor quisesse deixar evidente a problemática em torno da existência de pessoas LGBTQIA+, mas não quisesse abrir mão dos clichês do gênero e responsabilizar as pessoas devidas por seus comportamentos homofóbicos e racistas.

Conseguimos tirar proveito da leitura no momento em que os nossos protagonistas percebem como não podem negar o que sentem um pelo outro e, naturalmente, o seu “namoro falso” se transforma em um relacionamento de verdade, apesar deles ainda se esforçarem em dizer que tudo aquilo ainda era um acordo. Nesse momento ambos baixam suas guardas e se deixam levar pelo porto seguro que um se transforma para o outro. Enquanto Luc entende que sua visão de si mesmo foi moldada por tabloides e o abandono de seu pai, e que ele é muito mais e merece muito mais do que lhe fazem acreditar; Oliver começa a sua jornada em entender que ele pode ser quem ele é e não apenas ser a pessoa que seus pais e a sociedade esperam que ele seja.

Procura-se um Namorado é uma comédia romântica com um humor tipicamente britânico e consegue retratar características de seu cenário, nos proporcionando momentos em que nos tira um sorriso ao se envolver com o universo particular de seus protagonistas, porém nos lembra constantemente como é dolorido o processo de nos tornar nossas próprias pessoas.

“Ele sorriu. Blackwood estava sorrindo. Para mim. Por mim. Por causa de mim.”

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Companhia das Letras.


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