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Americanah: o outro lado do estilo de vida americano

Hollywood, a grande indústria do cinema, é uma das percursoras em vender para o mundo um estilo de vida que virou sonho de consumo: o americano. Não é incomum assistir filmes que coloquem o país como o local propício para mudar de vida, crescer profissionalmente e fugir dos fantasmas do seu país de origem. No entanto, o problema da ficção é que ela se distancia da realidade onde vemos que o processo para conseguir um visto é longo e minucioso, onde os trabalhos disponíveis para estrangeiros vindos de países em desenvolvimento são os chamados subempregos e, por fim, onde a questão racial ganha relevância.

No livro, Americanah, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, revivemos esse roteiro sob um novo ângulo, mergulhamos de uma forma mais aprofundada nas nossas aulas de história da escola e entendemos a complexidade dos processos de colonização e migração para milhares de nigerianos que tentaram a sorte nos EUA, como é o caso da protagonista Ifemelu que narra sua história ao longo de 522 páginas.

“Ela vai voltar uma tremenda Americanah”, diz um amigo de Ifemelu a um integrante do grupo que partiria para as terras americanas nos próximos dias. A entonação da palavra para eles seria uma forma de demonstrar que a pessoa voltaria transformada pelos trejeitos e sotaques norte-americanos. Para Ifemelu, a experiência migratória se torna um processo de redescoberta. Ela, uma jovem nigeriana, fruto de uma cultura vinculada fortemente a religião e ao conservadorismo aterrissou em um país onde a negritude é vista com cautela (lê-se racismo) passou a se conectar com a sua origem por meio das palavras.

“Observações Curiosas de uma Negra Não Americana” é o nome do blog que IFem, como é conhecida pelos íntimos, criou para compartilhar sua visão e suas vivências em temas que estão em voga atualmente na sociedade como racismo, feminismo e os tão almejados padrões de beleza que beneficiam uma parcela bem específica da sociedade, indivíduos brancos e magros. O livro se divide entre a experiência da protagonista no país, sua decisão de volta a Nigéria, seu romance conturbado com Obinze e seus artigos afiados e bem objetivos sobre o peso do preconceito e da marginalização da população negra no país. Destaco aqui o período de eleições para presidente dos Estados Unidos em que Barack Obama se consagra vencedor e o momento em que pela primeira vez Ifemelu se sente representada.

“Não acredito. Meu presidente é negro como eu. Ela leu a mensagem algumas vezes, com os olhos se enchendo de lágrimas.” 

O peso da identificação é sem dúvida o ponto-chave do enredo, a protagonista rompe a todo momento com estruturas pré-estabelecidas e que muitas vezes a deixa em uma posição de vulnerabilidade. Os questionamentos são muitos: Quem são as mulheres capas de revistas? Como se relacionar com um homem branco? Devo alisar meu cabelo em nome de uma cultura? Quem sou eu em uma sociedade tão racista?

“O único motivo pelo qual você diz que a raça nunca foi um problema é porque queria que não fosse. Nós todos queríamos que não fosse. Mas isso é uma mentira. Eu sou de um país onde a raça não é um problema; eu não pensava em mim mesma como negra e só me tornei negra quando vim para os Estados Unidos. Quando você é negro nos Estados Unidos e se apaixona por uma pessoa branca, a raça não importa quando vocês estão juntos sem mais ninguém por perto, porque então é só você e seu amor. Mas no minuto em que põe o pé na rua, a raça importa. Mas nós não falamos sobre isso.” 

O romance foge daquilo que já está tão datado na literatura e nos mostra um pouco mais da cultura africana para além da história da escravidão. A Nigéria da adolescência de Ifemelu não é mais a mesma de quando ela volta, independente e com uma bagagem cultural e pessoal totalmente modificada. Temos o costume de ler livros que não exploram a cultura de outros países que não sejam os desenvolvidos e ricos, que não falam de raça e consequentemente de racismo, que não problematizam o preconceito e seus desdobramentos. Chimamanda provoca uma reflexão a cada diálogo e toca nas nossas feridas aos nos mostrar que a realidade está longe de ser igualitária. O livro não é sobre o nosso papel nessa luta e sim sobre a perspectiva de uma jovem negra que tenta se sentir representada em meio a esse cenário — o livro é sobre a vida real que corroí e mata.

Em maio do ano passado, na cidade de Minneapolis, nos Estados Unidos, o afro-americano George Floyd foi estrangulado pelo policial branco Derek Chauvin durante uma abordagem policial por ter supostamente utilizado uma nota falsa de vinte dólares no supermercado. Floyd ficou 9 minutos e 29 segundos com o joelho do policial em seu pescoço e gritava que não conseguia respirar. O caso gerou uma onda de protestos no país e ao redor do mundo. Muitos foram às ruas porque, assim como George Floyd, não estavam conseguindo respirar diante de dezenas atos racistas documentados diariamente. A cor da sua pele não deveria ser motivo de desconfiança e muito menos a causa da sua morte.

“Mas a raça não é biologia; raça é sociologia. Raça não é genótipo; é fenótipo. A raça importa por causa do racismo. E o racismo é absurdo porque gira em torno da aparência. Não do sangue que corre nas suas veias. Gira em torno do tom da sua pele, do formato do seu nariz, dos cachos do seu cabelo.”

Chimamanda e Ifemelu nos mostram que a realidade é nua e crua.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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