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Crítica: X-Men Apocalypse

Para falar sobre X-Men: Apocalypse é preciso, antes, olhar para seus antecessores, e também para além deles, quando a perspectiva de um filme sobre os personagens da franquia parecia muito distante. Desde a aquisição dos direitos das histórias dos X-Men pela Orion, em meados da década de 1980, até o lançamento de X-Men em 2000 pela Fox, foi necessário um longo processo de produção, nos quais seus direitos passaram de estúdio em estúdio sem qualquer resultado — o que fez com que a ideia, por muito tempo, parecesse impossível de ser tornar realidade.

De lá pra cá, muita coisa mudou: o que antes parecia impossível tornou-se não apenas realidade, mas se transformou em um verdadeiro sucesso. Ainda que não tenha sido o único filme baseado em histórias de super-heróis a ser lançado naquele período,  X-Men foi responsável por mudar a forma como esses filmes eram tratados, da produção à recepção pública, abrindo espaço para que outros pudessem fazer o mesmo. Diferente dos clássicos da década de 80, coloridos e caricatos, como o Batman de Tim Burton, os X-Men exigiam a seriedade e atenção de uma história que era também sobre preconceito e marginalização, com alegorias sobre raça e gênero e enredos complexos que muitas vezes se estendiam por meses nos quadrinhos, senão anos. Não é exagero dizer, portanto, que o herói cinematográfico como conhecemos atualmente começou a ser delineado a partir do primeiro X-Men, e só então foi desmembrado em novos contextos e narrativas.

É verdade que, se visto hoje, X-Men pode parecer bastante primitivo: seus efeitos são por vezes risíveis e seus personagens raramente fazem jus a suas contrapartes literárias. Ainda assim, não há como ignorar que, não fosse esse primeiro passo, muito mais tempo talvez fosse necessário para que o super-heróis, enquanto fenômeno cinematográfico, pudessem existir.

Em 2016, a franquia se encaminha para o desfecho do se reconhece como a segunda fase do seu universo cinematográfico, iniciada com Primeira Classe e seguido por Dias de um Futuro Esquecido, lançados, respectivamente, em 2011 e 2014.  Apocalypse é responsável por concluir o fio narrativo conduzido por seus antecessores, e não repetir o fracasso de Confronto Final, além de introduzir novos personagens que poderão conduzir arcos futuros e que aqui unem-se a outros já conhecidos pelo público, entrelaçando suas histórias pessoais ao conflito principal e construindo uma dinâmica relativamente nova — o que também se aplica ao vilão-título.

Introduzido durante um denso prólogo, Apocalypse (Oscar Isaac) é visto pela primeira vez durante um ritual religioso no Antigo Egito, utilizado para mantê-lo vivo por gerações e expandir seus poderes a partir das habilidades de outros mutantes. Na época, mutantes não eram vistos como aberrações, mas como seres superiores, alçados ao status de deuses terrenos, e tanto Apocalypse quanto seus quatro cavaleiros são representações muito claras disso. Porque a cerimônia não ocorre como esperado, no entanto, o vilão termina por cair em um sono milenar, sendo desperto séculos mais tarde.

É no ano de 1983 que a história realmente se desenvolve, quando Apocalypse é acidentalmente desperto durante uma exploração dos destroços de um acidente. Quando isso acontece, Xavier (James McAvoy), Mística (Jennifer Lawrence) e Magneto (Michael Fassbender) vivem caminhos separados: Xavier é professor e dono de uma escola para jovens mutantes, onde deposita todo o seu tempo; Mística, agora um rosto famoso e uma heroína nacional, tenta viver o mais anonimamente possível, enquanto Magneto busca distanciar-se de um mundo que sempre o enxergou como o vilão. Somente com o despertar de Apocalypse e seu plano de dominação mundial é que a história dos três novamente se entrelaça, não necessariamente de modo a aproximá-los, mas talvez afastando-os ainda mais.

Diferente de outras franquias, X-Men construiu seu universo de maneira singular, com personagens cujo passado nem sempre fora explorado em profundidade. Sua segunda fase tem a necessidade de resgatar suas próprias origens, estabelecendo heróis muito bem desenvolvidos em filmes pregressos como pessoas ainda inexperientes e meio deslocadas, que não sabem quem são ou o que fazer com suas habilidades. É uma maneira de renovar a franquia, mas principalmente construir uma conexão mais forte com o público, que encontra nesses jovens algo com o que se identificar. Se Primeira Classe apresenta versões mais jovens de Magneto, Mística e Xavier, Apocalypse acerta ao introduzir os jovens e ainda inexperientes Ciclope (Tye Sheridan), Jean Grey (Sophie Turner) e Noturno (Kodi Smit-McPhee), e entre passeios no shopping, idas ao cinema e atos de heroísmo, o filme revela seu lado mais jovial e alegre. Não demora para que este aspecto seja eventualmente eclipsado pelas ações do vilão, mas são eles que adicionam nuances ao filme, recuperando o que existe de mais humano em seus personagens.

Jean Grey e Mercúrio (Evan Peters), no entanto, ganham destaque especial. Como uma das personagens mais importantes do universo dos X-Men, Jean começa a dar os primeiros passos em direção a um protagonismo, que mescla sua força e poder a momentos solares e despretensiosos da adolescência. Mercúrio, por outro lado, retorna como um reforço contra Apocalypse, mas é também movido por questões pessoais. A menção ao seu possível parentesco com Magneto é feita sem rodeios, mas é apenas uma das muitas questões mal desenvolvidas pelo roteiro, que falha ao não dispensar maior carga dramática à trama ou mais atenção às implicações tanto para Mercúrio quanto para Magneto. Mercúrio ganha mais importância na história — seus poderes são melhor utilizados e seu tempo de tela cresce em proporção —, mas é uma possibilidade desperdiçada, que poderia abrir espaço para relações mais complexas para além do eixo Xavier-Mística-Magneto.

De fato, há muito com o que o roteiro de Apocalypse não consegue lidar — em partes, porque sua proposta tão ambiciosa torna difícil a tarefa de concretizar aquilo a que se propõe. São muitos acontecimentos, muitos personagens e questões que são apresentadas, mas nem sempre desenvolvidas e resolvidas, em um filme que se constrói como um épico, mas nunca atinge o verdadeiro ápice — e aí é decepcionante perceber que, após dois filmes muito bem-sucedidos, seja justamente o terceiro a desequilibrar a equação mais uma vez.

O exemplo mais claro talvez seja o próprio Apocalypse: de um vilão diferente de qualquer outro, com um histórico bem definido e um poder de alcance desconhecido, ele se transforma em uma figura ingênua, enlouquecido por sua busca por poder, em um desfecho simplório e pouco inspirado. A destruição parece a única consequência deixada por ele, não sendo possível entrever o impacto causado na vida daqueles que ali estavam e que não deixariam de estar após sua destruição. O mau aproveitamento do vilão também revela o quanto existe a ser desenvolvido nesses personagens. Se são eles que colocam a história em movimento, se são eles a ameaça que deveríamos temer, o horror a ser combatido, o que acontece quando eles não são convincentes o suficiente, quando nunca são capazes de mostrar seu verdadeiro potencial?

Também vale mencionar os cavaleiros que auxiliam Apocalypse em sua busca por poder e controle, tão pouco explorados quanto ele próprio. Psylocke (Olivia Munn) talvez seja a decepção mais profunda, principalmente em vista da expectativa construída por trailers e entrevistas nos meses antecedentes à estreia do longa. No filme, Psylocke entre muda e sai calada; seus poderes, que vão muito além do físico, são amplamente ignorados, e somente aquilo que é visível se torna uma qualidade — incluindo seu corpo, sexualizado sem qualquer objetivo que não atrair o olhar masculino. É impossível não questionar as recentes declarações da atriz que, perguntada sobre a recusa a interpretar um papel em Deadpool, disse ter preferido dar vida à Psylocke, alegando que não queria ser apenas a namorada do herói — um argumento válido, mas que torna-se inconsistente em uma rápida comparação entre os dois papéis. Não há qualquer traço de complexidade em Psylocke, que escolhe juntar-se ao vilão sem qualquer razão que o justifique ou que indique o que a move (poder? aceitação? maldade? é impossível saber).

Ororo, a Tempestade (Alexandra Shipp), tampouco recebe atenção suficiente, embora possua mais espaço em comparação. É nesse espaço, ainda bastante restrito, que existe a possibilidade de vislumbrá-la como uma personagem realmente complexa — da menina pobre que vê em seus poderes uma saída para a sobrevivência até a heroína que deixa o lado inimigo tão logo percebe as verdadeiras intenções do personagem-título. Ao se juntar aos X-Men, Ororo ganha a chance de percorrer novos caminhos, podendo desenvolver-se adequadamente ao lado de personagens igualmente pouco aproveitados, como a jovem Jubileu (Lana Condor), cuja participação minúscula não a faz uma presença memorável.

Nem mesmo Mística escapa ao mal desenvolvimento do roteiro de Bryan Singer e Simon Kinberg, que tampouco encaram seus traumas e experiências passadas como potencializadores de sua trajetória individual. Em Apocalypse, Mística ganha maior independência e assume uma posição de liderança diante dos acontecimentos, muitas vezes sendo a única capaz de unir os dois pólos necessários para derrotar o vilão e transitando livremente entre eles — nada que torne seu arco particularmente notável ou que a impeça de ser objetificada pela câmera de Singer, no entanto. O fato de passar cada vez mais tempo descaracterizada tampouco enriquece sua narrativa pessoal, tornando, ao contrário, o discurso de aceitação e tolerância bastante contraditório.

No final das contas, Apocalypse consegue cumprir parte de seus objetivos, mas cumpri-los não significa ser um filme bem-sucedido. Novos personagens são apresentados de forma coerente e não há dúvidas de que, enquanto entretenimento, o filme alcança seu objetivo. Em todo o resto, Apocalypse é uma obra que erra muito mais do que acerta, e que, em comparação aos seus antecessores, é notoriamente inferior. Em uma história com tamanho potencial, é de se surpreender que o resultado final seja tão pouco equilibrado, que os momentos ruins se sobressaiam tão claramente aos bons e que seus esforços sejam, por fim, um desperdício tão grande. Dezesseis anos após a estreia do seu primeiro filme, X-Men precisa retornar às origens e relembrar o que o fez uma franquia de sucesso em primeiro lugar.

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1 comentário

  1. Resenha brilhante ao apontar o potencial que o vilão/personagens/enredo tem e que não chega a ser realmente cumprido, mas alguns pontos me incomodaram neste texto, como por exemplo, o figurino da Psylocke, que é idêntico ao da personagem nos quadrinhos e que foi uma exigência da própria Olivia Munn ao aceitar o papel; a falta de profundidade em conhecimento no mundo X-Men deixa algumas lacunas e trechos equivocados também.
    Em suma, concordo com o argumento geral da falta de aprofundamento das personagens e na forma que o diretor (que está na franquia desde o início [exceto em ‘O Confronto Final’]) promete desenvolver melhor os personagens e falha ao levar a história dos quadrinhos ao roteiro.