Categorias: LITERATURA

Deus Ajude Esta Criança: violência racista e maternagem patriarcal

Com muita tristeza li as notícias sobre o falecimento de Toni Morrison, em agosto deste ano. Por muitas vezes, durante muitos anos, Toni tomou minhas mãos nas suas e me explicou com palavras lindas o que acontecia na vida de nós, mulheres negras, e como acontecia. E notei uma coisa sobre suas personagens: frequentemente são mulheres que ousam estar ou reivindicar coisas que não lhes “pertencem”. Mulheres em movimento, todas elas: Sethe, Sula, Pecola, Claudia. Onde supostamente não deveriam estar. Isto fica ainda mais evidente em Deus Ajude Esta Criança, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras em 2018, e que traz uma narrativa em forma de fábula que surpreendeu muitos críticos. O motivo? O final com resoluções felizes. Para os leitores de Morrison, de fato, é uma surpresa. Mas uma surpresa grata, ao menos para mim.

Deus Ajude Essa Criança tem início com a narrativa de Mel, mãe de Lula Ann Bridewell, falando sobre as circunstâncias de nascimento da filha, do pavor que teve quando viu a pele muito escura da criança, ainda mais em relação à sua, clara, que lhe conferia privilégios como poder morar em um bairro menos violento como locatária. O pai logo abandona a família e cabe à Mel o cuidado com a menina: a mãe de Lula Ann recusa-se a tocá-la e a criança desenvolve uma intensa carência emocional e desejo de aprovação, o que culmina em um ato de desespero por parte de Lula para obter aprovação materna. Morrison volta o olhar para a parte mais frágil e mais impactada pelo racismo na sociedade: a criança negra, com sua psique em formação e já exposta a múltiplas violências.

“Ela era tão preta que me assustou. Preto meia-noite. Preto Sudão. Eu tenho a pele clara, o cabelo bom, o que chamam de pele oliva, e o pai da Lula Ann também. Não tem ninguém na minha família com uma cor daquelas.”

Quando a história de Lula Ann, protagonista de Deus Ajude Esta Criança, termina bem, há uma quebra de expectativa tanto da obra de Toni quanto do que é esperado da mulher negra enquanto personagem. Não se espera a redenção de Bride (nome que Lula Ann adota depois de adulta), não se espera que ela capitule sobre o que vem fazendo da vida, não se espera complexidade da personagem construindo a própria felicidade. As aproximações de Bride com Pecola, personagem de destino trágico de O Olho Mais Azul (cuja nova edição acabou de sair pela Companhia das Letras), talvez tenham feito com que alguns antecipassem um possível destino da criança Lula Ann, exposta desde tenra idade a violência racista e parental, com o abandono do pai e o desprezo por parte de sua mãe: disto, deduzem que só pode advir tristezas e danos emocionais profundos. Toni contesta este discurso e muda o destino de sua personagem.

A expectativa usual é que a mulher negra faça o que é esperado dela, uma dimensão da passividade que o racismo nos inculcou. Como assim, se muitas das mulheres negras são representadas como fortes, indomáveis, inclusive a própria Bride? Exatamente. Este estereótipo aprisiona. Somos resistentes. Pura realidade, almas de ferro, se é que temos alma. Fazer o que se espera de nós. Não ser vulnerável, sensível, porque isso só cai bem em mulheres brancas. Resistir, resistir, não desmoronar, cuidar de todos e nunca ser cuidada. É um reflexo da animalização e coisificação que nos foi imposta por séculos, e que ainda repercute neste discurso que parece motivador, mas na verdade se mostra cruel e adoecedor. Percebi que muito do incômodo dos leitores vem das expectativas geradas quando se consome literatura negra de autoria feminina. O que esperam de nós é sofrimento, mágoa, dor. Não nos sobra lugar para respiro, saídas criativas, existências leves, e principalmente, finais felizes. Também não há diversão que não seja a luxuriosa, não ligada ao corpo e às vozes.

A chave para captar esta filigrana desafiadora do discurso de Morrison está na infância da personagem: Lula Ann Bridewell, tentando ser melhor aceita por sua mãe e temendo ser abandonada por ela, se comporta de forma submissa e amedrontada, acatando todas as violências e abusos da mãe na esperança de que, demonstrando essa docilidade, se torne mais fácil para a mãe amá-la. Até mesmo quando desobedece a mãe, o faz para que Mel a toque, mesmo que seja por meio de agressão física.

“Eu rezava pra ela me dar uma bofetada ou uma surra só pra sentir o toque”

Lula Ann, então, muda seu nome para Ann Bride, e, posteriormente, só para Bride, e desabrocha como uma mulher lindíssima, que usufrui de sua aparência assim chamada “exótica” (que não passa de uma expressão racista). Mas a lógica permanece a mesma. Bride, agora adulta, “se veste de branco” (tanto literal quanto figurativamente: a personagem só usa roupas brancas e encarna a persona de empreendedora bem sucedida) e passa a se comportar de acordo com o estereótipo da mulher negra bonita e atraente: hipersexualizada, auto centrada, independente, exatamente a imagem que se espera dela.

Ao experimentar dois grandes fracassos na vida adulta, ser rejeitada por seu amante, Booker, e depois agredida fisicamente por sua ex-professora, Sofia Huxley (ao tentar contato para se redimir com a mulher que, em razão de seu testemunho falso, passou dez anos na prisão), Bride volta, aos poucos, a ser a criança amedrontada e ignorada que ela mesma desprezou como parte de um passado a ser esquecido. A protagonista soterra toda a violência e abandono de sua infância com a imagem de uma mulher forte, que se recusa “a lamentar, choramingar ou acusar”.

Uma Bride vulnerável, que pensa sobre seu passado e se arrepende dele, que abandona a situação confortável de vida para ir atrás de Booker, o homem que ama, dá uma virada na história. Bride viaja por quilômetros para conseguir encontrar seu amado, sofre um acidente de carro e passa algum tempo com uma família: é lá que começa a notar seu corpo minguando e voltando ao formato impúbere que tinha no momento em que cometeu o grande erro do testemunho falso contra sua professora. Voltando ao corpo de criança e à aparência não mais deslumbrante, a personagem ajusta as contas com o seu passado. Ao assumir seu amor por Booker, sua fragilidade e seu desejo de acolhimento, ocorre o antídoto: Bride tem seu corpo de volta, e anuncia a Booker que está grávida. Deus Ajude Esta Criança termina com Mel dizendo em uma carta que sua filha entende muito pouco sobre o que é ter uma criança e que nem tudo será um mar de rosas. Mas Bride, agora, está disposta a desafiar com coragem a vida que tem pela frente.

Como todas nós, mulheres negras, estando onde não querem ou esperam que nós estejamos.


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