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Terror para os dias atuais: os 8 melhores filmes de 2020

Poucas coisas representam tão bem o espírito de uma época quanto seus filmes de terror. O cinema do gênero tende a refletir os medos de um momento histórico, de um país, de um grupo social. É assim que ganhamos comentários tão poderosos como a reflexão de Guillermo del Toro sobre o passado fascista da Espanha em O Labirinto do Fauno, o medo do isolamento digital no Japão dos anos 2000 que percorre cada canto do gélido Pulse de Kiyoshi Kurosawa, ou o fervilhar do Black Lives Matter no brilhante Corra! de Jordan Peele.

O período pós-pandemia provavelmente guarda grandes mudanças para o cinema de terror. Os medos da humanidade se renovaram, e acompanhando isso, sempre segue o cinema que retrata esses medos. Dessa maneira, 2020 pode acabar se tornando um ano especial para o gênero. Um ano de transição, com muitos dos grandes lançamentos do “horror elevado” ou “pós-horror” (rótulo equivocado dado por antigos detratores do gênero aos filmes de estúdios com A24 e Blumhouse) adiados por causa do fechamento dos cinemas e muitos outros filmes buscando formas diferentes de lançamento e até mesmo produção.

Ver filmes de terror não parece o passatempo mais óbvio para tempos tão tensos. Mas são essas pequenas janelas para nossos medos mais profundos e subconscientes que nos ajudam a processar melhor as tensões da vida real. E nada melhor para guiar esse processo do que uma pequena lista das oito melhores “pequenas janelas” do ano.

Gretel & Hansel, Oz Perkins

Valkirias - Terror para dias atuais - Gretel & Hansel

A narrativa clássica de terror começou a se estruturar na mitologia, mas encontrou sua primeira roupagem artística e comercial nos contos de fadas. A filmagem “realista” desses contos morais para crianças foi uma das grandes tendências do cinema das duas últimas décadas, mas poucos se debruçaram no potencial que essas histórias possuíam como base para filmes de horror ao invés de fantasia. Foi esse ângulo que Oz Perkins explorou para encontrar vida na história batida de João e Maria. O diretor, filho do ator principal de Psicose de Hitchcock, Anthony Perkins, já tinha chamado a atenção do nicho de fãs do cinema de gênero com o brilhante The Blackcoat’s Daughter/February, e dessa vez apostou em uma veia mais visual e estilizada do que narrativa. Essa aposta resulta em algumas das imagens mais marcantes do cinema em 2020.

Para saber mais: Maria e João: O Conto das Bruxas

She Dies Tomorrow, Amy Seimetz

A experiência que você terá com esse filme peculiar de Amy Seimetz depende profundamente de suas expectativas iniciais e de sua disposição a se entregar a uma narrativa bem… diferente. Seimetz traz influências que vão do horror cósmico cheio de maldições e tensão de Lovecraft até o cinema intimista e falastrão do movimento Mumblecore (exemplificado por autores como os irmãos Duplass ou Noah Baumbach) e cria um filme que é meio um drama sobre a ansiedade, meio terror pós-apocalíptico, e meio comédia absurdista. Você pode amar She Dies Tomorrow. Você pode detestar She dies tomorrow. Mas eu te garanto: você não terminará o filme indiferente.

Host, Rob Savage

Valkirias - Terror para dias atuais - Host

Host será, para sempre, lembrado como o “terror de Zoom feito durante a pandemia”. Esse tipo de rótulo, a mesma praga que assola filmes como Atividade Paranormal e Boyhood, diz muito mais sobre o processo de produção do filme do que sobre o conteúdo, e pode se tornar um peso a ser carregado pela obra ao invés de uma vantagem. Host não é só o “terror de Zoom feito durante a pandemia”, é um filme curto, simples e que consegue trabalhar todos os elementos de uma história de horror clássico, criando sustos extremamente eficientes a partir de suas limitações.

Amulet, Romola Garai

Valkirias - Terror para dias atuais - Amulet

De todos os filmes dessa lista, o filme de estreia na direção da atriz britânica Romola Garai (de Desejo e Reparação) é o que mais exige nervos de aço. Essa história que flerta com traumas de guerra, feminismo, possessões e imigração exige um fã de horror capaz de navegar por imagens forte, muito gore (fluidos corporais é o que não faltam) e criaturas que vão te deixar alerta na madrugada seguinte. Tudo isso é claro não vem sem suas recompensas: Amulet é o horror mais complexo de 2020, um filme que pode até não cravar a aterrissagem de todos os conceitos que busca explicar, mas que mira tão alto que é impossível não ficar encantada pela inteligência e ousadia dos seus realizadores.

The Lodge, Veronika Franz e Severin Fiala

Valkirias - Terror para dias atuais - The Lodge

Tudo conspirava contra The Lodge no momento em que eu dei play no filme. Seus diretores, Veronika Franz e Severin Fiala, estouraram na cena do horror indie com um filme que não me agradou muito, Goodnight Mommy. E esses mesmos diretores resolveram abraçar dessa vez alguns temas que estão tão gastos no gênero que beiram a paródia. Cultos, questionamento de sanidade mental e crianças ambíguas em um ambiente de isolamento poderia ser a receita para um filme profundamente esquecível. Mas Riley Keough, em uma das minhas performances favoritas do cinema neste ano, eleva The Lodge para um estudo de personagem fascinante, uma análise de uma protagonista que nos primeiros 20 minutos só conhecemos por rumores e comentários maldosos, e que a atriz habilidosa transforma em uma personagem tridimensional que desafia nossas pré-concepções.

Possessor, Brandon Cronenberg

Valkirias - Possessor

Brandon Cronenberg chegou ao mundo do cinema sentindo o peso do sobrenome na camisa. Filho de um dos melhores diretores da história do gênero, Brandon ainda não conseguiu completamente sair da sombra e influência de seu pai, David Cronenberg, e muitos dos seus temas favoritos são ecos diretos de filmes como Videodrome e A Mosca, mas a promessa que mostra nesse fio desencapado em forma de filme, Possessor, é enorme. A trama de Possessor parece saída de um dos grandes conceitos de Christopher Nolan, mas a diferença aqui é que o filme não se preocupa em se explicar demais. Possessor é sensorial, é cinema do mal estar em sua melhor forma, com Andrea Riseborough e Christopher Abbott tendo que fundir suas atuações de uma maneira que fará você duvidar que não está vendo, de verdade, uma possessão.

Swallow, Carlo Mirabella-Davis

Valkirias - Terror para dias atuais - Swallow

A natureza da compulsão é um tema que o terror sabe trabalhar melhor que qualquer gênero, e esse filme ainda pouco visto pelo seu público pega emprestada uma compulsão real e catalogada, chamada Pica (o ato de ingerir itens não comestíveis e perigosos), e a transforma em uma armadilha elaborada para discutir a rebeldia feminina contra as amarras de uma sociedade conservadora. Elenco perfeito, uma fotografia em blocos de cores que nos leva pro cinema dos anos 60, e a capacidade de dar espaço para a história se desenvolver visualmente são destaques do segundo melhor filme de terror do ano.

The Invisible Man, Leigh Whannell

Valkirias - The Invisible Man

Esse pequeno hit de Leigh Whannell foi o último filme que muitos brasileiros viram em uma sala de cinema, um dos poucos filmes de terror a terem, verdadeiramente, um lançamento convencional em 2020. Ainda bem, porque a atuação de Elizabeth Moss nessa trama sobre machismo, abuso e gaslighting disfarçada de obra de ficção científica merece a maior tela possível — e estatuetas que infelizmente não receberá na temporada de prêmios. Leigh Whannell ainda é mais conhecido por ter sido um dos responsáveis pela criação da franquia Jogos Mortais, mas seu trabalho atual é muito mais sutil e psicológico, um filme de monstro em que o pior monstro é o homem (clichê, mas como sabemos, muitas vezes a verdade). Muitos meses se passaram, mas esta ainda é a obra-prima do cinema de horror em 2020.

Para saber mais: O Homem Invisível: um filme alegórico e tenso sobre abuso

Ana Clara Matta é a fantasma Dickensiana da blogosfera passada. Editora do finado portal de música independente Rock’n’Beats e criadora do blog de cinema Ovo de Fantasma, hoje sai ocasionalmente de sua caverna para comentar cultura pop (e menos pop) e acredita que o objetivo da vida está na frase “Eat, drink, and be merry”.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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