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A renascença de Crepúsculo e a relação entre nostalgia e crítica

Se você já foi uma adolescente desesperadamente tentando ser cool, você sabe o que é começar a desprezar todos os seus interesses para ter aprovação de uma sociedade regida por homens mais velhos que você (ou vai dizer que fui a única que fingiu que gostava de bandas indie aleatórias?). Se você foi uma adolescente na era millennial, você sabe também o que é ser twihard. Talvez você tenha julgado quem debatia Team Edward vs Team Jacob, mas com certeza você sabe quem eles são.

Pensar em crepúsculo e ter a experiência de ler Midnight Sun em meio a uma pandemia que virou minha vida adulta de cabeça pra baixo foi um estalo pra perceber que ou você morre hater do mainstream ou você vive o suficiente para se tornar cafona. Mais recentemente, o debate de zoomers com millennials e o que seria cringe me fez refletir sobre o que na real é ser adulto de verdade. Tá, eu tenho só 27 anos, mas consigo determinar a fase fangirl (eu tinha um pôster do Zac Efron na porta do quarto e lia Capricho), a fase quero-ser-cool em que abandonei publicamente tudo que me interessava na adolescência pra fingir ter outros traços de personalidade e a vida adulta, que valoriza a autenticidade acima de tudo.

Crepúsculo

Mas o que isso tem a ver com Crepúsculo, Lorena? Calma, pera, eu juro que tem uma lógica. Crepúsculo era, pra citar os jovens da internet, cringe. Na real foi uma coisa que meio que já nasceu cringe, né, vampiros que brilham. E quando tudo o que você quer ser na vida é o oposto de cringe, você nega qualquer qualidade, seja irônica ou não, de tudo que possa parecer legal. Eu achava que essa fase era a adolescência, mas vendo o discurso público da internet, acho que na verdade é o jovem de 18-22 anos.

Se tem algo que Stephenie Meyer sempre soube fazer é encontrar justamente aquilo que eu preciso ouvir. E há algum tempo, foi que eu era inteligente e diferente-de-outras-garotas e tal qual Bella Swan, meu destino estava esperando por mim. Mas ser uma garota como as outras é um privilégio, eu tenho depressão sazonal demais pra viver em um lugar como Forks e se um cara-lobisomem começa com discurso de friendzone eu reviro os olhos.

Midnight Sun, porém, foi a história que eu precisava ler desse universo em 2020. É alta literatura? Claro que não, mas eu não acredito em guilty pleasures. E começou a ficar claro pra mim porque aquela saga foi tão importante. Crepúsculo é uma história sobre vampiros que brilham, lobisomens em friendzone, guerras sem sentido e uma moralidade questionável. Mas Crepúsculo também é uma história sobre saúde mental e não acredito que isso não era claro pra mim antes.

Crepúsculo

Não é difícil perceber o porquê daquela saga ser tão apelativa para adolescentes deprimidas. Se você começa a olhar com a distância necessária, você percebe que os temas que a regem são solidão, expectativas e a necessidade humana de se conectar. Para quem sempre achou essas barreiras impossíveis de quebrar, Crepúsculo não é uma história de amor, mas uma história de identidade.

Hoje, mais que tudo, eu penso em como histórias que consumi sem entender tanto o impacto, bem escritas e questionáveis, foram parte da forma como eu cresci. A renascença de Crepúsculo não é um lembrete das cafonices passadas, mas da forma com que as melhores partes do que vivemos ficam conosco. Agora, talvez você esteja revirando os olhos e pensando que sou louca, mas eis a questão: nuance. Como críticas e críticos de cultura, sejam profissionais ou pessoas com acesso a redes sociais, não temos a necessidade de atribuir um valor concreto a ideias abstratas.

Isso não deixa de ser um problema com o tempo, mas o impasse deixa de existir. É claro que existem conteúdos culturais horríveis, essa é outra parte, mas o debate entre cool e cafona desconsidera que a nostalgia e a crítica podem coexistir. E ainda que a cena do sangue irresistível da Bella Swan esteja para sempre presa na minha cabeça, eu nunca poderei negar o impacto cultural que a sequência de baseball ao som de Muse teve na minha vida.

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