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Her Private Life e o problema da comunicação nos doramas

Quem assiste doramas provavelmente se mordeu de raiva pelo menos uma vez ao ver os protagonistas criando um problema enorme por conta da falta de comunicação. Ou seja, surge um ciúme absurdo e sem o menor sentido, ou um problema causado por um mal entendido, e os personagens simplesmente não conversam para resolver. Como consequência, brigas e longos episódios de conflito surgem em uma narrativa que rouba os telespectadores de momentos românticos, dignos de gifs e prints de tela que lotam a galeria.

Por que será que acontece uma romantização dessa falta de comunicação na maior parte dos doramas? A princípio, isso parece um instrumento narrativo para preencher dezesseis episódios, ou mais, com uma hora e meia cada um, em média, de conteúdo. No entanto, a persistência desse elemento é preocupante quanto à imagem criada a respeito do que é romântico e do que não é.

É fundamental entender que os doramas continuam refletindo a realidade da sociedade coreana a qual representam e fazem parte. Contudo, na medida em que há maior internacionalização dessas produções, por exemplo, por meio do investimento de empresas de streaming como a Netflix e a expansão de plataformas como o Viki Rakuten, é válido refletir sobre o ideal de romance criado a partir dessas narrativas.

Her Private Life

Nesse sentido, entra Her Private Life, dorama de 2019 estrelado por Park Min-young (O Que Dá de Errado Com a Secretária Kim), Kim Jae-wook (Voz) e Ahn Bo-hyun (Itaewon Class), que se diferencia dos demais. A série tem desenvolvimento por parte do Studio Dragon com produção da Bon Factory Worldwide e exibição pela tvN. Em primeiro lugar, tem inspiração no romance Noona Fan Dot Com, escrito por Kim Sung-yeon e publicado em 2007.

Em resumo, trata da história de Sung Deok-mi (Park Min-young), uma talentosa curadora-chefe do Museu de Arte Cheum que também leva uma vida secreta como fã-girl de Cha Si-an (ONE) do boygroup de k-pop White Ocean. Por outro lado, entra o protagonista Ryan Gold (Kim Jae-wook), um artista independente que desenvolve um bloqueio criativo em decorrência de um trauma e se aposenta como pintor. Mudanças na direção do Museu de Arte Cheum o levam a ser o novo diretor, alterando completamente a rotina da instituição e a vida da protagonista.

Curiosamente, o que me atraiu a ver Her Private Life foi o apelido carinhoso de “dorama com o relacionamento mais saudável da dramaland” por parte dos fãs e espectadores. No geral, percebi que desde que a Netflix adicionou a série no catálogo muita gente reviveu os sentimentos que surgiram ao assistir o programa nas redes sociais, e essa história de relacionamento saudável em dorama coreano me chamou atenção.

Her Private Life

Mais ainda, grande parte das propagandas e estratégias de divulgação utilizaram dessa mesma característica narrativa para promoção. Sobretudo, por ser uma série mais antiga, me surpreendi ao vê-la no top 10 por algumas semanas, e também ocupando posições de destaque nos assuntos mais falados do Twitter. Porém, a maratona me mostrou o motivo do dorama ser tão querido e por que nós precisamos conversar sobre ele.

Antes de mais nada, a história de romance entre os protagonistas se desenvolve com uma das minhas tropes favoritas de todos os tempos: a do relacionamento falso. Basicamente, e isso não é bem um spoiler porque consta na descrição da série, Ryan Gold propõe um relacionamento falso com Sung Deok-mi após ela se envolver acidentalmente em um escândalo com o idol Cha Si-an. Desse modo, ambos se aproximam para além das primeiras impressões negativas e da má convivência no trabalho e, como consequência, os sentimentos começam a florescer.

Geralmente, basta esses elementos para comprar o meu amor eterno e dedicação a uma série. Afinal, quem não adora um enemies-to-lovers com personagens bonitos e bem vestidos em roupas de grife? Porém, a história vai além ao sustentar o relacionamento inteiro em cima da maturidade dos personagens, incluindo amigos e familiares. Surpreendentemente, Her Private Life consegue abordar temáticas de abandono, luto, ciúmes e até mesmo o tradicional amor platônico sem transformar esses eventos corriqueiros da vida no foco da história.

Her Private Life

Sendo assim, e economizando os spoilers porque todo mundo deveria dar um bom play no dorama, o relacionamento principal entre os protagonistas se sustenta ao longo dos dezesseis episódios sem maiores problemas. Ou seja, mesmo nos momentos em que eles não se entendem, nas questões que eles não conhecem sobre o outro e até mesmo diante da interferência externa, ambos conseguem utilizar do instrumento mágico que é a comunicação para resolver os problemas e continuar juntos. O ponto de partida para que ambos estabeleçam uma relação sem segredos parte de um mal entendido que na realidade se torna um instrumento para ambos perceberem os sentimentos que têm um pelo outro. O foco da falta de comunicação inicial, no estágio em que ambos não se conheciam direito, surge como forma de aprendizado e não para enrolar o enredo em torno de um problema bobo.

O momento em que há falta de comunicação acontece porque ambos não se conhecem o suficiente para estabelecer uma confiança mútua. Portanto, diferencia-se da falta de comunicação em outros doramas que parece ser uma ferramenta para testar o sentimento dos protagonistas, criar um alívio dramático ou até mesmo dramatizar ainda mais o relacionamento para estender a narrativa. Por meio de um outro mal entendido entre Deok-mi e sua melhor amiga, a série parece se utilizar da falta de comunicação como instrumento para comédia, e não para o drama.

A questão da comunicação se estende para além do relacionamento amoroso entre os protagonistas. Desse modo, os conflitos que surgem posteriormente entre Deok-mi e seus familiares são resolvidos na mesa de jantar, de maneira pacífica, madura e simples. Ademais, os problemas no trabalho e até mesmo nas amizades também duram pouco tempo, pois a prioridade aparenta ser o tempo individual para reflexão e para lidar com a situação, e não quão dramático uma situação pequena pode se tornar por conta de uma resolução insuficiente.

O dorama prega que o amor é capaz de vencer qualquer barreira, seja ela do luto, do crescimento ou do tempo. Sendo assim, é incrível observar que todos os personagens apresentam um alto grau de maturidade desde o princípio e que somente aumenta com o passar dos episódios. Apesar da escalada dramática com a aproximação da conclusão da história, o mais interessante enquanto espectadora foi perceber que em nenhum momento o casal se separou por conta dos problemas, permanecendo unido e ainda mais forte por navegar as dificuldades em conjunto.

Her Private Life apresenta uma forma de tratar o romance com maturidade e aquela dose necessária de realidade para as narrativas ficcionais dos doramas coreanos. Ainda que utilize de elementos relacionados ao fangirling, com animações e ilustrações juvenis quanto às paixões da protagonista por K-Pop, perceber como o dorama trata os conflitos humanos, os relacionamentos e sentimentos é um alívio enorme para quem abandonou séries no passado pelas voltas infinitas no enredo.

Por fim, o que resta é a vontade de que outros roteiristas e diretores copiem a fórmula para que tenhamos cada vez mais representações saudáveis de romance na televisão. Além disso, como uma comunicadora em formação, continuo na jornada de pregar que a conversa entre as pessoas é capaz de salvar relacionamentos, narrativas ficcionais e prevenir fãs de cair em verdadeiros esquemas piramidais com os romances doramescos.

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1 comentário

  1. Tem outros doramas com relações saudáveis assim:

    Touch Your Heart e Because this is my first Life escorregam no fim com o trope do término pra resoluções mas fora isso, são exemplos de casais perfeitos! Romance is a Bônus Book E Strong Girl também tem casais muito unidos e comunicativos pra se resolver. Além de maduro e saudável, o relacionamento destes pares são verdadeiros sonhos.

    Eu amo muito como Duk mi e Ryan Gold se apoiam mutuamente. É lindo e inspirador!