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Cores Vivas: tentando fazer o certo em um mundo errado

Marlon, um adolescente de dezesseis anos, fez uma promessa à sua mãe: ele não se meteria em problemas da mesma maneira que seu irmão. Não parecia uma promessa muito difícil de cumprir desde que ele ficasse em seu quarto ouvindo músicas antigas, lendo ficção científica e fazendo a lição de casa, mas sua vida vira de cabeça para baixo quando Sonya bate em sua porta. Cores Vivas é o primeiro livro de Patrice Lawrence traduzido para o português e chega ao Brasil por meio do selo DarkLove, da Darkside Books.

A preocupação de Jenny, mãe de Marlon, é que o filho caçula decida seguir os passos do primogênito, Andre. Líder de uma gangue em Londres, Andre pagou um preço alto demais por entrar no mundo do crime e Marlon convive diariamente com essa realidade. Além de saber dos perigos que rondam as gangues, Marlon não quer decepcionar a mãe, que já passou por tanto ao ficar viúva com dois filhos para criar, e se mantém afastado desse universo — pelo menos até Sonya aparecer. Uma garota linda da escola dando uma chance a Marlon parecia algo muito surreal para ser verdade, e o adolescente decide agarrar essa oportunidade com toda a coragem que possui e os dois não demoram a marcar um encontro.

O dia no parque de diversões parece o mais comum e simples possível, com direito a roda gigante, trem fantasma e cachorro-quente, mas de alguma maneira tudo começa a sair dos eixos e Marlon termina o encontro com Sonya como culpado de crimes que não cometeu. Marlon, um adolescente negro, é encarado como culpado pela polícia muito antes de que qualquer investigação seja feita, o que aponta diretamente para o racismo estrutural e o preparo precário da polícia — e isso que estamos falando de outra realidade que não a brasileira. Os cenários mudam, mas os temas permanecem iguais.

“Todo mundo conhecia a história que eles queriam ouvir. E não era a minha.”

Marlon, com o pai morto e o irmão incapaz de ajudá-lo, não tem escolha senão entrar no mundo que prometeu à mãe nunca acessar, um mundo repleto de violência e crueldade, um mundo em que não há segunda chance. Cores Vivas é um livro impactante capaz de transportar o leitor para uma realidade que parece tão distante mas que acontece todos os dias, ao redor do mundo. A vida de Marlon não era muito diferente das vidas de vários jovens brasileiros que tentam se manter longe do mundo do crime mas, por um motivo ou outro, acabam sugados para esse universo e depois não conseguem mais sair. Ao se ver investigado pela polícia e ter seus amigos e familiares ameaçados, Marlon decide que a única opção que tem para protegê-los é seguir os passos de Andre.

A trama criada por Patrice Lawrence cresce aos poucos, aumentando a tensão na mesma proporção em que os problemas começam a ser empilhados na vida de Marlon. Ainda que eu seja uma mulher branca vivendo a quilômetros de distância de Londres e de suas gangues de rua, não foi difícil me colocar na história e sentir raiva quando uma série de injustiças começam a acontecer com Marlon. Mesmo que tenha decidido entrar nesse mundo perigoso onde garotos usam apelidos e se revestem de atitude debochada como se fossem uma armadura, Marlon é, por completo, uma pessoa boa. Ele é tragado para essa realidade sem pedir por isso, algo que acontece diariamente na vida real — seja em Londres, seja no Rio de Janeiro ou qualquer outra grande cidade. Os paralelos entre a realidade do livro e a dos jornais são imensos e é difícil não sentir um gosto ruim na boca ao terminar a leitura.

O tratamento que Marlon recebe da polícia por ser um jovem negro, não é diferente do que acontece do outro lado da ficção, no mundo real. A maneira como ele é colocado contra a parede, taxado de culpado desde o início, também não. Lembre-se, por exemplo, do caso de Heverton Siqueira, identificado erroneamente como culpado por um crime e que está preso há quase um mês. Existem milhares de Marlons e Hevertons mundo à fora, e não é à toa que a vida imita a arte — e vice-versa.

Cores Vivas é uma leitura impactante do princípio ao fim. Ainda que eu nunca tenha sido abordada na rua por causa da cor da minha pele (e aí estão os privilégios intrínsecos por ter nascido branca), não pude evitar sentir a dor de Marlon — mesmo que eu jamais possa imaginá-la por completo. Marlon é desacreditado pela polícia e o medo de ser preso injustamente, novamente, o faz procurar meios para resolver a confusão em que foi incluído por conta própria. A atitude de Marlon é nobre, mas sendo um adolescente de apenas dezesseis anos é fácil entender como ele consegue meter os pés pelas mãos em mais de uma oportunidade.

Essa escrita tão real e verossímil nos fazer querer sacudir Marlon e gritar com ele um sem número de vezes por estar se afundando cada vez mais em uma história perigosa — mérito de Patrice Lawrence, é claro. A autora escreve com tanta verdade que ao mesmo tempo em que é possível ficar irritada com os erros de julgamento de Marlon, é perfeitamente compreensível que eles os cometa — seja por tentar lidar sozinho com toda a situação perigosa em que se envolveu, seja por não confiar naqueles que poderiam ajudá-lo por ter tido uma experiência anterior traumatizante. Cores Vivas grita realidade e, por isso, é uma leitura tão impactante e importante.

Marlon é um jovem tentando fazer o certo em um mundo errado, mas nem mesmo suas  melhores intenções serão capazes de protegê-lo quando ele se afunda cada vez mais em uma trama de perigos e caminhos sem volta. Patrice Lawrence, autora premiada com o Waterstones Children’s Book Award e o The Bookseller YA Book Prize de 2017, costura a vida de Marlon a uma Londres que passa longe dos cartões postais e pontos turísticos, mostrando a outra face de uma cidade que vai muito além de suas áreas nobres e é feita de famílias tentando sobreviver em meio ao tráfico, as armas de fogo e ameaças.

“Então cê entende que eu tenho que me proteger? E minha mãe também.”

Cores Vivas trás a realidade das ruas para as páginas da ficção mostrando como a vida é difícil para jovens negros em qualquer lugar do mundo. Por meio de seus personagens, sempre tão reais e relacionáveis, a autora cria uma história que impacta e fica com você por muito tempo mesmo depois de concluída a leitura. Além de Marlon, seu protagonista jovem, idealista e leal, Lawrence se esmera ao escrever coadjuvantes tão reais quanto ele — seja em Sonya, uma menina que se vê presa à uma realidade em que não pediu para estar; em Tish, a melhor amiga mais inteligente e inventiva que alguém poderia querer; ou Jenny, uma mãe que faria qualquer coisa por seus filhos mas não deixa de tratá-los com a justiça necessária.

O livro conta, basicamente, a história de como um adolescente perfeitamente comum decide ir além de seus limites para manter sua família e amigos seguros, e como ele se descobre no processo. Um coming of age repleto de tons reais e doloridos mas que não deixa de ser menos colorido por conta disso. Patrice Lawrence não usa de meias palavras para contar a realidade dos jovens negros, e ainda que seu recorte seja o subúrbio de Londres, não é difícil ver essa história acontecendo em outras grandes cidades ao redor do mundo — e isso nós sabemos bem.

A violência policial está lá, ainda que não seja totalmente o foco da narrativa, assim como o racismo estrutural e as falhas do sistema penal — algo que não é exclusivo da realidade londrina. Patrice Lawrence escreveu uma história que ecoa nas vidas, e vozes, de milhares de jovens negros com as mais diferentes vivências. Sua trama é um young adult por completo, mas foca em temas pouco debatidos pela literatura do gênero — e isso faz toda a diferença. Além da representatividade — a maior parte dos personagens em Cores Vivas é negro —, há a realidade forte e viva, o que dá à narrativa de Lawrence tons tão próximos do real que é como se Marlon existisse de fato e estivesse nos contando sua história.

“The love you give
Might help somebody live
So give yourself
Go out and help somebody else
If we all stand together
We’ll all stand tall, tall, tall”

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a DarkSide Books.


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