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Setembro Amarelo: um guia de indicações para ficar de coração quentinho

Escapismo, por definição, é a tendência de fugir da realidade ou da rotina, buscando refúgio das coisas desagradáveis desviando a atenção para ocupações diversas, como entretenimentos. Em meio ao momento histórico que vivemos (e do qual já estamos completamente saturadas) é perfeitamente normal buscar refúgio em produções culturais, sejam elas quais forem. Bombardeados por notícias de óbitos constantes, despreparo e descuido do governo a todo instante e sem perspectivas de melhoras desse cenário, muitas de nós buscou conforto em séries, filmes, livros e músicas como nunca antes.

Vivendo durante uma pandemia, escapar se transformou em uma questão de sobrevivência. Nosso cotidiano interrompido — não mais saímos para estudar, ver os amigos ou simplesmente bater perna no shopping — acaba nos deixando reféns de uma rotina exaustiva onde os momentos de trabalho e relaxamento se misturaram para aqueles que, por exemplo, puderam fazer home office. Para aqueles que ainda precisaram sair todos os dias para trabalhar, a ansiedade e o medo de se infectar com o coronavírus elevaram os níveis de ansiedade às alturas. Diante desse cenário, procuramos em nossas produções favoritas da cultura pop um momento de repouso, um interlúdio em toda esse caos, para simplesmente descansarmos nossos corpos e nossas mentes das tensões constantes.

É dessa ideia de descanso e relaxamento que surgiu essa lista. As indicações são das mais variadas — você pode optar por assistir a uma youtuber reformando o quarto, ler sobre uma banda de rock fictícia ou caçar monstros com dois irmãos pelos Estados Unidos —, mas o foco aqui é confortar.

Best Dressed, canal de YouTube

Por Isadora Ferreira

Setembro Amarelo

A best dressed (Ashley) é uma jovem mulher estadunidense de vinte e poucos anos, formada em cinema pela UCLA e que no início do ano, recém-formada, se mudou para Nova York. Ah, ela também é produtora de conteúdo sobre moda em seu canal do YouTube, com mais de 3,5 milhões de inscritos e 253 milhões de vizualizações — e contando.

Admito que não sou sou uma grande fã de conteúdo de moda e, com exceção da Stephanie Noelle, eu não seguia mais ninguém com esse tipo de conteúdo em qualquer rede social. Além disso, a realidade da best dressed, mesmo não sendo tão romantizada em seus vídeos, não poderia estar mais distante da minha (tirando o fato de sermos ambas jovens mulheres de vinte e poucos anos recém-formadas).

E mesmo assim, Ashley me conquistou e trouxe mais cor para minha quarentena (de seis meses). Com um jeitinho bem autêntico e até mesmo pé no chão, Ashley compartilha suas dicas sobre moda e, entre um look e outro, muito de suas vivências ao lidar com a chegada da vida adulta, problemas familiares, relacionamentos, amizade e independência. Tudo é feito de forma tão orgânica que até os momentos de overshare parecem ser uma troca de segredos entre amigas. Durante os minutos semanais que estou em seu canal, eu me divirto vendo uma garota empolgada realizando sonhos e superando a ansiedade, enquanto na semana seguinte sinto que estou sentada em seu studio conversando sobre a vida.

Don’t Starve, game

Por Amanda Tracera

Setembro Amarelo

Minha maior descoberta de entretenimento nessa quarentena — e a única coisa capaz de me manter alheia ao mundo e me fazer esboçar um sorrisinho — foi o jogo Don’t Starve, lançado em 2013. Meu namorado tem algumas DLCs instaladas no computador e, em um dos dias em que ele precisava trabalhar, aproveitei para explorar o mundo esquisito, mas muito divertido, do cientista Wilson.

A ideia é bem simples: você é um cientista maluco que acorda em um mundo desconhecido e estranho e, portanto, precisa dar um jeito de sobreviver. A intenção é manter a sua saúde, fome e sanidade mental sob controle, evitar a noite absoluta — que é, de longe, a nossa maior inimiga — e os animais e problemas que vão aparecendo ao longo do caminho. A coisa mais divertida do jogo é que, conforme o número de dias que você consegue sobreviver aumenta, os desafios vão ficando maiores: as estações do ano mudam, e, com elas, as suas necessidades de sobrevivência; você descobre novos territórios e, neles, novos alimentos e formas de ser atacado; às vezes imprevistos acontecem e você precisa dar um jeito de ficar vivo. Além disso, conforme você morre e recomeça, novos personagens são liberados — e eles possuem características únicas, que também interferem no modo como o jogo se desenrola.

Embora um jogo de sobrevivência em um universo cheio de criaturas que querem te devorar possa parecer um jeito esquisito de abstrair do colapso do nosso mundo, a verdade é que fingir ser o Wilson me permitiu esquecer completamente que 2020 está sendo, para dizer o mínimo, um ano perdido. Se você gosta de jogos meio macabros, mas muito bonitos (uma das inspirações para o jogo foi o estilo do Tim Burton!), com objetivos claros e potencial pra te fazer gritar com a tela do computador, então recomendo testar o jogo.

folklore (Taylor Swift), álbum

Por Ana Luiza

Setembro Amarelo

Quando Taylor Swift anunciou o lançamento de folklore, seu oitavo álbum de estúdio, a surpresa foi inevitável. Lover, até então seu trabalho mais recente, havia sido lançado menos de um ano antes, com toda a pompa e circunstância que os trabalhos da cantora tendem a assumir, e a expectativa imprescindível ao processo. folklore, muito diferente deste, surge como um ponto fora da curva que, em outro cenário, talvez nem sequer existisse. “A maioria das coisas que eu havia planejado para este verão acabaram não acontecendo, mas há algo que eu não planejei e aconteceu. (…) Antes desse ano eu provavelmente teria pensado demais sobre qual seria o momento ‘perfeito’ para lançar essas músicas, mas os tempos que estamos vivendo continuam a me lembrar que nada é garantido”, escreveu Taylor em seu Instagram pouco antes do lançamento, e suas palavras não poderiam fazer mais jus ao material que viria a seguir.

folklore traz imagens que refletem um momento muito particular na vida da cantora, mais madura pessoal e profissionalmente; lembra, sobretudo, quão boa contadora de histórias ela pode ser sem que ninguém precise validá-la para isso. É um trabalho cativante, lírico e sensível, que contempla uma imensa gama de sentimentos e que nos lembra da importância de se contar histórias — as nossas, as das pessoas ao nosso redor, as das pessoas que não conhecemos —, o que não deixa de ser uma forma de sobrevivência. Ao longo de 16 faixas (17, na versão deluxe), Swift olha para o passado, experiencia o presente, e se permite viver um dia de cada vez — e nos convida a fazer o mesmo.

Metal Galaxy (BABYMETAL), álbum

Por Natália Dias

Setembro Amarelo

Lançado no fim do ano passado, o terceiro álbum do BABYMETAL é de longe o trabalho musical que eu mais revisitei em 2020. Se você não faz ideia do que seja BABYMETAL, já posso adiantar que se trata de um grupo tão único que qualquer tentativa de definição breve provavelmente será insuficiente. Oficialmente, o grupo japonês é creditado por ser o criador do gênero kawaii metal mas, mais que isso, possui um poder incrível de cativar mesmo aqueles que não são fãs nem de canções fofas, nem de metal. A melhor forma de conhecer o trabalho dessas meninas, que apesar de jovens já estão no seu décimo ano de carreira, é assistir alguma performance do grupo. Para a alegria de todos que já estão sentindo saudades de ver BABYMETAL nos palcos, no começo desse mês o grupo lançou o live álbum LEGEND – METAL GALAXY com os shows gravados em Tokio em janeiro deste ano.

Meu conselho é que mesmo se você nunca teve interesse por metal, experimente assistir as apresentações de “Shanti Shanti Shanti” e “PA PA YA!!“. Existe uma troca de energia especial que parece acontecer sempre que o BABYMETAL se apresenta, e é talvez por esse motivo que ouvir o grupo nessa quarentena foi o que me ajudou a manter a mente nos eixos. Eu não posso prometer que você irá instantaneamente se apaixonar pelo grupo, mas tenho certeza que irá entender o que quero dizer com relação a energia que BABYMETAL transmite com suas músicas.

Modern Family, série

Por Kelly Ribeiro

Setembro Amarelo

Modern Family terminou em abril deste ano, na sua décima primeira temporada, mas só me interessei por ela recentemente  quando a série começou a pipocar como queridinha da quarentena. Ela acompanha a família de Jay Pritchett (Ed O’Neill) e seus filhos, Claire Dunphy (Julie Bowen) e Mitchell Pritchett (Jesse Tyler Ferguson), em Los Angeles. Claire é casada com Phil Dunphy (Ty Burrell) e os dois têm três filhos juntos: Haley, Alex e Luke. Cada um com uma personalidade bem distinta do outro. Jay é casado com a colombiana Gloria (Sofía Vergara), que, por sua vez, tem um filho pré-adolescente, Manny (Rico Rodriguez), de outro relacionamento. Enquanto Mitchell é casado com Cameron Tucker (Eric Stonestreet) e eles decidem adotar uma bebê vietnamita, a Lily. É esse caldeirão de relações, diferenças e implicações em manter a família unida que servem de mote para os mais de 200 episódios.

A série estreou em 2009, pela ABC, e foi um sucesso de público e crítica, tendo recebido o Emmy de Melhor Série de Comédia cinco vezes seguidas. Com um humor despretensioso, ainda que não acerte sempre, é ótima para desligar a mente do mundo caótico que nos cerca. Afinal, nada melhor do que uma sitcom leve e com finais felizes pra trazer um pouco de alívio em meio a tantos acontecimentos trágicos. Vale a tentativa.

Pen15, série

Por Carol Alves

Setembro Amarelo

Como muitas pessoas, uso a ficção também como uma forma de escapismo. Não apenas para isso, mas é ótimo poder contar com um mundo totalmente diferente do seu quando as coisas não estão indo bem. Em 2020, Pen15 foi um dos meus escapes.

Disponível na plataforma de streaming Hulu, nos Estados Unidos, Pen15 foi criada por Maya Erskine e Anna Konkle, que também estrelam a produção como versões mais jovens de si mesmas. Na história, Maya e Anna têm 13 anos e estão prestes a começar a sétima série.

Fiquei completamente fascinada pela forma como elas mostram com honestidade essa época tão conturbada (e até meio vergonhosa) da vida — e como adolescentes podem ser cruéis e maliciosos. Mas na medida em que a série vai amadurecendo as tramas, é possível ver o quanto Erskine e Konkle são talentosas. Não só na atuação, mas também na forma como escrevem os roteiros. Pen15 tem um humor incrivelmente ridículo e até meio cringe, mas é profunda, sensível e sincera em todos os aspectos que importam. Ver a amizade de Anna e Maya evoluir foi um prazer e um alívio. É, mais uma vez, a prova de que quando mulheres têm liberdade total de criação, coisas maravilhosas acontecem (como se Broad City já não fosse prova o suficiente).

Schitt’s Creek, série

Por Ana Vieira

Setembro Amarelo

Alguns meses antes de Schitt’s Creek levar todos os prêmios possíveis das categorias em que concorreu na última cerimônia do Emmy, eu tive o prazer de conhecer, me apegar e amar esse verdadeiro cristal da TV canadense. Com a sua sexta e última temporada transmitida esse ano, o fenômeno Schitt’s Creek saiu do desconhecido pra conquistar sua parcela considerável de fãs nos Estados Unidos e outros fieis aqui pelo Brasil.

A série acompanha a ruína da família Rose, que perde toda a sua fortuna e se vê obrigada a se mudar para uma cidadezinha pacata de interior, comprada pela família anos antes como uma forma de brincadeira jocosa, e que se torna o último e único bem em nome da família. Lá, o que os Roses aprendem, ao longo de 79 episódios de no máximo 30 minutos de duração, é que há mais no mundo do que dinheiro e sucesso. A atmosfera criada por Dan Levy, nesse sentido, é toda baseada em risadas fáceis e coração quentinho. O crescimento dos personagens é lindo, as relações que os Roses criam e intensificam entre si, e com novas pessoas, também.

Assistir Schitt’s Creek, na companhia da minha irmã, que se viu obrigada a voltar pra casa depois de anos em outra cidade, foi um sopro de esperança, de aceitação e de amor. Nosso carinho pela série se solidificou de uma maneira tão gigante que até dos personagens já nos fantasiamos pra participar de uma webfesta a fantasia. Nós duas choramos, rimos, e fizemos de Schitt’s Creek um refúgio lindo e adorável durante algum dos tempos mais difíceis que já passei, emocionalmente, na vida.

Supernatural, série

Por Thay

Assisto Supernatural há praticamente quinze anos e nunca houve uma série que soasse tanto como “lar” para mim quanto essa. Já assisti a série inteira na sequência, já revi episódios aleatórios somente pelo prazer de matar as saudades de quando o único problema na minha vida era o ensino médio. Já xinguei muito no Twitter quando os roteiristas resolveram surtar além da conta (alô, sétima temporada com a trama dos leviatãs), fiquei chateada quando resolveram continuar a série após o excelente finale da quinta temporada e depois fiquei em paz por ter Sam e Dean Winchester — interpretados por Jared Padalecki e Jensen Ackles — por mais tempo na minha vida. O fato é que Supernatural é para onde me volto sempre que preciso assistir algo que vai me deixar com aquela sensação de encontrar velhos amigos — mesmo que esses velhos amigos estejam sempre envolvidos em tramas de fim de mundo ou no “saving people, hunting things, the family business”.

A série nem sempre é lisonjeira com suas personagens femininas, e isso é algo que eles tentaram melhorar com o passar dos anos (nem sempre com sucesso, vale apontar). Mas o que me prende em Supernatural é sua história sobre família — que não necessariamente é aquela em que nascemos, mas a que escolhemos, algo que Castiel (Misha Collins) e Jack (Alexander Calvert) sabem bem como Winchesters honorários (se você morreu e retornou, isso é basicamente um rito de passagem da família). Nessa pandemia, mais do que nunca, a família tem sido o meu alicerce — e que sorte e privilégio meu poder dizer algo assim. E assistir (e reassistir) os Winchester fazendo todo o possível por salvar uns aos outros (e o mundo) no processo, sempre me enche de amor. Pode parecer estranho ter como a minha “série conforto” uma que tenha tramas envolvendo apocalipse e fim do mundo, toda sorte de monstros e arcanjos cruéis, e ainda rever tudo isso em plena pandemia, mas se tem uma coisa que Supernatural me ensina, temporada após temporada, é que desistir não é uma opção. Talvez eu não consiga ser tão assertiva quanto Sam e Dean (“I do believe in us. I believe in all of us.”), mas sigo tentando. “And I’ll keep believing until I can’t.”

Taylor Jenkins Reid, livros

Por Karina

Tem sido muito difícil me desconectar dos dramas e catástrofes reais para mergulhar livremente nos dramas e catástrofes da ficção. Mas as celebridades fictícias dos livros da Taylor Jenkins Reid me proporcionaram essa bênção. É sempre muito bom conhecer uma escritora nova que faz o seu coração bater mais forte e a Taylor Jenkins Reid foi o respiro que a minha interminável quarentena precisava. Li Daisy Jones and The Six e Os Sete Maridos de Evelyn Hugo já com meses acumulados de isolamento social, com o sentimento de desesperança atingindo os mais altos níveis. E, com os dois livros, fui completamente sugada pelas histórias.

A maneira como a autora constrói a narrativa contribui bastante para a sensação de estar, por algumas horas, em uma outra realidade. Daisy Jones and The Six conta a história da banda que dá nome à obra, como se fosse um documentário com depoimentos dos membros da banda e outras pessoas envolvidas naquele universo. Já Os Sete Maridos de Evelyn Hugo apresenta ao leitor a vida da Evelyn, uma grande atriz de Hollywood que decide revelar todos os seus segredos na velhice, chamando uma jornalista para escrever sua biografia. Eu me senti, de fato, lendo uma biografia e contemplando um documentário. O que mais me fisgou foram os personagens: todos eles parecem pessoas reais. O tema “celebridades famosas” nos dois livros, as grandes reviravoltas e todo o conceito de conheça-a-pessoa-por-trás-da-lenda também ajudam muito na experiência. Fiquei tão envolvida (e obcecada) enquanto lia que colocar o livro de lado para assistir a um filme estrelado por Evelyn Hugo ou dar play em um álbum de Daisy Jones and The Six me parecia ser não apenas possível, mas também perfeitamente natural.

Ted Lasso, série

Por Carol Alves

Quando a pandemia começou, aproveitei todas as oportunidades que tive para assistir alguma coisa, escrever, ler, ouvir música e realmente tentar esquecer, nem que por pouco tempo, a realidade bruta do mundo. Nesse processo, acabei revendo Buffy: A Caça Vampiros (uma favorita da vida), encarando maratonas de séries gigantes e muito antigas, como Northern Exposure (uma Twin Peaks mais otimista, porém tão fantasiosa e maravilhosa quanto), voltei a ler YAs de todos os tipos e me viciei em álbuns que eram meus favoritos durante a adolescência, como Born to Run, do Bruce Springsteen, e Pet Sounds, do Beach Boys.

Ted Lasso, nova série da AppleTV, também encontrou seu espaço. Aqui, Jason Sudeikis vive o personagem-título, um técnico de futebol americano que, depois de passar por problemas no casamento, muda para a Inglaterra e começa a treinar um time de futebol regular, como o que conhecemos no Brasil. Um homem incrivelmente otimista, Lasso chega e começa, aos poucos, a conquistar e mudar a cabeça de cada uma das pessoas ao seu redor, ao mesmo tempo que tenta se curar pelo fim do casamento.

Mesmo sendo uma pessoa que detesta futebol, a série me fez sorrir de ponta a ponta em todos os seus episódios. A dinâmica entre os personagens, o roteiro simples mas cativante, o jeito como Lasso faz a vida das pessoas ficar melhor apenas por estar presente (se tornando uma versão masculina de Leslie Knope, de Parks and Recreation), faz com que a série seja especial e uma das melhores produções feel good que vi nos últimos tempos. Uma obra pra todo mundo — até se você, assim como eu, não gosta nem um pouco de futebol.

The Office, série

Por Mariana Motta

Comecei a assistir The Office em meados de abril, depois de quase um mês de isolamento social, quando finalmente me dei conta de que a situação em que estávamos era bem pior do que imaginava, e que um ponto final não parecia estar perto. O tamanho da série me atraiu (nove temporadas de episódios curtinhos, só 20 minutos), assim como a reputação que The Office tem como uma das melhores comédias da história da TV. Eu já era familiarizada com algumas cenas, já havia assistido ao Fire Drill e ao First Aid Fail múltiplas vezes antes e já tinha me acabado de rir todas as vezes, mas nada podia me preparar para a experiência de assistir à série inteira. The Office é perfeita, simples assim.

Tudo sobre essa série é perfeito: os personagens, os enredos, o timing das piadas, o cenário, tudo colabora para tornar The Office, sem dúvida, a melhor série de humor a que eu já assisti. É verdade que as melhores séries do mundo nos conquistam com seus personagens, e The Office não é diferente. É impossível não amar a energia caótica do Dwight (Rainn Wilson), a doçura da Pam (Jenna Fischer), a severidade inacreditável da Angela (Angela Kinsey), as alterações de humor repentinas da Kelly (Mindy Kaling), a calma hilariante do Jim (John Krasinski), a burrice franca do Kevin (Brian Baumgartner) e a suposta superioridade do Oscar (Oscar Nuñez). Acima de tudo isso, porém, foi a sinceridade do Michael (Steve Carell), a inegável estrela da série, que mais me cativou desde o primeiro episódio. Ao mesmo tempo que pode parecer extremamente egoísta, forçando as coisas a serem da forma que ele deseja para que ele seja o protagonista da situação, Michael também se mostra um chefe verdadeiramente preocupado com os desejos de seus funcionários, dedicado a colocar seus colegas de trabalho e a Dunder Mifflin na frente dos seus desejos pessoais. Por meio de suas piadas ora sem graça, ora inapropriadas, ele cativa não só a audiência, mas também os próprios personagens (que passam a amá-lo), se tornando o coração e a alma da série; ao longo de toda sua passagem pelos corredores da Dunder Mifflin, os telespectadores crescem com Michael, e é um presente vê-lo amadurecer, mudar, e encontrar o destino com o qual sempre sonhou.

Além de Michael, o casal Jim e Pam é o outro destaque positivo da série. A expectativa para os dois ficarem juntos é a força das primeiras três temporadas da série, e, quando os dois finalmente ficam juntos e os telespectadores veem seu relacionamento amadurecer e evoluir, é um ponto que alegra o coração. Jim e Pam são um casal fofo, verdadeiro e honesto, cujo relacionamento se desenvolve de forma orgânica e natural; eles crescem juntos, se apoiam mutuamente e se amam de verdade, e é um alívio ver um casal heterossexual com uma energia tão balanceada e divertida. Contudo, apesar de Jim e Pam serem um dos casais mais celebrados de toda a história da televisão, tenho que confessar que Angela e Dwight são o meu par favorito da série. Ambos são extremistas, e se opõem na mesma medida em que se completam; contudo, a estranheza dos dois se complementa perfeitamente, e também traz esperança àqueles que assistem à série: em um perspectiva lógica, os dois esquisitões seriam os últimos do escritório a encontrar amor e companheirismo, mas eles acham um ao outro de uma forma brilhantemente natural, e são capazes de superar dezenas de obstáculos para ficarem juntos no fim.

The Office é uma série que acalenta, que diverte, que traz familiaridade e alegria ao espectador. Ter o privilégio de assistir da primeira fila às pegadinhas entre Jim e Dwight, ao florescer do amor entre vários casais no escritório, à zombaria divertida entre os colegas de trabalho lembra momentos mais simples, e evoca a sensação de estar de volta a sua sala de aula do ensino médio, ou ao seu escritório num dia de segunda feira, ou até mesmo numa reunião de família aos domingos.

Ticket to Ride, game

Por Ana Vieira

Dentre as muitas frustrações que a pandemia me trouxe, a impossibilidade de viajar pra ficar perto de quem eu gosto e a impossibilidade de pegar um Uber pra ficar jogando conversa fora com as pessoas que eu gosto, foram, talvez, as mais marcantes. Os encontros no Zoom se tornaram comuns, mas, como constantes, também exaustivos. Nosso cérebro, que ama ver gente que a gente ama, também precisa se exercitar mais pra prestar atenção nos pixels que emulam a presença dos nossos amigos e dos nossos amores. Depois de semanas de receber prints do jogo, enquanto nada entendia e, sinceramente, pouco parecia me apetecer, ganhei Ticket to Ride de presente e, em uma partida do jogo de tabuleiro versão online, eu já estava vendida.

Ticket to Ride, disponível na Steam, consiste em criar rotas de trem (ou túneis), de forma a conectar estações. E só. Simples assim. Os mapas, que podem ser comprados de forma avulsa ou em pacote, são os mais diversos e oferecem algumas possibilidades diferentes de jogabilidade. Mas, de maneira geral, você compra cartas, recebe uma quantidade de carrinhos, e entra em partidas online, em grupos privados, ou até mesmo sozinho jogando contra robôs, para escolher as rotas que vai decidir criar — ou tentar, porque acredite, as coisas podem ficar intensas.

Foi com um joguinho de trem (ou de trenzinho, como chamamos eu e a @), que criei uma rotina muito gostosa de ligar uma chamada de vídeo, abrir o jogo, passar horas jogando conversa fora, contando do dia, sabendo do dia, enquanto me distraio com um jogo que mistura lógica, planejamento e, vez que outra, facadas nas costas, vingança e risadas maquiavélicas. É um investimento pequeno pra uma distração divertida, em especial quando você joga em grupo com todo mundo se digladiando tentando conquistar as mesmas estações.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana C. Vieira.

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