Categorias: LITERATURA

Renovando o ensaio: Falso Espelho, de Jia Tolentino

O ensaio é de todas as formas literárias talvez a mais fluída e ambígua. Definida por seu criador, Montaigne, como um “pensar na página”, o ensaio comporta em si todos os assuntos existentes no mundo e todo tipo de opinião sobre eles, muitas vezes opiniões contraditórias mantidas pelo próprio autor. Nascido no iluminismo, o ensaio tem como fio condutor o exame cuidadoso de um objeto, como se o escritor o virasse em suas mãos e examinasse lentamente cada um dos seus lados. O ensaio exige paciência e flexibilidade de opinião, além de abertura suficiente para colocar na página processos íntimos de construção de raciocínio.

Tudo isso coloca o ensaio em oposição direta com a forma como nos comunicamos na internet. Por isso é uma surpresa que o primeiro ensaio de Falso Espelho seja justamente sobre a internet. Com o nome de “O Eu na Internet” o texto começa demarcando a posição peculiar de Jia Tolentino no ecossistema online: ela é parte da estreita geração que chegou na internet quando ela “ainda era boa”, os adultos de vinte e tantos, trinta anos que entraram na internet jovens o suficiente para serem nativos nela, mas também cedo o suficiente para que ela ainda não tivesse sido dividida e conquistada por agentes do capital. Tolentino, como eu aliás, chegou a na internet quando ela era uma terra de ninguém de criatividade e expressão. Um espaço muito parecido com o que o ensaio proporciona.

Falso Espelho

Esse primeiro ensaio estabelece muitos dos temas que ela irá examinar nos seguintes e é também o mais interessante da coletânea justamente porque escapa aos discursos que normalmente se faz a respeito da internet: Tolentino não vê as redes sociais como uma libertação, nem como portadoras do apocalipse, mas como um espaço de debate público com dinâmicas próprias que se pode analisar e modificar. Porque o ensaio é sempre uma forma profundamente pessoal, é mais fácil ver como a pessoa que a autora é permite a ela fazer as análises que faz e com isso o como a posição geracional de Tolentino anuncia uma mudança na literatura.

Quando Falso Espelho foi lançado, com seus ensaios extremamente pessoais a respeito da cultura contemporânea, imediatamente foram feitas comparações com Joan Didion. Embora as duas autoras tenham estilos muito diferentes, para ambas estar em uma geração em certa medida “de passagem” se mostrou fundamental. Didion escreveu sobre o movimento hippie quando tinha 32 anos, velha demais para ser uma, mas jovem demais para ser identificada com os pais que o movimento rejeitava. Tolentino tem idade suficiente para ter acompanhado as mudanças recentes na mídia e no discurso público, mas também para transitar por elas com facilidade.

Essas mudanças do ambiente cultural são o tema de outros ensaios como “O Culto da Mulher Difícil” e “Sempre Otimizando” em que Tolentino analisa as formas e o impacto do discurso feminista mainstream e sua relação com o capitalismo e os privilégios instalados. Nesses textos a autora se mostra bastante perspicaz em notar a mulher que deveria ser e as armadilhas dos discursos superficiais de emancipação que brotaram nos últimos tempos.

Mas talvez o melhor ensaio do livro seja aquele em que Tolentino se permite ser mais pessoal: “Ecstasy”, texto em que ela entrelaça abordagens teóricas inspiradas por psicodelistas como Aldous Huxley e sua própria experiência com drogas. Se o ensaio é o pensar na página, nesse ela explora sensações igualmente inacabadas, alternando habilmente entre o pessoal e o coletivo.

Como em qualquer coletânea, os ensaios de Falso Espelho são irregulares e ao mesmo tempo que entrega uma análise aberta e precisa em “O Eu na Internet”, em “Heroínas Puras”, ensaio sobre personagens femininas na literatura, Tolentino parece estar espremendo seu objeto para caber em uma tese pré-determinada. No entanto, mesmo nos ensaios menos bem-sucedidos, a autora consegue alcançar uma renovação de uma forma por vezes esquecida, recuperando esse tipo de raciocínio vindo do século XVIII como uma maneira perfeita para encarar dilemas contemporâneos. Tolentino entende perfeitamente que o ensaio é uma forma do não-saber e o usa com maestria para provocar uma época muito cheia de certezas.


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