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Rafiki, uma história de amor

“Atualmente, estou escrevendo uma história de amor porque eu acredito que existe uma escassez de histórias de amor vindas da África”, anunciou Wanuri Kahiu, diretora de Rafiki, em uma palestra no TEDxEuston, já em 2014. O filme só foi gravado três anos depois e lançado em 2018, em meio a polêmicas e entraves políticos em seu país de origem, o Quênia, onde práticas sexuais consideradas “antinaturais” (incluindo-se aí práticas homossexuais) são criminalizadas e podem ser punidas com penas de até 14 anos de prisão.

Atenção: o texto a seguir pode conter spoilers!

Rafiki significa “amiga” em língua suaíli, um dos idiomas oficiais do Quênia, e não é difícil entender a relação entre o título e o conteúdo da obra. O filme acompanha o romance entre as duas protagonistas, Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva), jovens que se encontram na fase entre o fim da adolescência e o começo da vida adulta. No meio desse romance, um elemento já muito conhecido de todos nós de outros carnavais: a rivalidade entre as famílias e a disputa política entre os pais de uma e de outra.

Em entrevista para a BUILD Series, realizada em 2019, Wanuri Kahui explica como aconteceu a escolha da história que seria retratada do filme:

“Bem, mais do que qualquer coisa eu só queria contar uma história de amor. Eu estava bem frustrada pelo fato de que todos os outros tinham histórias de amor do mundo todo. Os europeus têm histórias de amor, e os americanos têm muitas muitas muitas muitas histórias de amor. Mas africanos não têm tantas histórias de amor. Então eu queria só poder adicionar uma história de amor ao cinema, à história cinematográfica.”

Esse foi o primeiro passo, e ela foi atrás dessa história de amor que tanto queria contar. Sua busca a levou até o conto intitulado “Jambula Tree”, da escritora ugandense Monica Arac de Nyeko, a partir do qual a trama de Rafiki foi adaptada. A história original se passa em Kampala, na Uganda, mas o roteiro adaptado pela própria diretora se desenrola em Nairóbi, Quênia, onde ocorreram as gravações. A equipe também foi composta majoritariamente por quenianos, incluindo as duas protagonistas que não tinham experiência anterior no cinema.

O filme estreou em 2018, no Festival de Cannes, e fez sua aparição também em terras brasileiras, no Festival do Rio. Apesar da ótima recepção internacional, Rafiki foi banido em sua terra natal por conta da temática homossexual, e a diretora precisou recorrer à justiça para ganhar o direito de exibir o filme em um cinema queniano por uma semana para que ele preenchesse os critérios para uma eventual indicação ao Oscar. As sessões lotaram, mas a obra não foi escolhida para representar o país na premiação.

Ainda na entrevista da BUILD Series, Kahui explicou que a censura ocorreu durante a fase de análise para classificação indicativa de público. O órgão responsável alegou que o final do filme era “esperançoso demais”, e que o filme poderia receber uma classificação e autorização para distribuição no país caso a diretora concordasse em alterar essa parte da obra para inserir um tom de remorso. Ela se recusou, e o filme foi banido.

Ressaltando e enaltecendo nomes de artistas queer contemporâneas que lhe serviram de inspiração, Wanuri Kahiu enfatizou o fato de que histórias LGBTQI+ em geral são marcadas por sofrimento e tragédia, e ela não queria que a obra se tornasse mais uma nessa lista. Não era isso que ela tinha em mente para Rafiki. “Eu acredito que o direito de amar é o direito humano mais básico,” defende.

Kahui também mencionou o processo que, à época da entrevista, havia levado ao judiciário em defesa da liberdade de expressão. Esse direito está previsto na Constituição queniana, mas ainda não conta com as leis necessárias para ser exercido, uma vez que a atual Constituição do país é extremamente recente. Observa-se daí que a luta da diretora vai muito além dos direitos do grupo LGBTQI+ — grupo do qual a diretora não faz parte — e perpassa uma questão mais geral de liberdade artística e de expressão, de forma geral.

Em sua palestra TED mais recente, de 2017, Wanuri Kahui fala sobre Rafiki e sua inserção em um movimento artístico autointitulado AfroBubbleGum, que advoga pelo direito de produzir a arte pela arte, por uma representação “divertida, feroz e frívola da África”, histórias leves que fujam à história única massivamente representada do “povo africano” faminto e marcado pela violência. Ser saudável, feliz e simplesmente existir, sob determinadas condições e para algumas pessoas e grupos, também é político.

Rafiki tinha um potencial imenso para ser uma história de violência, mas Wanuri Kahei queria mostrar uma história de amor. O filme não desvia completamente da violência, que é usada como recurso narrativo e traz o ponto de tensão que leva à conclusão do filme. Mas mesmo o evento violento — traumático e pesado como não pode deixar de ser, não estou aqui para negar ou suavizar esse ponto — não é o que define a trama ou a obra. É como romance que Rafiki começa e é como romance que Rafiki termina, mesmo em seu final aberto.

Não existe momento melhor para lembrar que existir e ser visto também pode ser político do que em plena semana da visibilidade lésbica. Em Rafiki isso aparece duplamente. Existem histórias de amor na África, existem histórias de amor entre mulheres. E mostrar isso, em toda a sua beleza e leveza, é uma postura política. Não se trata de esquecer os problemas, mas de pensar além deles, pensar em outras possibilidades. Essa leveza e alegria, o verdadeiro estilo Bubble Gum (chiclete, em tradução literal) aparece muito claro inclusive na estética visual da obra, em suas cores vivas e doces.

Imagem do filme Rafiki

O movimento AfroBubbleGum, assim como o AfroFuturismo, ao qual a diretora também se filia, dialogam com a proposta de retomada do poder de contar as próprias histórias, narrar o próprio presente e imaginar as próprias possibilidades de futuro, por tanto tempo negada aos povos colonizados pela história colonial.

A luta pela visibilidade lésbica vai muito além do direito de amar e das histórias românticas. A sexualidade não é um elemento que se torna relevante apenas nesse contexto e perpassa questões de identidade, pertencimento e participação social de formas mais amplas. Não somos lésbicas apenas quando nos relacionamos romântica e sexualmente com outras mulheres. Somos lésbicas também quando trabalhamos, quando fazemos arte, quando caminhamos na rua, quando existimos. Romance não é tudo. Mas é uma parte. E conecta, e pode ajudar a normalizar nossa existência.

A beleza de Rafiki está lá desde o primeiro segundo, desde a primeira fala, desde a primeira vez que as protagonistas se olham e tudo fica muito claro. Nada no filme é surpreendente ou inesperado, mas quase (e com esse quase eu excluo especificamente o episódio violento do filme) tudo ali é exatamente o que a gente quer e precisa ver em um romance leve entre duas jovens.

A arte tem, entre outras, a função de comunicar, de estabelecer vínculos, de compartilhar experiências individuais. Em uma de duas palestras no TED, Wanuri Kahui ressalta que o que ela tem a dizer não é único e original, e que é justamente isso que traz à tona a possibilidade de identificação no público. São nossas experiências em comum, ainda que não sejam idênticas, que nos conectam e permitem que a comunicação se estabeleça. Rafiki não é uma história inovadora, e não precisa ser. Basta existir.


Referências:

Mulher no Cinema – “Rafiki”: conheça o filme que fez história em Cannes e foi banido no Quênia
Wanuri Kahiu – Fun, Fierce and Fantastical African Art (com legendas em português) – TED Talk 2017
Wanuri Kahiu – No More Labels (com legenda automática em inglês) – TEDxEuston 2014
Wanuri Kahiu – Afrofuturism in popular culture (com legenda automática em inglês) – TEDxNairobi 2012
Wanuri Kahui – Entrevista BUILD Series (com legenda automática em inglês)
Chimamanda Ngozi Adichie – O perigo da história única (com legenda em português)
Site do movimento AfroBubbleGum
Ficção social, AfroFuturo e a importância de projetar o mundo que queremos, texto de Kelly Ribeiro.
Chimamanda, o perigo de uma história única e como isso é uma questão de sobrevivência, texto de Kelly Ribeiro.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana C. Vieira.

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