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Vingança: a menina com o brinco de estrela e sua sede de justiça

Imagine a seguinte trama: garota bonita e sensual não aceita as investidas de um homem e por isso acaba sendo violentada, fica à beira da morte e retorna para se vingar de seus algozes. Parece familiar não? Vingança (Revenge, 2017) é um filme francês do sub-gênero chamado rape and revenge (ou em português vingança de estupro), mesmo gênero de filmes como Doce Vingança (I Spit on Your Grave, 1978), este que ganhou não só um remake em 2010, mas duas sequências, e virou uma espécie de trilogia do terror contra mulher.

Aviso de gatilho: este texto fala sobre estupro.

No início dos anos 1960, nos Estados Unidos, surgia nos cinemas americanos o gênero exploitation (ou “exploração”, em português), onde se encaixava a produção de qualquer filme que tentava ter sucesso financeiro explorando alguma tendência momentânea, um gênero específico (normalmente com valor de choque) ou um assunto escabroso, dialogando com sexo e violência em todas as vezes. Os filmes do gênero que tinham como temática o sexo, passaram a ser chamados de sexploitation (“sexo-exploração”) e, consequentemente viraram um sub-gênero.

Na década seguinte, surgiu o então sub-sub-gênero rape and revenge, onde seus filmes narram a história de alguma mulher muito bonita que, após ser estuprada, ia atrás de vingança contra seus estupradores (mais uma vez vemos o trama de Revenge!) e matava um por um de seus algozes com doses cavalares de sadismo. Se quando o precursor do gênero, I Spit on Your Grave, foi lançado, ganhando proibições de exibição no Reino Unido e sendo taxado de misógino e execrado por movimentos feministas por mostrar uma longa e realista cena do estupro da personagem principal, a realidade de Vingança é bem diferente.

Vingança

O filme da diretora Coralie Fargeat está sendo utilizado como um filme “referência” para a geração #MeToo. Em seu primeiro longa, Fargeat resgata o gênero, antes dominado por direções masculinas, e coloca seu filtro feminino — não a beleza da fotografia, da qual falaremos em seguida, ou o tom meio hype, meio pop, meio bubblegum que o filme tem (vide os brincos inesquecíveis da protagonista, quase um ator à parte, no início trazendo a ela uma vibe ninfeta para, no final, se transformar em uma espécie de assinatura de super-heroína), mas sim a dosagem do que pode e deve ser carregado de tintas fortes. Evocando mais uma vez o icônico I Spit on Your Grave como referência, enquanto outros filmes do gênero tinham longas cenas do ato do estupro, com um detalhamento gráfico espantoso e uma crueldade contra vítima abismal, o filme da diretora francesa passa longe desse propósito. Não, a vítima não vai ser estuprada com requintes de crueldade para gerar desconforto no espectador, mas ela ainda vai ser estuprada e a violência que ela sofreu ainda vai ser um pesadelo para ela. É como se filmes como I Spit on Your Grave quisessem falar com o público masculino e Vingança, com o feminino. Assim, ao se comunicar com o público que sofre essa violência, o grafismo cruel e sádico não precisa estar presente pois nós, mulheres, conhecemos muito bem o sapato que calçamos.

A parte técnica de Vingança não deixa a desejar. Não gosto muito de me ater a detalhes técnicos nos textos que escrevo, mas sua tecnicidade é um detalhe mais que importante. Podemos citar o belíssimo cenário do deserto marroquino e a ampla casa com vidro colorido, responsáveis por abrilhantar o tom pop do filme; a sonoplastia e trilha sonora, que nos ajudam a embarcar na saga da personagem por vingança; ou as tomadas de câmera e edição que pretendem tirar seu fôlego. No meio de tudo isso, é a fotografia que se torna a queridinha, esta que transborda em cores quentes, carregadas, estourando nos contrastes.

Atenção: este texto contém spoilers!

Vingança, narra a saga de Jen (Matilda Lutz), jovem bela que sonha em ser atriz em Los Angeles. O filme tem início com Jen chegando à bela casa no deserto de seu namorado, Richard (Kevin Janssens) para uma escapadinha romântica. Logo que a história se desenvolve, ficamos sabendo que Jen é, na verdade, a amante de Richard, que por sua vez tem esposa e filhos. Para atrapalhar o sossego e romance dos dois pombinhos, chegam sem aviso à propriedade Stanley (Vicent Colombe) e Dimitri (Guillaume Bouchède), sócios de Richard que estão se preparando para uma caçada. Ambos os sócios recém chegados passam a desejar a sensual Jen, que não faz questão alguma de diminuir seu charme com a chegada dos dois homens (e está errada?) à casa, e é a partir daí que o caldo engrossa para a protagonista.

Vingança

Stanley, como um bom espécime da fauna masculina heterossexual que acha que basta o sorriso de uma mulher para comprovar que ela o deseja, resolve investir na moça quando Richard precisa se ausentar rapidamente e, quando ela, constrangida com a investida, educadamente dispensa Stanley, ele se acha no direito de estuprá-la. Pior ainda, com a conivência de Dimitri, que também a desejou de forma objetificante desde que chegou, mas decide não participar do estupro, apesar do convite do amigo. Como falei anteriormente, o ato não é dotado de tintas fortes; na verdade, é retratado de forma crua e sem a intenção de piorar o abominável. Coralie Fargeat consegue mostrar o grau de degradação da harmonia naquele ambiente através de uma maçã mordida por Jen, que ela deixa cair com o susto de ver os então intrusos na propriedade a observando como um pedaço de carne. A fruta é resgatada do chão por Stanley, que prontamente a coloca repousando em cima da mesa, do primeiro ao terceiro ato do filme, secando e apodrecendo naturalmente. Se na história bíblica a fruta representa a sucumbência ao pecado original, no filme é a espectadora de todo os pecados que estão por vir.

Com sua volta, Richard recebe a notícia do estupro pela boca do próprio sócio Stanley. Richard, em um primeiro momento, se mostra “compreensivo” (com muitas aspas no compreensivo, por favor) com a namorada e “puto” (idem) com seu sócio. Como solução para situação, Richard tenta fazer um acordo financeiro com Jen por seu silêncio, mas ela só pede para o namorado tirá-la daquele inferno e levá-la para casa. Não conseguindo ver muita solução para o fim rápido de seu pesadelo e agora sendo agredida fisicamente pelo namorado, Jen ameaça contar pra a esposa de Richard sobre seu caso e, ao tentar fugir pelo deserto, acaba sendo empurrada pelo próprio namorado precipício abaixo, onde é empalada por um toco de árvore.

Dando o caso por encerrado, os três sócios voltam para casa e se preparam para caçar e se livrar do corpo de Jen na sequência e, a partir desse momento, começamos a ver a saga de Jen lutando pela própria sobrevivência. Com o filme se desprendendo de qualquer verossimilhança e Jen usando as melhores técnicas de MacGyver (Richard Dean Anderson), a mocinha consegue se livrar do empalamento e, com a volta de seus algozes procurando por seu corpo, dar início a sua vingança. Se em I Spit on Your Grave esse processo se dá com técnicas e planejamentos quase avançados, a vingança de Jen acontece de forma mais simples (porém, para seus espectadores, não menos dolorosa). No melhor estilo “com uma espingarda de caça na mão”, cedida gentilmente por uma de suas vítimas, “uma vingança na cabeça e sangue nos olhos”, Jen sai em busca de seus outros algozes quase como uma Rambo-girl, fazendo-os cair um por um a seus pés. O ápice do filme, e sua terceira parte, se dá com o confronto final entre Jen e o pior de seus perpetradores, Richard. E obviamente esse confronto acontece dentro da casa onde sua vida foi maculada e a confiança que Jen tinha em Richard, quebrada. Em uma sequência de cenas literalmente sanguinolentas, Jen completa sua vingança e ganha paz de espírito em troca.

Vingança

Assisti ao filme na mesma semana que descobri o que eram os “incels” (involuntarily celibate ou, em português, celibatários involuntários) e os personagens do filme me lembraram os termos utilizados por membros do grupo para categorizar as mulheres e homens. Para quem não conhece, incels são homens héteros que não conseguem se relacionar com mulheres e culpam as próprias mulheres e homens sexualmente ativos por seus fracassos. Reunidos em grupos na internet, eles pregam a misoginia, fazem apologia ao estupro e ao feminicídio. Nesse contexto, a personagem Jen se encaixa como uma stacy e Richard como um chad, mulheres e homens, respectivamente, sexualmente ativos e culpados por essas pessoas.

Já Stanley e Dimitri seriam considerados incels: o estupro se deu não apenas pela raiva causada pela provocação sexual de Jen, na lógica do “ela tava pedindo pra ser estuprada”, ao dançar com Stanley, mas pelo argumento que a mesma acaba tendo que usar para negar qualquer tipo de envolvimento físico entre os dois. Jen, sendo provocada pelo próprio Stanley, que não aceitava que ela não ficasse com ele por estar com Richard, acaba tendo que falar que também não ficaria com ele por ele não fazer o “tipo dela”. A fala de Jen é toda dirigida pelos complexos de inferioridade do personagem, que a leva a falar isso para corroborar dentro de si o que está prestes a fazer. Não apenas pelo tesão doentio, mas pela raiva. Numa sociedade, onde vemos pessoas cometendo atentados apenas por ódio a mulheres e homens que se sentem no direito de assediar, estuprar e chantagear mulheres apenas por estarem em cargos de poder, Vingança está se tornando uma referência para o momento que estamos vivendo, onde mulheres, principalmente do ramo do entretenimento, estão indo a público denunciar seus assediadores.

Nesse sentido, ele pode ser considerado um filme inspirador pois mostra a redenção sobre-humana da personagem principal e o sofrimento dos que lhe causaram dor. Sim, ela sofreu, mas deu a volta por cima e quem lhe fez mal vai pagar centavo por centavo. Fazendo que com o filme, o gênero, acabasse saindo do lugar de misoginia por depender inevitavelmente da violência sexual contra mulheres para se ter uma história, passando a dar às mulheres uma espécie de fantasia vingativa contra seus algozes. Se a violência contra nós vai continuar existindo, pelo menos que nos deixe com a vaga fantasia de que podemos nos vingar.

Lívia Maria Rocha – Mezzo Aquariana com ascendente em câncer (dizem que isso é bem complicado)/ mezzo inadequada para sociedade. Tem yorkshire de 2,5 kg que compensa o baixo peso com excesso de personalidade. Perde boas horas do seu dia vendo vídeos de bichinhos e tem uma memória de peixinho dourado. Ah, e também é uma pesquisadora em formação, em constante gerúndio, sempre pesquisando.


** A arte em destaque é de autoria da editora Thayrine.

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