Categorias: LITERATURA

Autobiografia Precoce: a vida como obra de Patrícia Galvão

Autobiografia Precoce, de Patrícia Galvão, obra republicada pela editora Companhia das Letras em 2020, narra o começo da vida e o começo da carreira política da escritora, desenhista e militante comunista (entre muitas outras coisas) popularmente conhecida como Pagu. A obra de apenas 144 páginas, publicada pelos filhos após a morte da autora, foi escrita em torno de 1940 como uma carta para Geraldo Ferraz, seu segundo companheiro e pai do seu filho mais novo. Após a morte de Gilberto, o documento foi herdado pelo filho do casal, que resolveu pela publicação (originalmente pela editora Agir, sob o título Paixão Pagu: a autobiografia precoce de Patrícia Galvão).

A autora começa sua autobiografia precoce informando que desde pequena sempre teve o impulso de dar tudo de si, até a aniquilação. É essa a chave de compreensão de toda a vida de Pagu, e é sob essa luz que ela narra o que considera suas “primeiras experiências sexuais” aos 12 anos de idade, com um homem adulto. O que hoje todas nós compreendemos muito claramente como uma experiência de abuso, na visão de Patrícia foi apenas uma comprovação ou uma consequência de sua própria maturidade, já naquela idade. Como resultado dessa “iniciação sexual precoce”, engravidou aos 14 anos, abandonou a escola e passou um período acamada por conta de uma crise depressiva. Além desses fatos, o único contato que temos com a infância de Pagu é muito geral e de passagem.

Após essa revelação, acompanhamos quando a jovem Patrícia se insere no círculo artístico-intelectual da sua época, deixa a casa dos pais e se submete a um casamento apenas de fachada para conseguir a emancipação da família, engravida novamente, sofre um aborto, e se une a Oswald de Andrade, com quem tem seu primeiro filho, Rudá de Andrade. O retrato de Pagu que vemos no decorrer de todos esses acontecimentos é o de uma jovem em busca de amor e em busca de um propósito. Patrícia nunca se dobrou a nenhum tipo de convenção social e dedicou sua vida à concretização do sonho coletivo de um mundo mais justo.

Apesar de o trabalho político de Pagu ocupar uma porção considerável da narrativa, o foco não é sua ideologia e luta políticas, mas sua vida como um indivíduo dentro de um contexto de militância. Mais que um livro de divulgação do comunismo, Autobiografia Precoce se concentra no que é ser uma mulher jovem no meio dessa luta. As questões centrais que se destacam na obra são militância, machismo e maternidade, de forma quase sempre muito entrelaçada.

Já na vida adulta, a partir da segunda gravidez (que termina em um aborto), Patrícia parece flertar com a maternidade como uma forma de dar propósito à sua vida, de transcender a si mesma, ainda dentro dos padrões impostos pela sociedade. É quando o primeiro filho nasce que ela se depara com a realidade de que a maternidade por si só não é um propósito de vida. Pagu passa pelo choque que muitas mulheres na mesma situação passam, e narra nas páginas de suas memórias toda o distanciamento emocional que sente com relação ao filho em um primeiro momento, entrelaçado com o sentimento de culpa que com muita frequência acompanha a experiência da maternidade na nossa sociedade. Mais à frente, já no curso de sua luta política, fica muito evidente como sua relação com Rudá e com a maternidade muda. Ela não se adequa à imagem da mãe que a sociedade exige, mas isso não significa que ela deixe de amar e se importar com o filho.

Autobiografia precoce - fotos de Pagu

O relacionamento com Oswald é outro ponto que se estende pela obra como um todo. Inicialmente, o que Patrícia busca na relação é afeto e companheirismo, coisa que nunca encontra realmente. O carinho que ela em alguma medida sente por ele no começo, vai se dissipando pouco a pouco, à medida em que o descompromisso com a monogamia do companheiro se estende. A não-monogamia por si só não é um problema, se levarmos em conta que a monogamia e a família nuclear são construções da sociedade burguesa patriarcal, mas o que se observa no relacionamento entre Pagu e Oswald é uma assimetria de posições que também se observa em muitos relacionamentos não-monogâmicos heterossexuais nos dias atuais, em que o homem tem total liberdade, enquanto à mulher cabe apenas uma liberdade hipotética.

Ainda assim, e mesmo com o desencanto completo de suas expectativas sobre o relacionamento, os dois persistem por muito tempo e acabam por formar uma família fora dos moldes tradicionais. Oswald se encarrega do filho enquanto Patrícia se dedica à sua atuação política, e com frequência se mostra disposto a ajudá-la em momentos de necessidade, ainda que ele mesmo já tivesse rompido sua atuação junto ao partido comunista. É no mínimo irônico, entretanto, que Pagu até hoje seja conhecida como “mulher de Oswald de Andrade”, quando essa definição parece nunca ter se adequado exatamente à realidade do relacionamento entre os dois.

No que se refere especificamente à militância política de Patrícia, a ênfase maior de sua Autobiografia Precoce recai sobre as situações de assédio e machismo que ela vivencia nesse contexto. A experiência de Pagu deixa claro que lutar contra a sociedade de classes não é suficiente para atingir uma sociedade igualitária. Abraçar a ideologia comunista não exime ninguém de ser machista e abusador, o que é comprovado pelas sucessivas investidas que a autora sofre ao longo dos anos, por parte dos mais diversos homens. A fama de Pagu como libertina parece ser o elemento que a torna propriedade pública, disponível para qualquer tipo de abordagem e inclusive para prostituição em prol da causa — coisa que jamais se pensaria exigir de nenhum homem.

Em realidade, nos termos colocados pela própria autora, a relação de Patrícia com a sexualidade é muito mais complexa do que isso. Apesar de ela certamente desviar muito dos padrões de virtude e “honestidade” esperado das mulheres da época, e até de hoje, claramente não se trata de uma situação de simples “liberdade” ou “empoderamento” (entre muitas aspas) sexual. Pagu deixa claro que demorou muitos anos para conhecer o prazer sexual, e no decorrer do livro a reação recorrente dela a qualquer aproximação desse tipo é de nojo e desconforto. Em linhas gerais, o comportamento sexual de Patrícia parece ser muito mais uma forma de busca de afeto e de autoflagelação do que a busca pela satisfação dos próprios apetites.

No que diz respeito aos assédios, a sensação dos relatos contidos em Autobiografia Precoce é de uma claustrofobia profunda: não há para onde fugir. Por algum tempo, Pagu se agarra à esperança de que é uma deficiência de formação dos militantes brasileiros, apenas para se desiludir novamente em sua viagem à Rússia. A narrativa de Pagu é um tanto pessimista, o que em alguma medida reflete sua personalidade depressiva, mas nem por isso deixa de ser um relato fascinante em primeira pessoa da vida dessa figura tão notável da história política do Brasil. É uma leitura curta, densa, fascinante e um tanto revoltante, tão atual mesmo cerca de 90 anos depois do momento narrado. Patrícia Galvão foi uma grande artista em diversos campos, dentro e fora daquilo que é tradicionalmente conhecido como arte — sua própria vida foi sua obra, e essa obra não morre.

Banner - Autobiografia Precoce, ficha técnica, 5 estrelas

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.


** A arte em destaque é de autoria da editora Paloma.

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