Categorias: CINEMA

Recriando memórias em A Mão de Deus, de Paolo Sorrentino

Paolo Sorrentino é um cineasta italiano, nascido em 1970, em Nápoles. Em 2014, ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por A Grande Beleza. No final do ano passado, seu filme mais autoral chegou à Netflix,  A Mão de Deus, indicado para a disputa de Melhor Filme Estrangeiro na edição do Oscar 2022. O filme retrata com dor e leveza as dificuldades de crescer, especialmente, ao passar por um grande trauma, enfrentadas pelo personagem principal, Fabietto Schisa, inspirado no próprio Sorrentino. Sorrentino perdeu os pais aos 16 anos, nos anos 1980, asfixiados por um vazamento de gás em sua casa de férias. Algumas décadas, filmes e um Oscar depois, o diretor acreditou que chegara o momento de ficcionalizar sua história para o grande público. O resultado é um filme bonito e pessoal que retrata também a Nápoles dos anos 80 e um personagem mítico da cultura napolitana contemporânea: Diego Maradona.

O nome do filme se refere ao gol de mão feito por Maradona, pela Seleção Argentina, contra a Inglaterra, nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986. Sem VAR, o juiz validou o gol, justificado por  Maradona como uma cabeçada com a ajuda da mão de Deus. O placar final do jogo foi 2×1 para a Argentina, lavando a alma dos argentinos que sofreram com o imperialismo inglês na Guerra das Malvinas.

Em A Mão de Deus, acompanhamos, através dos olhos do personagem principal, Fabietto (Filippo Scotti), uma série de personagens extravagantes e divertidos ao seu modo, especialmente a sua grande e divertida família napolitana, que se encontra frequentemente para almoçar, passear e beber. Fabietto é um jovem de 16 anos, torcedor fanático do Napoli e de Maradona, que sonha em ser diretor de cinema e tem uma paixão platônica por uma tia mais velha. Solitário, só tem um amigo fora do núcleo familiar, um contrabandista de cigarros também torcedor do Napoli. Fabietto tem um irmão um pouco mais velho, Marchino (Marlon Joubert), com quem divide o quarto e confidências de adolescência, e uma irmã que nunca conhecemos, pois está sempre trancada no banheiro. Seus pais são um casal em harmonia que se amam e se divertem juntos pregando peças um no outro e em terceiros. No início da narrativa, somente uma preocupação ocupa os pensamentos de Fabietto e sua família: a possível chegada de Diego Maradona para atuar no Napoli.

Ao longo do enredo, vemos Fabietto solitário caminhando pelas construções histórias de Nápoles e amadurecendo ao perceber que, na verdade, o casamento dos pais não era tão perfeito quanto parecia. Seu pai começa a namorar e se afasta um pouco dele e da família e, finalmente, Maradona chega ao Napoli. Todo torcedor sonha com a chegada do seu ídolo ao time do coração e espera que ela mudará sua vida com títulos e conquistas. A chegada de Maradona muda a vida de Fabietto de uma forma que ele jamais imaginaria: em um final de semana no qual os pais viajam para a casa de férias da família, o garoto desiste de ir com eles para ir ao estádio assistir ao jogo do Napoli. Os pais, então, viajam para a casa, onde um trágico acidente acontece.

Depois do acidente, a jornada de amadurecimento de Fabietto se torna ainda mais solitária, mas continua bonita, com personagens importantes ao seu lado, como a vizinha excêntrica que o ajuda na sua iniciação sexual. Além dela, o cineasta Capuano (Ciro Capano), com quem Fabietto conversa em uma cena-chave do filme, em um local que representa a síntese da cidade de Nápoles para Sorrentino: alegria e dor. Dialogando sobre a vida como matéria para a arte, Capuano pede a Fabietto que não desista, apesar de tudo.

Sorrentino afirma que, hoje em dia, tem certeza que, se não fosse pelo trauma que sofreu na adolescência, nunca teria se tornado cineasta. Como um bom napolitano, Sorrentino afirma também que é um hábito da sua região reinventar histórias de forma divertida e é assim que o diretor recria suas memórias partindo do trauma fundador da sua carreira: mostrando como a mão do deus napolitano Maradona interferiu no seu destino, protegendo a vida do seu torcedor fanático e o encaminhando a se tornar um grande nome do cinema italiano.

A Mão de Deus recebeu 1 indicação ao Oscar na categoria de: Melhor Filme Estrangeiro. 


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