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De guerreiros a deuses: The Gods We Can Touch, por AURORA

Em 2016, Aurora lançava, em seu álbum All My Demons Greeting Me as a Friend, o singleWarriors”, que já contava a história de guerreiros que utilizam o amor como forma de combate. Não por acaso seu fandom se intitula “warriors” até hoje, não somente em homenagem à sua música, mas porque as canções da cantora em muitas situações traduzem as vivências da comunidade LGBTQIA+, sempre muito presente entre seus fãs, sobretudo na América Latina. Aurora, antes de uma excelente cantora e compositora, é uma contadora de histórias, e é por meio dessas histórias que seu público se vê representado de uma forma muito poética. Em The Gods We Can Touch, tais histórias ganham força e maturidade, entre guerreiros e deuses.

Costumo dizer que um novo álbum da Aurora é sempre uma grande e bela surpresa.  A cada produção, a artista mostra que evolui cada vez mais o seu estilo individual, conquistando um público bastante diverso. Mantendo a sua natureza mística e etérea, uma voz que faz arrepiar a espinha e uma letra que parece ser você conversando consigo mesmo, seu terceiro álbum, The Gods We Can Touch, é, de fato, uma experiência divina. As melodias mostram que a cantora tem arriscado novos caminhos, e as letras revelam inspirações ricas. Como o próprio título do álbum dá a entender, as divindades são tratadas de modo palpável, humanizado, pois representam emoções verdadeiramente humanas.

“Os deuses que podemos tocar
Da luz que está dentro de nós
Para a escuridão que existe ao nosso redor
Em breve a personificação de tudo
Estará em suas mãos. E, esperançosamente, tocará suas almas.”

Oficialmente lançado em 21 de janeiro de 2022, o álbum caiu nas graças da crítica e, principalmente, dos fãs, pois Aurora consegue mais uma vez se mostrar uma artista ainda mais madura e experiente, explorando novos caminhos, mas sem perder a sua natureza autêntica que tanto conquistou esse mundo. Precedido pelos singlesExist for Love”, “Cure for Me”, “Giving in to the Love”, “Heathens”, “A Dangerous Thing” e “Everything Matters”, temáticas de amor e imperfeições humanas ganham forte protagonismo em sua produção. O álbum apresenta uma progressão: de músicas com tons mais eletrizantes e alegres nas primeiras faixas àquelas com um tom mais melódico e reflexivo.

“Cure for Me” foi o seu primeiro single e possui uma mensagem muito forte. Em uma mescla de experiências pessoais e em defesa das vivências de grande parte dos seus fãs, a música é um grande manifesto. Em entrevista à Gay Times, Aurora afirmou que foi fortemente inspirada pela comunidade LGBTQIA+ nessa canção. A cantora, que se declara bissexual, relata que estava pensando nas discriminações que a comunidade sofre, sobretudo com a força política de líderes homofóbicos e autoritários. A artista, que é natural da Noruega, revela a insatisfação com as “terapias de conversão”, que ainda são liberadas em seu país. A insatisfação com tal retrocesso se traduz em uma letra que utiliza a repetição dos trechos “Eu não preciso de uma cura para mim/ eu não preciso”. Ainda em entrevista, ela discorre sobre a força que a comunidade possui, que mesmo com tantos empecilhos tem um poder de propagar muito amor e alegria.

“Eu estava pensando sobre terapias de conversão e quantas pessoas passaram por isso. Ainda é permitido na Noruega, não é comum, mas não é proibido. É desolador, eu não consigo imaginar como é ouvir, de novo e de novo, todos os dias, que você é um erro e tão terrível que precisa de cura. É totalmente horrível.” — Entrevista da AURORA para a Gay Times.

Essa discussão ecoa em outras músicas, como em “A Dangerous Thing”, que possui um elemento um pouco mais melancólico, e em “Exist for Love”, em trechos como “Eu não consigo imaginar como é ser proibido de amar”. Em seu videoclipe, a cantora utiliza elementos visuais que remetem à Afrodite, a deusa grega do amor, estando em uma concha e cercada por pérolas, como o famoso quadro Nascimento de Vênus. É um verdadeiro culto ao sentimento do amor.

As influências gregas são percebidas em outras canções, como “Artemis”, batizada pelo nome da deusa da caça e da vida selvagem, uma personagem símbolo de força feminina: “A mãe nos fez uma filha selvagem/ Que nunca implora por perdão/ Os deuses nos fizeram uma caçadora virgem, que na tempestade se transforma em quietude”. Em “Giving it to the Love”, a cantora relata que se inspirou na história de Prometheus, no “fogo que nos torna humanos”, e faz uma canção sobre a vontade de se livrar dos padrões da mídia que nos ensinam a odiar a nós mesmos.

A simbologia do divino também é explorada em “The Forbidden Fruits of Éden”, que inaugura o álbum. Mesmo que não possua letra, o título remete à história do “fruto proibido”, que pode ser refletido na mensagem do amor que não deve mais ser contido. Sua criatividade em explorar a história do “primeiro pecado” em um álbum que explicitamente luta contra essas formas de discriminação também nos faz refletir sobre esse embate que é travado diariamente.

“Eu quero fazer uma música pop boa, intelectual e emocional, que possa alcançar as pessoas e falar sobre algo importante, e nos lembrar de algo além do que todas as coisas as quais nós não nos importamos realmente.” — Entrevista da AURORA para a Gay Times.

Ainda sobre sua entrevista à Gay Times, a cantora relata uma certa relutância no cenário da música pop em tratar de temas políticos. Por certo, com a comunidade que conquistou ao longo desses anos e da força que suas músicas têm conquistado, Aurora ganha mais espaço para explorar de forma cada vez mais corajosa temas que vão ao encontro dos combates travados no coração de cada um de seus warriors. A experiência de ouvir seu novo álbum, tendo acompanhado toda a sua trajetória até aqui, é a sensação de ser um herói, semideus, em uma história épica, como é o cotidiano daqueles que precisam lutar pelo direito de serem eles mesmos.


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